OPINIÃO

Dar música ao pessoal

José Filipe Rebelo Pinto, o homem que inventou o Out Jazz e trouxe outra onda ao Martim Moniz.

Imagina o trabalho de dar forma à música que até setembro se ouvirá um pouco por toda a capital graças ao festival Out Jazz? José Filipe Rebelo Pinto é o homem que Lisboa deve aplaudir.

Quem o ouve dizer que es­colheu Ciências no secun­dário para poder surfar à tarde, ele que até tem o bronze dos surfistas, cor­re o risco de ficar com uma ideia muito errada de José Filipe Rebelo Pinto. Os 40 anos, que completa em agos­to, chegaram-lhe e sobraram para mudar a face de Lisboa. Metódico como um ca­valheiro inglês, as ideias a aparecerem em catadupa até quando dorme, não descan­sou enquanto não revitalizou o Cais do So­dré, dinamizou a praça do Martim Mo­niz e criou o Out Jazz, o festival alterna­tivo que corre os fins de semana de maio a setembro e já leva oito anos a animar re­cantos da cidade onde não se julgava caber música. Ninguém se iluda com o jeito des­contraído de José Filipe. Este homem é um visionário que vive para ver o seu trabalho dar frutos.

«Andei uns tempos meio perdido, che­guei a concorrer a Medicina. Felizmen­te, não tive nota para entrar e tirei Marketing no IADE», conta o empresário, satisfei­to com as bases que lhe permitem agora voar como gosta: sem rede, mas com objetivos de­finidos. «Mais tarde, quando enviei currícu­los para fazer produção de espetáculos e de música e ninguém me respondeu, tinha eu 24 anos, abri a minha empresa com cinco só­cios e fiz-me ao caminho, a transportar equi­pamento e a guiar as bandas que chegavam a Portugal para os festivais de verão.» O jovem acumulava a produção de eventos com um lugar de barman no Indústria, à noite, quan­do enfrentou o seu primeiro momento de vi­ragem séria: «Saí da empresa, meti-me num restaurante com o Chacall que ainda hoje es­tá emparedado e, de repente, ali estava eu, com uma dívida ao banco de 600 euros men­sais, sem dinheiro e sem projeto.»

O desaire do destino podia ter arrumado qualquer um, mas, a ele, espicaçou-lhe a de­terminação. Em abril de 2004 criou a NCS (Número de Ciclos por Segundo), a empre­sa especializada no apoio técnico à produção de eventos que mantém ainda hoje nas áre­as de audiovisuais e estruturas. Ao mesmo tempo, propôs ao Jamaica [mítica discoteca no Cais do Sodré] ficar com as quintas-feiras e entrou com música negra – funk, jazz, hip hop– quando os outros ainda passavam eletro. «A minha mãe foi a única a acreditar em mim, mas o facto é que batemos o recorde de faturação logo na primeira noite», conta. Foi um instante até estabelecer parcerias com o Texas (atual MusicBox), o Europa e outros pontos fulcrais do Cais do Sodré que lhe devolveram a v «Andei quatro anos a bater à porta da Câmara de Lisboa, sem conseguir entrar com o projeto na cidade porque as taxas de ocupação eram elevadíssimas, não havia patrocínios e ninguémacreditava naquilo.» Em 2005 estreou o conceito no Festival Sudoeste, quatro dias de concertos gratuitos na zona de campismo.«Perdi ali muito dinheiro, mas com os registos de imagem vendi a ideia e, em 2007, nasceu realmente o Out Jazz.» No segundo ano, o evento ainda só se realizava aos domingos, mas com o upgradede ter cabeças de cartaz. No terceiro festival, ficou sem patrocínio a um mês do início e decidiu arriscar, mais uma vez com êxito ida de outros tempos. Enquanto isso, a NCS crescia em equipamento, o que lhe permitiu arquitetar o Out Jazz.

«Andei quatro anos a bater à porta da Câmara de Lisboa, sem conseguir entrar com o projeto na cidade porque as taxas de ocupação eram elevadíssimas, não havia patrocínios e ninguém acreditava naquilo.» Em 2005 estreou o conceito no Festival Sudoeste, quatro dias de concertos gratuitos na zona de campismo. «Perdi ali muito dinheiro, mas com os registos de imagem vendi a ideia e, em 2007, nasceu realmente o Out Jazz.» No segundo ano, o evento ainda só se realizava aos domingos, mas com o upgrade de ter cabeças de cartaz. No terceiro festival, ficou sem patrocínio a um mês do início e decidiu arriscar, mais uma vez com êxito.

«Apostei todo o dinheiro que tinha no projeto, pedi ajuda aos músicos (que não cobraram cachê) e a NCS assumiu a parte audiovisual. Passámos de um público de dez mil pessoas na primeira edição para um de 110 mil no final do ano passado, com perspetivas de internacionalização para Madrid e São Paulo», agradece o empresário, sabendo como foi difícil fazer tudo acontecer. «Foi um empreendimento que deu para lutar muito, deu para sofrer muito. Mas também já deu para ver resultados e posso dizer que foi o meu melhor projeto. » O Martim Moniz, por seu lado, é o maior desafio de sempre.

 

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A reabilitação da praça do Martim Moniz surge precisamente quando o Out Jazz se torna um gigante que deixa de lhe inspirar cuidados e a NCS já caminha sozinha, sedia­da em força no LX Factory (as mãos mágicas de José Filipe também puseram as coisas a mexer por aqueles lados ao abrir o Faktory Club). «Na altura apeteceu-me um projeto mais humanitário. Ainda pensei ir um ano para África, mas depois vi esse potencial no Martim Moniz, um largo fantástico abando­nado no centro de Lisboa, e quis fazer algo por isto.» Não perdeu tempo a apresentar à autar­quia um plano para aproveitar dez dos quios­ques que já existiam na praça e criar o Merca­do de Fusão com barraquinhas de comida do mundo e tendência dos grandes centros urbanos é dinamizar sítios trashy, criando oportunidades para os que cá vivem e os que chegam. E eu sou de Lisboa, apaixonado por Lisboa. Gosto de ver Lisboa acontecer.»

Para já, além de tentar conquistar outros empresários para a causa de impulsionar a zona, José vai abrir um bar chamado Topo, no último andar do Centro Comercial Martim Moniz, para «cativar aquele público que prefere o Príncipe Real, por ser mais chique».

Comprou ainda um estúdio no qual conta abrir um restaurante ilegal de alto nível, com um chef de cozinha e menus de 50 euros, acreditando que muitas vezes as coisas têm de ser feitas à revelia antes de os licenciamentos chegarem. «O segredo é ser pioneiro, ver o que não existe e fazê-lo de raiz», diz. Nada de ir atrás dos outros e abrir mais uma hamburgueria gourmetou um bar de sushi. «Para copiar estão cá os chineses, que são muito bons e muito mais baratos do que nós.» espaço de sobra para receber o Out Jazz aos sábados – uma das novidades deste ano. «Vivi um ano em Nova Iorque quando tinha 18 anos, três meses em Barcelona depois do curso, e adoro esta mistura de costumes. O Martim Moniz é o lugar ideal para se combinar a mercearia indiana com umas lojas de streetwearurbano como as do Bairro Alto», adianta o empresário, que antes de agir se fartou de andar às voltas e falou com as pessoas para perceber o que pensam. «Aliás, atendência dos grandes centros urbanos é dinamizar sítios trashy, criando oportunidades para os que cá vivem e os que chegam. E eu sou de Lisboa, apaixonado por Lisboa. Gosto de ver Lisboa acontecer.»

Para já, além de tentar conquistar outros empresários para a causa de impulsionar a zona, José vai abrir um bar chamado Topo, no último andar do Centro Comercial Martim Moniz, para «cativar aquele público que prefere o Príncipe Real, por ser mais chique». Comprou ainda um estúdio no qual conta abrir um restaurante ilegal de alto nível, com um chef de cozinha e menus de 50 euros, acreditando que muitas vezes as coisas têm de ser feitas à revelia antes de os licenciamentos chegarem. «O segredo é ser pioneiro, ver o que não existe e fazê-lo de raiz», diz. Nada de ir atrás dos outros e abrir mais uma hamburgueria gourmetou um bar de sushi. «Para copiar estão cá os chineses, que são muito bons e muito mais baratos do que nós.»

 

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O PROGRAMA DAS FESTAS

SEXTAS – 18H00

MAIO
2 Praça do Martim Moniz Carlos Martins Quarteto + DJ Johnny 9 Jardim Conselheiro Fernando de Sousa (gau) Wack + DJ Nokin 16 Parque Quinta das Conchas Trisonte + DJ Miguel Sá 23 Jardim do Campo Grande Rocky Marsiano + DJ D-Mars 30 Praça do Martim Moniz Adilan Ferreira.

JUNHO
6 Mata de Alvalade Miguel Martins Trio + DJ Mr. Bird 13 Praça do Martim Moniz Daniel Lima Trio + DJ João Dinis (1.ª linha) 20 Praça do Martim Moniz Blues and Swing Trio + DJ Nebur – Rare Grooves/Disco e afins 27 Zona j DJ Kope.

JULHO
4 Miradouro do Torel Hombres com Hambre + DJ Andy H 11 Praça do Martim Moniz Betight + DJ Kamala 18 Jardim Botto Machado – Feira da Ladra André Santos + DJ Isaac 25 Vale do Silêncio Maskoff + DJ Ijahnheco meet Mr. Goodvibes Aka Selecta Orka.

AGOSTO
1 Terreiro do Paço – Caisdas Colunas Experimen­ta-listic Duo 8 Praça do Martim Moniz Chibanga Groove + DJ Novo Major 15 Jardim ao lado do Oceanário – Parque das Nações DJ Orange Evolu­tion 22 Praça do Martim Moniz Jack Nkanga + DJ Kilu 29 Jardim Amália Ro­drigues António Bruheim Trio + DJ Pedro Simões.

SETEMBRO
5
Praça do Martim Moniz Trackpack + DJ Stereossauro 12 Bica – Escadarias Gileno Santana Trio + DJ Rui Pregal da Cunha 19 Jardim da Graça Lisbon Lab Trio + DJ 2oldforschool 26 Jardim do Miradouro de São Pedro de Alcântara Francisco Sales + DJ Mary B.

SÁBADOS – 17H00 (SEMPRE NO MARTIM MONIZ)

MAIO
3
Cachupa Psicadélica + DJ Rykardo 10 Tributo a Kenny Wheeler + DJ Azza 17 Khayalan Trio + DJ Manu 24 Writers Delight 31 Bob Figurante e convidados.

 JUNHO
7
Cooltour + DJ Violeta 14 I Love Baile Funk 21 João Lencastre Trio + DJ Dedydread 28 Macacos do Chinês + DJ X-Acto.

JULHO
5
Francisco Pais Lotus Project + DJ Zef 12 Ngoma Moçambique + DJ Irmãos Makossa 19 Madjezz + DJ Nuno Di Rosso 26 Oco + DJ Selecta Alice.

AGOSTO
2 Gonçalo Marques Quarteto + DJ Tiago Fonseca 9 Kilu – Frequência + DJ Kajokolo 16 Hikari + DJ Master Marghuerita 23 The Bagattels + DJ Ayala 30 Calu Moreira + DJ Celeste/Mariposa.

SETEMBRO
6 The Amplectors + DJ Kaspar 13 Open Source 20 Gapura + DJ Mike Stellar 27 Mão na Massa.

DOMINGOS MEO – 17H00

MAIO
Jardim da Torre de Belém 4 Groove 4tet + DJ John Player Special 11 Nbc + DJ Glue 18 The Mingus Project + DJ John Holmes 25 Guilande + DJ Casal Maravilha.

JUNHO
Anfiteatro Keil do Amaral (Monsanto) 1 Fresh Fred and Friends + DJ Rui Miguel Abreu 8 The Zany Dislexic Band + DJ alcides 15 Zuulnation + DJ Paulo Nupi 22 Caixa Cubo + DJ Rita Maia 29 Tugoslavik Orkestar + DJ Camboja Selecta.

JULHO
Jardim da Tapada das Necessidades 6 Júlio Resende “You Taste Like a Song” + DJ Twofold 13 M-Pex + DJ Kwan 20 Wonder Wheel + DJ Mãe Dela 27 Cacique 97 + DJ Tiago Santos.

AGOSTO
Jardim da Estrela 3 Quarteto Daniel Hewson & Selma Uamusse + DJ Pan Sorbe 10 Quinteto Ricardo Pinto – Landscape + DJ Lucky 17 João Hasselberg + DJ Isilda Sanches 24 Vdsrh + DJ Al:x 31 Silk + DJ Mr. Mute.

SETEMBRO
Parque Tejo 7 Veecious + DJ Nery 14 Filipe Melo Trio + DJ Switchst(d)ance 21 Catarina dos Santos + DJ Ride 28 “Maloca” – Mo Francesco Quintetto + DJ Vitória Régia.

A entrada é livre e o programa poderá sofrer alterações sem aviso prévio.

 

Ana Pago
Fotografia: Gonçalo Villaverde/Global Imagens