OPINIÃO

Cuidado com o presentismo

Passar mais tempo no local de trabalho não é sinónimo de produtividade.

Ter o hábito de permanecer no trabalho depois da hora e aparecer mesmo quando se está doente são sinais de alarme no mundo laboral. O presentismo – a presença excessiva dos trabalhadores nas empresas – tem efeitos negativos na vida e na saúde das pessoas e traduz-se por uma quebra da produtividade, alertam os especialistas.

Ter horário para entrar, conti­nuar a trabalhar depois da ho­ra de saída ou aos fins de se­mana e feriados, adiar as fé­rias e não faltar ao serviço mesmo quando se está doen­te. Estar sempre presente na empresa e por sistema trabalhar mais horas do que as que são devidas e necessárias são atitu­des que, nas últimas décadas, têm ganho terreno e «adeptos» nas organizações. Os «partidários» do presentismo laboral – a expressão entretanto adotada para de­finir uma presença excessiva no local de trabalho – fazem-no por pressão social, para ficarem bem-vistos pelas chefias ou por receio de perderem o emprego. Já os dirigentes que incentivam ou consentem esta prática acreditam no princípio de que a produtividade resulta do número de ho­ras que os funcionários passam no local de trabalho. Mas não. Ao contrário do que se poderia pensar, nem o bom empregado é o que passa demasiado tempo no serviço, nem o presentismo se traduz num aumento da produtividade nas empresas.

Nélson Ramalho, especialista em psicologia social e das organizações e em comportamento organizacional, não tem dúvidas em afirmar que os efeitos do presentismo se refletem na vida e na saúde dos trabalhadores e na quebra de produtividade: «Associar o valor do trabalho exclusivamente ao número de horas trabalhadas é um erro. Há uma falsa premissa de que o trabalhador vende horas trabalhadas, mas não. Na verdade, este vende os resultados desse trabalho. E os resultados podem traduzir-se, ou não, na exigência de uma disponibilidade horária como acontece, por exemplo, nos serviços de atendimento.»

O professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) prossegue, esclarecendo que nem a eficácia do trabalhador nem a qualidade do trabalho produzido exigem sempre a sua presença em regime de tempo completo ou mesmo um posto de trabalho fixo: «Um trabalhador pode ser mais produtivo se tiver ao seu dispor meios tecnológicos que dispensem a sua presença constante na empresa, comparativamente a outro que também os tenha mas que seja obrigado a vender tempo.»

Nélson Ramalho é perentório em afirmar que a instituição de uma cultura que equaciona mérito profissional e dedicação como algo decorrente do número de horas trabalhadas gera uma pressão constante, o que se reflete na redução da produtividade ao longo do dia: «Ainda há um equívoco muito grande e generalizado sobre o que é a produtividade e como se mede. De forma simples,podemos dizer que se mede dividindo o valor do produto ou serviço (aquele que o cliente paga) pelas horas trabalhadas. Assim, produzir muitas unidades de baixo custo usando muitas horas para exportar bens que, depois, são apropriados por uma empresa colocando-lhe uma etiqueta que tem valor de marca, significa dar a imagem de que a produtividade é muito baixa na fonte e muito elevada no intermediário. A produtividade reside antes de mais na capacidade que a liderança tem de compreender a cadeia de valor e pensar estrategicamente.»

O investigador acrescenta que empresas ou chefias que imponham a presença física aos trabalhadores quando esta não é necessária «abrem a possibilidade de aqueles se fixarem nos meios, neste caso, nas horas de trabalho despendidas, e não nos fins, que são os resultados». E quanto às chefias que exercem esse género de pressão e controlo sobre os colaboradores, «podemos dizer que perdem a capacidade para concentrar a atenção em medidas que promovam a melhoria e a inovação da sua equipa».

Sara Ramos, também professora no ISCTE, concorda com o colega e adianta que permanecer na empresa e trabalhar sistematicamente para além da hora (overtime) também tem reflexos comprovados na saúde física e psicológica dos funcionários. A especialista em psicologia do trabalho e das empresas diz que as consequências dependem das condições de trabalho, ou da falta delas, mas refere que os efeitos negativos se fazem sentir de forma mais severa em determinados tipos de trabalho do que noutros: «Geralmente é nos mais mal remunerados e menos reconhecidos e em que o motivo ou a pressão para permanecer no serviço para além da hora é exterior ao trabalhador que ocorrem os casos mais problemáticos.»

Mas quais são, afinal, os efeitos negativos do presentismo na saúde física, psicológica e social dos trabalhadores? Segundo Sara Ramos, a nível físico, os problemas músculoesqueléticos, a diabetes e as dislipidémias (aumento das gorduras do sangue, sobretudo colesterol e triglicéridos) são os mais frequentes, mas também se observa uma maior vulnerabilidade dos sistemas imunitário e cardíaco. Já no plano psicológico, os mais comuns são o stress, depressão, ansiedade, irritabilidade e o estado burnout, o chamado síndroma da exaustão, que se manifesta por um esgotamento físico e emocional relacionados com o ambiente profissional. A professora fala ainda dos problemas que resultam do contágio das esferas profissional e familiar e dos inevitáveis conflitos entre trabalho e família, o que também aumenta a vulnerabilidade dos trabalhadores. Há dois anos, Conceição Soares, 54 anos, secretária numa empresa de comunicação, sentiu na pele as consequências do presentismo: «Na verdade ninguém me dizia para ficar a trabalhar para além da hora, mas o trabalho que me era distribuído era tanto que, durante vários meses, trabalhei mais de 12 horas por dia. Vinha trabalhar exausta, com dores nas costas, cheguei a vir com gripe. Até que um dia, de repente, comecei a chorar, perdi a força e não consegui voltar a pôr-me de pé.» Resultado: um diagnóstico de esgotamento por exaustão, depressão e dois meses de paragem forçada. Tempo suficiente para que Conceição recuperasse a energia física e anímica e refletisse: «Decidi que nunca mais voltaria àquele regime. Agora faço o meu horário e acabou. Mas a verdade é que dou comigo a produzir mais em sete horas, com pausas para o almoço, para café ou para trocar dois dedos de conversa com os colegas, do que quando vivia doze afundada entree-mails, dossierse notas de despesa.»

Nélson Ramalho diz que a exaustão física e psicológica é um fenómeno largamente estudado. Manifesta-se quando as pessoas mobilizam, de forma continuada e duradoura, recursos que são insuficientes face às exigências do trabalho: «Os trabalhadores podem não sentir a fadiga mas com a exposição prolongada a fatores de stresspoderão atingir um estado de burnout.»Maria Antunes, 35 anos, trabalha em agências e comunicação há mais de dez, podia ter sido mais um caso. Reconhece que cultivou o «mau hábito» de passar demasiadas horas no local de trabalho, mas diz que o fazia devido à preocupação com o futuro: «Na verdade, pensava que o mais importante era manter o posto de trabalho e fazia o possível e o impossível para não o perder. O trabalho era a minha vida. Trabalhava 12, 14, 16 horas por dia, sábados e domingos, alterei férias, acumulei dezenas de folgas em atraso.» Resultado? Além da falta de tempo e dos desentendimentos com o companheiro, Maria começou a acusar fadiga e uma irritabilidade fora do comum. «Mas não parei. Na verdade, a única coisa que me fez parar para pensar foi verificar, com grande sofrimento meu, que não era imprescindível para a empresa.» Maria foi uma das vítimas da crise? «Não sei, o que sei é que diante dos primeiros sinais de alarme, quando alguns clientes institucionais não renovaram os contratos, houve uma reestruturação e eu fui convidada a sair. Foi um rude golpe. De nada valeu a minha dedicação nem a boa avaliação dos superiores.»

Sara Ramos confirma que os motivos mais frequentemente referidos pelos empregados para trabalharem horas a fio são o receio de perda de crédito profissional por parte das chefias ou dos colegas e o medo, cada vez mais presente, de perder o emprego. Mas do que a professora do ISCTE também fala é da necessidade das organizações incrementarem uma cultura promotora do equilíbrio entre a vida profissional, familiar e pessoal. A bem da vida dos trabalhadores e do aumento da produtividade das empresas.

 

Célia Rosa
Ilustração: Corbis