OPINIÃO

Fobias que arruínam férias

Há muitos medos que podem estragar as férias. Conheça-os na primeira pessoa e saiba como vencê-los.

Há muitos medos que im­pedem de gozar umas merecidas férias. Sabe que há quem recuse ir a Veneza por causa das baratas? Ou quem rejeite uma viagem paradisíaca por horror a voar?

Ana Araújo percebe pouco de fobias, cientificamente falando dos mecanismos que as espoletam e das estratégias para enfrentá-las, mas sabe o suficiente da sua para garantir que não irá a Veneza nem morta, enquanto a cidade estiver cheia de baratas. «Adorava visitar, mas não me atrevo, porque elas também gostam de água.» Nunca soube explicar ao certo o que sente: «A primeira sensação é a de pânico. Não consigo raciocinar. E depois fujo por instinto, as minhas pernas ganham vida própria.» Mais tarde, a salvo, sente um arrepio em onda pelo corpo e a noção do ridículo da sua catsaridafobia, mas não lhe adianta de nada. Há férias que ficam tão irremediavelmente comprometidas como se tivesse pânico de voar, de espaços abertos, multidões ou vacinas, para troça dos amigos que não entendem esta aversão.

«Por mais que pense que as bichas não me vão fazer mal, não dá para controlar. É aquela cor delas, aquelas patas horríveis», revela a escriturária, eriçada só de recordar um verão em que foi à Madeira e resultou em desastre: «Na ilha elas têm uma parte do corpo vermelha e voam, são horríveis. E quando cheguei uma noite ao quarto do hotel estava uma no chão. O meu marido na altura teve que sair da banheira todo ensaboado para tirar dali a barata, e nos dias seguintes apenas abria a janela um bocadinho para elas não passarem. Antes fritar com o calor no quarto! Se pudesse tinha vindo embora.» Ana não concebe outro método para lidar com o problema a não ser fugir. Nunca enfrentou uma barata, ficou mais de um segundo a olhar para uma ou se atreveu a matá-las. Simplesmente não concebe estar ao pé delas, vivas ou mortas.

«Todos os anos, sempre que o calor de verão se aproxima, as minhas antenas ficam no ar. Não consigo andar na rua sem estar sempre a olhar, não vá uma passar-me à frente», concretiza. Já lhe aconteceu ir a passear com a cadela perto das Amoreiras e saltar para o meio da estrada ao ver uma barata – a cadela saltou atrás dela e não foram atropeladas porque não calhou. «Nestes dez anos dividi apartamento com uma amiga, houve uma altura em que apareceram baratas nas escadas do prédio, e sempre que eu chegava à noite ligava para a minha colega de casa e pedia-lhe para descer e ver se eu podia passar em segurança.» Hoje tem uma moradia sua onde aparecem cigarras e grilos (bastante parecidos), causam-lhe arrepios, mas não ataques de pânico. «Vá-se lá entender…»

Versada na temática das fobias, a psicóloga clínica Maria de Jesus Candeias explica que aquilo que as caracteriza é precisamente o facto de serem irracionais e não terem explicação, algo diferente de se ter medo. «Uma fobia é maior que os medos comuns na medida em que o fóbico organiza a sua vida em função da ideia de evitar o objeto temido, sob pena de passar por ataques de pânico intensos», define. As pessoas sofrem de tal modo com a perspetiva de se confrontarem com o temor que as bloqueia que condicionam as suas vidas, optando por não ir a certos lugares, não andar de transportes, não usar elevadores mesmo que tenham que subir 20 andares a pé. «Não vale a pena dizermos “Ah, mas isso não faz mal nenhum”, porque o fóbico sabe que a aranha é inofensiva quando pula para cima da mesa, simplesmente não consegue controlar o desencadear do processo.» O limite em que precisa de ajuda é quando o pânico se torna tão grande que lhe afeta o dia a dia. «Quando já não consegue viver com ele», diz.

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Tal como Ana Araújo, Sandra Nobre não consegue precisar quando, porquê ou como se desencadeou o medo visceral que tem de aves. «Até por volta dos oito anos eu tinha gaiola com passarinho em casa e gostava de brincar com todos os animais quando visitava a casa de campo dos meus avós», lembra a jornalista, incapaz de se sentir repousada a ouvir o canto dos pássaros. «Depois há uma espécie de branca na minha memória e começou essa espécie de pavor, repúdio, nojo… As aves são o meu pior pesadelo, mas também não convivo com cães nem gatos, embora seja mais pacífico. E não, nunca vi Os Pássaros do Hitchcock!»

Viajante por profissão, Sandra não deixa que a sua ornitofobia lhe condicione os passos: vai simplesmente, sem pensar no assunto para não paralisar, e no local lida com o medo da forma mais elegante que conseguir, sem gritos. «Já estive na Praça de São Marcos, em Veneza, ao final do dia, esperei numa esquina que alguém desse milho aos pombos na outra ponta da praça e atravessei-a a correr», conta. Nunca ninguém a vê numa esplanada, por mais quente que esteja o dia, porque enfrentar um pardal ou um pombo é igual: ambos a tiram do sério. «Nos destinos exóticos como a Amazónia, Pantanal ou África do Sul, onde fui por vontade própria, tinha a garantia de que os animais selvagens não nos vêm comer à mão e isso ajuda.» Pelo contrário, no restaurante de um eco-resort em que havia uma enorme arara vermelha à solta, tiveram que tirá-la em braços, literalmente, porque congela perante a ameaça de aproximação.

«Decorridos alguns anos, consigo ignorar a presença de aves ao ponto de ter estado em mar alto, à pesca do bacalhau na Noruega, com uma nuvem de gaivotas sobre a minha cabeça de que só me apercebi na foto que me tiraram», orgulha-se a jornalista. «Mas escusam de me convidar para ir às Berlengas.» Ainda por conta da profissão, participou num périplo de observação de aves na Madeira em que viu e fotografou uma espécie que a ornitóloga que guiava o grupo esperava ver há dez anos: «Fiquei para trás, a captar uma teia de aranha perfeita (não tenho qualquer medo destes seres que a maioria abomina), e ouvi o canto numa árvore próxima. Fotografei, passei as fotos à guia e apaguei-as imediatamente do meu cartão de memória, nem quero ter esses registos.»

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Margarida Leite conhece bem este sentimento de não se querer debruçar sobre um temor que ainda hoje lhe acelera o coração quando pensa em enfrentá-lo: conduzir. «Tirei a carta há mais ou menos 14 anos. Não foi fácil, porque tinha pouca fé em mim mesma e aquela insegurança inicial de andar no meio do trânsito, mas aos poucos tornou-se um verdadeiro pesadelo, com medo de deixar o carro ir abaixo, das apitadelas, das avarias constantes.» Tantos nervos foram-lhe minando a convicção de que era capaz de dominar o volante, ela que teve as aulas nas ruas da capital em plena hora de ponta. Ainda deu umas voltas pelo bairro à noite, calmamente com uma amiga, mas o problema persistia quando mudavam o percurso para zonas de maior movimento e ela receava não controlar o carro. Um dia teve que parar num sinal, numa rua inclinada com outras viaturas atrás dela, entrou em pânico e nunca mais conduziu, já lá vão 13 anos.

«No dia a dia não sinto grandes impedimentos, porque moro numa zona central e vou para todo o lado de transportes. Mas sinto que gostava de não ter medo de conduzir quando quero levar a minha gata ao veterinário, comprar alguma coisa grande e na altura das férias», reconhece, incapaz de ultrapassar o pânico de incomodar os outros na estrada e de chamar as atenções sobre si. «Mulheres perfecionistas, receosas de errar, são as que mais sofrem de amaxofobia», confirma Salete Coelho Martins, especializada em psicologia do trânsito. Mais do que prática de condução, diz, a solução passa por «trabalhar a autoestima e inserir progressivamente o automóvel na vida do paciente». Margarida espera um dia ter a coragem de dar o passo rumo à cura: «Adorava fazer a Route 66 nos EUA e conhecer a Austrália e a Nova Zelândia em autocaravana. Se não tivesse tanto medo não parava sossegada.»

Cristina Albuquerque assegura que o primeiro passo para lidar com qualquer problema é reconhecer que ele existe – é por aí que incentiva os seus pacientes a aprenderem a voar sem medo. «Se eles continuam a forçar-se a fazer viagens de avião na esperança de que o temor desapareça de forma mágica, o mais certo é agravarem a situação: voo após voo, o indivíduo vai aumentando o medo até que um dia, dominado pelo pânico, desiste completamente de voar», aponta a psicóloga, especialista no tratamento de fobias de voo. Tal como na amaxofobia, são as pessoas autoexigentes, incapazes de relaxar e com necessidade de prever tudo que estão mais predispostas a desenvolver aerofobia. Quando isso acontece, o ideal é procurar ajuda médica – como a que Cristina dá no centro Voar Sem Medo e nos cursos homónimos ministrados em Lisboa e no Porto – e aprender as técnicas que permitem dominar a ansiedade sempre que se viaja de avião.

«Voar é uma situação contranatura, que desafia as leis da gravidade e nos confronta com os medos mais primitivos da espécie humana: o medo de cair, das alturas, de morrer, das trovoadas e do desconhecido. É frequente dizer-se que se Deus quisesse que o homem voasse, tinha-lhe dado asas», sublinha a psicóloga. Em última análise, quando a irracionalidade domina por completo a situação, viajar passa a ser uma fonte de sofrimento que o aerofóbico não controla. «Prefere ficar restringido aos meios de transporte terrestres, limitando a sua vida e a dos seus familiares. Deixa de fazer turismo, de participar em congressos, de ir a reuniões de trabalho importantes, de visitar familiares residentes no estrangeiro. Desiste da lua-de-mel, recusa empregos ou promoções, tudo porque se sente incapaz de entrar num avião.»

Com Armando Vilas-Boas, professor universitário, foi assim: «Após alguns voos sem qualquer incidente, desenvolvi uma fobia tão intensa em relação a voar que durante sete anos isso me impediu de pensar em aviões. O simples facto de ir levar ou buscar alguém ao aeroporto deixava-me num estado anormal de tensão, e não me passava sequer pela cabeça entrar num avião», conta. Decidiu então procurar a Voar Sem Medo, com quem percebeu que o problema, no seu caso, tinha a ver com o facto de que voar implica «estar numa situação em que nós não controlamos nada». Nos três dias que durou o curso, passou de um extremo da fobia para o estado em que atualmente se encontra, de saborear essa imprevisibilidade. «Aprendi que a aerofobia é uma questão mental. Desde aí só me apetece voar, o que já fiz e com um prazer que nunca tinha sentido.»

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Também Dinora Bastos não esconde uma aversão acentuada a provar alimentos que não façam parte dos seus hábitos alimentares mas, ao contrário de Armando, ainda não ultrapassou a fobia que a impede de comer sushi (e percebes, caracóis, enguias e comida marroquina). «O Japão nunca seria opção de férias. Tenho curiosidade e vontade de experimentar sushi, mas falta-me sempre a coragem. Não consigo perceber se tenho receio de não gostar do sabor, da textura ou de que me cause alguma intolerância», precisa a nutricionista, a primeira a recomendar o alimento no seu blogue Healthy Corner (http://dinorabastos.blogs.sapo.pt), por ser muito equilibrado. «Já fui jantar a um restaurante de sushi arrastada por amigas, com a ideia de tentar a versão cozinhada, mas nem isso. O cozinheiro acabou gentilmente por fazer uma massa cozida com legumes.»

Luís Soares Luís, doutor em Saúde Pública, explica que a neofobia pode ter uma função protetora em ambientes potencialmente hostis do ponto de vista alimentar, mas constitui um entrave para o indivíduo como consumidor, uma vez que impede o aproveitamento dos novos alimentos mais nutritivos e promotores de saúde. «Quando se planeia uma viagem, esta questão pode ser limitativa do destino ou condicionar o comportamento do fóbico e a sua inserção no grupo», resume o profissional. Dinora concorda: no estrangeiro, acaba a pedir pratos simples e parecidos com os portugueses, além de se socorrer da fruta, legumes e pão que crê haver em todo o lado (espera não ter surpresas um dia). Por outro lado, Luís ressalva que viajar também pode ajudar a diminuir a neofobia alimentar: «A diversidade cultural estará relacionada com uma certa apetência por novos alimentos (neofilia), quanto mais não seja pela exposição a diversos sabores.»

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Estendida a toalha com convicção, Sofia Cartó entrega-se à tarefa de desfrutar daquilo a que chama «uns diazinhos para dormir», nada de muito alargado no tempo, mas que lhe permite repor os sonos em falta e tratar de assuntos pessoais. O sol na pele revigora-a, fá-la sentir-se a eliminar tensões causadas pelas 12 ou 14 horas diárias que lhe exige a consultoria de comunicação. E é então que o telefone toca, à chamada segue-se uma ida rápida à internet para ver os e-mails e o trabalho fica com ela pela tarde, quanto mais não seja a fazê-la pensar no tanto que está por fazer. Sofia reconhece que pode bem sofrer de fobia da concorrência, um tormento que afeta muitos profissionais competentes e tem o condão de transtornar umas férias potencialmente perfeitas.

«Em consultoria torna-se complicado estar totalmente descansado nas férias. Temos muitos clientes e projetos, acabamos por estar sempre ligados nem que seja espreitando o e-mail de vez em quando», sublinha a consultora, inseparável do seu kit de emergência – iPhone e iPad – quando descansa em Portugal ou em breaks na Europa (em sítios mais distantes, o roaming e a falta de rede encarregam-se de desligá-la à força). «Também nunca estou fora mais de duas semanas. Normalmente tenho esse período mais longo no verão, altura em que o país está parado, e depois tento espalhar o restante ao longo do ano, quer tirando uma semanita, quer juntando dias de férias a fins de semana prolongados.»

Para Cândida Santos, mestre em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade do Minho e docente da Porto Business School na área de comportamento organizacional, preparar a ausência é o melhor método para garantir que seremos capazes de ir de férias descansados, sem o sentimento judaico-cristão de culpa que condiciona a nossa liberdade enquanto trabalhadores. «Algum tempo antes é importante começar a fechar e a arrumar assuntos, passar informação a quem fica no nosso lugar, deixar o mínimo de assuntos pendentes», enumera. Não tirar férias em ocasiões em que haja prazos rígidos a cumprir ou maior avalanche de trabalho, além de deixar uma mensagem na caixa de e-mail anunciando o período de ausência e o endereço de alguém que possa ser contactado em caso de urgência, são outras boas dicas que funcionam consigo.

«As férias servem para descansar, renovar energias, apaparicarmo-nos. Servem para fazer coisas de que gostamos (e para as quais nunca temos tempo) e refazer o nosso plano de vida pessoal e profissional», sublinha a especialista em gestão de pessoas, conhecedora desta fobia que impede muita gente de aproveitar o merecido descanso: vários estudos indicam que muitos profissionais de diferentes hierarquias laborais, sobretudo mulheres empreendedoras, ainda não equilibram da melhor maneira a relação entre vida familiar e trabalho, seja por insegurança, excesso de zelo, medo que o desejo de diversão seja tomado por falta de empenho ou receio de que um substituto ponha em causa o seu papel na empresa ou não esteja à altura da função. «Há quem faça das férias um corrupio, com uma agenda ainda mais sobrecarregada que a do trabalho.»

No caso de Sofia, ter uma equipa com quem partilhar os clientes aligeirou-lhe as partidas. «Tive que aprender a delegar tarefas e perceber que podia confiar nas pessoas, mas depois de fazer isso consigo estar mais descansada quando vou para fora», assume, satisfeita. O último dia é sempre caótico, a rematar pontas soltas para quem fica, mas até nisso melhorou: «Já saí do escritório às três da manhã, mas acabo por ter que estabelecer prioridades porque há sempre qualquer coisa que aparece para fazer.» Outro truque ditado pela experiência é classificar as férias. «Há aquelas em que vou para desligar, e aí aviso a equipa e os clientes de que vou desaparecer, e há outras em que sou mais permissiva e fico disponível para o que for preciso.» Cândida Santos aplaude: «A meu ver, é benéfico assumir que ninguém é insubstituível. E até é bom que sintam a nossa falta.»

MEDOS CÉLEBRES

ALFRED HITCHCOCK Considerado o mestre do suspense, o realizador fazia filmes que metiam assombrações, faca­das, gritos e sangue, mas tinha fobia a ovos. «Já viram coisa mais repulsiva do que um ovo a partir-se e a espalhar líquido amare­lo?», justificava, enojado. Talvez Os Pássaros, a sua obra-prima, tenha nascido por conta deste terror. E supõe-se que umas férias a acampar e a cozinhar ovos de mil e uma manei­ras estariam fora de questão…

JOHNNY DEPP Já inter­pretou personagens bas­tante carnavalescas, co­mo o Chapeleiro Maluco em Alice no País das Ma­ravilhas, ou Willy Wonka em Charlie e a Fábrica de Chocolate. Nada que atenue, porém, o medo que o ator tem de palhaços. «Há algo sob um rosto pintado e um sorriso falso. Parece haver uma escu­ridão real escondida sob a superfície, um potencial para o mal.» O terror das suas férias de verão seriam as festas de aniversário dos amiguinhos, animadas e ensombradas por palhaços e balões.

CHRISTINA RICCI É outra atriz conhecida por figurar em filmes tétricos como A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça ou A Família Adams, mas as plantas de interior tiram-na do sério como nenhuma cena de horror. «São sujas. Repugna-me só de pensar que há uma planta dentro de casa, então se precisar de lhe tocar passo-me completamente!» Para ela, casas de férias podem ter bichos, vasos de plantas é que nem pensar.

TYRA BANKS Nadar com golfinhos é o sonho de férias da maioria das pessoas, mas a apresentadora do programa America’s Next Top Model é bem capaz de preferir banhar-se num lago com piranhas. «Morro de medo de golfinhos desde que tinha uns 8 ou 9 anos. Tenho pesadelos em que estou numa piscina e eles me atacam», fundamenta.

BILLY BOB THORNTON A acreditar em vidas passadas, o ex-marido de Angelina Jolie deve ter sofrido um episó­dio grave com um jarrão chinês ou uma cómoda isa­belina noutra encarnação, a justificar a fobia que hoje tem de antiguidades. «Fico cheio de medo. Não consigo respirar bem nem comer com elas em redor», revela. Escapadinhas de férias em hotéis de época são impensáveis para o ator.

NICOLE KIDMAN Há quem as use no cabelo, em vestidos, anéis, pulseiras, tatuadas no corpo, a lembrar a bele­za do animal e a efemeri­dade da vida. As borboletas nunca passam de moda e as férias pa­recem a ocasião propícia para desfru­tar delas, mas não para Nicole Kidman. «Tentei superar o medo indo ao Museu de História Natural e não funcionou», confessa a atriz, vítima daquilo a que os cientistas chamam de motefobia.

MADONNA Para quem já pro­vocou a ira da Igreja Católica ao dedicar a música Like a Virgin ao antigo papa Bento XVI, raios e trovões poderiam parecer coisa de pouca monta. Mas certo é que nada mete tanto medo a Madonna como uma poderosa trovoada, capaz de lhe acelerar os batimentos cardíacos em qualquer altura do ano.

WOODY ALLEN O rol de medos do realizador dava um filme: insectos, cães, multidões, alturas, espaços confinados, luz solar in­tensa… Diz ele: «Eu e a minha mu­lher ficámos na dúvida entre tirar férias ou divorciarmo-nos. Optámos pela segunda hipótese: duas semanas nas Caraíbas podem ser divertidas, mas um divórcio dura para sempre.»

OUTROS MEDOS

AGORAFOBIA É o medo irracional de estar em lugares públicos, seja em espaços abertos ou entre multidões. O mundo de um agora­fóbico fica bastante mais pequeno, já que frequentar centros comerciais, eventos culturais e até aero­portos pode ser um drama.

AGIROFOBIA O termo é bastante parecido, mas define um pânico comple­tamente diferente: o de cruzamentos, de atravessar ruas onde transversais e viadutos se cruzam. Para quem sofre, visitar Nova Iorque ou Tóquio não são as melhores opções.

CAINOFOBIA A palavra provém do grego kainos, que significa novo, e refere-se a um medo patológico da novidade, de novas situações ou novas teorias. Atendendo a que tudo, em férias, pode ser uma sur­presa – o destino, as pessoas, aquilo que se come, a cultura –, é provável que estes dias não sejam os mais repousantes para os cainofóbicos.

DENDROFOBIA Ataques agudos de pânico, suores frios, dificuldade em respirar, náuseas, palpitações, vómitos, são tudo sintomas que podem afetar as pessoas que sofrem de horror às árvores (ramos e folhas incluídos). Nada de passeios românticos na flores­ta, portanto…

GELIOFOBIA Um nome estranho define um medo ainda mais estranho: o de rir e ouvir os ou­tros rirem, algo que é suposto acontecer com frequência nas férias. Como em todas as fobias, o temor é irracional e desconhece-se a causa, mas a pessoa que sofre faz tudo ao seu alcance para não entrar em contacto com ele.

HELIOFOBIA Medo anormal, persistente e injus­tificado da luz do sol. Há quem goste de tostar na praia e outros que, pelo contrário, tremem só de imaginar a pele a ressequir e a enrugar sob o efeito dos raios ultravioleta, razão por que preferem não sair de casa.

TALASSOFOBIA Para a maioria das pessoas, férias são sinónimo de destinos de mar com águas transparentes, uns quantos coqueiros e boas ondas para mergulhos e surf. Se a simples ideia de viajar de barco ou fazer um cruzeiro lhe causa aversão, é provável que sofra de talassofobia.

METIFOBIA Cervejas geladinhas ao final da tarde, cocktails coloridos à beira da piscina, noites de copos com os amigos. Ninguém leva a mal alguns excessos, mas os metófobos fogem do álcool a ponto de evitarem férias em grupo, festas e celebrações especiais.

MISOFOBIA Define um medo tão extremo da sujidade e da contaminação por germes que os afetados elevam os seus cuidados de limpeza à máxima potência, como lavar as mãos 40 vezes em meia hora ou evitar ser tocados pela fa­mília e os amigos. Di­fícil de conciliar com programas de grupo, espaços apinhados, bagagens remexidas e a higiene menos cuidada das férias.

NOSTOFOBIA
Depois de uma série de receios que im­pedem as pessoas de irem de férias e desfrutá-las em pleno, a nostofobia traduz o pavor de re­gressar a casa. Algo que se pressupõe, naturalmente, que aconteça no final de cada partida em viagem.

Ana Pago
Fotografia: Gonçalo Villaverde/Global Imagens