1.
O acerto métrico não é o único elemento importante mas é essencial. Se a medida do fato não está certa, nem as melhores cores o salvam.
A roupa não é, portanto, pintura portátil – porém, a escolha sensata das cores ajuda. Não é escultura porque não é feita com escopro e martelo –, mas a moda para cegos, por exemplo, deve ter por base uma pintura táctil: perceber a cor pelos dedos; o tacto concluir em vez dos olhos: isto é belo, isto não.
2.
Os tecidos vêm da fábrica, informes e brutos, e são depois transformados em quadrados, rectângulos, triângulos e circunferências. Formas geométricas.
Mas talvez a última das formas geométricas (ou a primeira) seja a forma do corpo humano.
No entanto, o corpo humano não é soma de quadrados, nem resulta de circunferências que se juntam, nem é formado por triângulos em relações próximas com rectângulos grandes e pequenas circunferências. A forma humana, de facto, não é geométrica: não dá conta certa, não é simétrica; não tem os lados iguais nem os seus pontos têm a mesma distância em relação ao centro (e, para já: qual o centro da forma humana? – o cérebro, o coração?).
O corpo humano, enfim, é não geométrico.
Fazer, portanto, roupa com exactidão geométrica e quantitativa para um ser humano desequilibrado, excitado, fatigado, perturbado, outras vezes tranquilo – por vezes tantas coisas diferentes ao mesmo tempo. Roupa exacta para um humano mortal e sobressaltado. Eis o que é difícil.
Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Publicado originalmente na edição de 19 de outubro de 2014