OPINIÃO

Bárbara, a filha da troika

A presença da Troika em Portugal marcou a vida de muitas famílias. A da pequena Bárbara é uma delas.

Em abril de 2011, no dia em que a troika chegou a Portugal, Bárbara nasceu num hospital do Porto. Os pais chamam-lhe «filha da troika». Teresa e Arlen perderam o emprego e a família Bispo teve de se educar na austeridade. Três anos depois, a mãe continua à procura de trabalho. E o pai vê os filhos nos intervalos dos dois empregos que teve de agarrar. De manhã à noite. Seis dias por semana. O Portugal que se aperta dia após dia não se esgota na estatística. Sobrevive e avança graças a famílias assim.

Bárbara não conhece Massimo Suardi. Teresa não conhece Massimo Suardi. Se lhe fa­lassem nele, Jorge diria, com a bondade de espírito de um pirralho de seis anos, que lhe falta esse cromo da seleção italiana na ca­derneta do Mundial de futebol do Brasil. E Arlen? Bem, Arlen apenas encolheria os ombros, numa evasiva prudente. Quem?

A 11 de abril de 2011, aterrava no aeropor­to da Portela, em Lisboa, vindo de Bruxe­las, um italiano vestido de negro. Passa­vam poucos minutos das 21h30 e Portugal vivia, ainda, atordoado sob o efeito de um tsunami chamado Programa de Assistên­cia Financeira. Estávamos, oficialmente, sob resgate. Massimo Suardi era o chefe adjunto da missão da Comissão Europeia encarregada de avaliar a situação macroe­conómica do país. Foi, apenas, o ponta-de–lança de uma equipa de ferozes atacantes da Comissão Europeia (CE), Banco Cen­tral Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) que, um dia depois, foi recebida com a mesma pompa e benes­se mediática reservada às estrelas inter­nacionais da música. Mas a marcha, des­ta vez, era fúnebre. Portugal estava na rota dos países do Velho Continente que haviam recorrido a um chorudo envelope financeiro (no ca­so, de 78 mil milhões de euros) para sane­ar as contas públicas. Para pagar salários aos funcionários do Estado. Pensões. Pa­ra manter, no essencial, a nação viva, ain­da que artificialmente ligada às máqui­nas. Grécia e Irlanda já tinham estendido a mão aos novos credores.

Quando Massimo Suardi aterrou em Lisboa, o televisor do Hospital da Ordem da Lapa, no Porto, estava desligado. Pude­ra. Teresa Bispo, 35 anos, e o marido, Arlen Bispo, 38 anos, só tinham olhos para a filha  de 3,5 quilos que nascera horas antes. De uma cesariana programada, por capricho do destino, para o mesmo dia 11 de abril de 2011 que ficará para a história como o pri­meiro de uma penosa jornada de três anos que ontem, 17 de maio, terminou, com aquilo a que designou chamar-se de «saída limpa». Estamos por nossa conta. De novo. Bárbara, assim se chama a criança, tem, por isso, e sem o saber, uma terceira filia­ção. Ela é, também, filha da crise. A troika entrou com tudo nesta família.

 

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Na sala de estar do apartamento dos Bis­po, em Canidelo, Vila Nova de Gaia, Jorge, o mano mais velho, tenta um ar sério, ain­da que o desalinho dos dentes lhe faça cair a máscara. Mas desata a rir, a cara toda es­praiada numa felicidade que preenche as divisões da casa, quando ouve a mãe Tere­sa proclamar, numa espécie de sentença fa­miliar: «Ó Bárbara, tu és a filha da troika.» Bárbara acha graça ao epíteto e esboça um sorriso tímido. Na sua inocência, acredita que a mãe lhe atirou com um elogio.

A menina de cabelos encaracolados que se derrete com a Kitty, a gata nipónica que faz a alegria das crianças, desenvolveu uma particular resistência a todos aque­les que querem fazer-lhe um retrato. É uma estátua viva ao espírito do sacrifício das famílias portuguesas. A dela, tudo tem feito para que a pequena, agora com três anos, não faça mais nada para além do que é suposto fazer: brincar. Ser feliz.

Mas não tem sido fácil. Cerca de um ano depois de Bárbara nascer, Teresa, portuguesa com um humor e energia tí­picos dos brasileiros, e Arlen, brasilei­ro cuja ponderação projeta muito fado e pouco samba, ficaram desempregados. Trabalhavam num health club, no Porto, ele como chefe de receção, ela como re­cecionista. Teresa veio embora primei­ro, em junho de 2012. Arlen resistiu até dezembro. O Natal desse ano foi amargo.«Quase de um momento para o outro, per­demos 60% do rendimento», diz ele. Juntos, o casal auferia cerca de dois mil euros. Ca­sa arrendada, um carro pago a prestações, uma vida normal, sem excessos. Almoços e jantares fora com amigos de vez em quan­do. Um saudável clichê da classe média. «Podíamos, por exemplo, ir ao super­mercado e comprar os produtos sem es­tarmos sempre a verificar se eram de mar­ca branca ou se havia algum desconto», diz Teresa. O que era essencial, os filhos, a ali­mentação, um teto, continuou a ser essen­cial. «Eles são a nossa missão na vida», entrecorta Arlen. «Fizemos questão de explicar-lhes que não é importante ter uma PlayStation ou outra modernice qualquer. Que é importante brincar lá fora, correr, saltar, andar de patins e de trotinete. É muito mais divertido. Revi­mos alguns valores que estavam esque­cidos», atalha Teresa. «Passamos, tam­bém, a comprar e a vender alguns bens em sites de produtos usados. A princípio fazia-me alguma confusão, mas agora encaro isso até com algum entusiasmo.» O «eu quero isto», máxima que as crian­ças reproduzem com a mesma rapidez de raciocínio de um atirador furtivo, te­ve de ser mitigada.

Arlen e Teresa sen­tiram necessidade de explicar, sobre­tudo ao mais velho, que a vida dos pais mudou, que o dinheiro não cresce nas ár­vores, que o esforço tem de ser conjunto. Jorge, atrevidote franzino que se agar­ra com a tenacidade de um Hércules à caderneta do Mundial, é posto à prova.– Diz-nos, Jorge, o que é mais importan­te para ti? Ele passa no teste com distinção: «Eu percebo que o pai tem de trabalhar, pa­ra ganhar dinheiro, para comprar roupa e comida». Arlen não disfarça a admiração pelo fi­lho. Mas, na verdade, é Jorge quem tem de admirar o pai. Arlen e Teresa estive­ram nove meses a beneficiar do subsídio de desemprego, mas Arlen bateu a tantas portas que acabou por achar logo duas abertas. «Primeiro encontrei emprego co­mo segurança num parque de estaciona­mento, trabalhando à noite. Depois, surgiu a oportunidade de voltar a trabalhar nou­tro ginásio. Na situação em que estávamos, tive de optar… pelos dois empregos.»

 

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E foi assim que Arlen começou a vi­ver num carrossel laboral. Das 09h00 às 19h00 é gestor de clientes no WellDomus, um ginásio na zona do Fluvial, em Lorde­lo do Ouro. Das 19 horas à uma da manhã, cumpre a missão de segurança no Cris­tal Park, um parque de estacionamento anexo ao Hospital de Santo António. Co­mo não tem asas nem descobriu a fórmula mágica do teletransporte, teve de contar com a compreensão dos patrões, que lhe concederam uma folga de alguns minutos para poder contornar a sobreposição do horário de saída com o horário de entrada.

Seis dias por semana, 14 horas por dia (ao sábado são 15), Arlen anda numa roda–viva. «Durmo às pressas.» Por isso, nunca como agora o domingo lhe pareceu um dia tão religiosamente importante. Vinga-se da troika com todas as forças. Durante uns largos e penosos meses, o horário foi ainda mais apertado e nem se­quer à hora do almoço podia ver os filhos. As coisas mudaram entretanto e Arlen já consegue ser pai durante algumas refei­ções. «Dá para estar com eles e, às vezes, até consigo dar uma corridinha, senão a cabeça explode.» A estatura física deste brasileiro natural de Salvador da Baía encontra paralelo no tamanho do seu caráter. «Honrar meus compromissos», «hon­rar meus compromissos», vai repetin­do. Dorme poucas horas, mas nesse hia­to temporal gosta de não ser incomodado pela consciência.

Os Bispo moram num apartamento aco­lhedor com pelo menos duas dezenas de anos situado num concelho em que, no que diz respeito ao desemprego, são apenas uma vírgula numa estatística com mui­tos algarismos. Da janela da cozinha veem o mar («e isso não tem preço, pois não?»), a uns escassos metros da porta de casa há um parque infantil para os miúdos, do ou­tro lado da rua vivem os pais de Teresa. Eles que, como em tantas famílias jovens mordidas pela besta do desemprego, têm sido um amparo vital. Pelo apoio emocio­nal, mas sobretudo pelo apoio financeiro. «Os meus pais têm sido determinantes», diz Teresa.

Lá no longínquo Brasil, Arlen deixou um filho de 12 anos, fruto de uma ante­rior relação. É também para ele que tra­balha com tamanha militância, ainda que também possa orgulhar-se de ter uns pais que colaboram. «Eu já fui ao Brasil», inter­rompe o pequeno Jorge, quando percebe que os avós que moram do outro lado do Atlântico vieram à baila. O pré-troika per­mitiu à família Bispo fazer duas viagens ao país irmão, em dois invernos portugue­ses de boa memória. «Eram as nossas férias grandes. Que saudades…», desabafa Teresa.Bárbara, a filha da troika, só conhece o Bra­sil pelo Skype. É através dessa ferramenta comunicacional que conta aos avós brasi­leiros as últimas do seu Portugal. «Tão cedo não voltamos lá. Só se fosse mesmo preciso emigrar», diz Teresa, encolhendo os ombros de frustração. Para ela, que está em casa com os miúdos (Jorge já fre­quenta a escola pública), tem sido tortuoso. Ainda que, su­blinha de rajada, «uma mãe que gosta dos filhos e pode es­tar com eles não deve queixar-se». A parte boa, e única, de ser uma proscrita do mercado de trabalho é essa: a dádiva de es­tar com os filhos. Desde o mês passado, Teresa engrossou a lista dos cha­mados inativos, gente que não é economica­mente autossuficiente. O único rendimento de que auferia – o subsídio de desemprego – acabou.

No primeiro trimestre de 2014, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, ha­via 788 mil portugueses inscritos nos cen­tros de emprego – menos 139 mil do que no ano passado. Estima-se que cerca de 66 mil pessoas tenham desaparecido desta conta­bilidade por terem decidido emigrar. Muitos amigos de Arlen e Teresa fizeram-no. Inclusive alguns brasileiros, que tinham escolhido Portugal para singrar. Na verdade, está a assistir-se a uma verdadeira debanda­da da população imigrada, sobretudo brasi­leira, que constitui a maior comunidade es­trangeira residente em território nacional, com mais de cem mil cidadãos. Os últimos da­dos disponibilizados pelo SEF indicam que, em 2012, dos quase vinte mil imigrantes que abandonaram Portugal, cerca de seis mil fos­sem brasileiros. Isto traduz-se numa dimi­nuição de 4,5% no universo po­pulacional – no final desse ano, viviam em território nacional417 042 imigrantes. O «el dora­do» lusitano virou o «el inferno» lusitano.

«No Brasil teria de ganhar mui­to mais para poder ter uma vi­da decente com os meus filhos», diz Arlen. «Hospitais públicos são de fugir, a escola pública é o que se sabe… Portugal, mesmo na atual situ­ação económica, tem muitas virtudes.» Te­resa concorda. «Se me dissessem que tinha de emigrar ia ser um grande sacrifício. Em­bora, por brincadeira, já tenha dito ao Arlen que se nada resultar podemos sempre ir para Salvador [da Baía] vender gelados na praia.»Teresa funciona como suplemento vita­mínico da moral do grupo. «Sempre para a frente, sempre para a frente.» Já perdeu a conta ao número de currículos que enviou, ao número de respostas redondas que re­cebeu: «Eu não sou velhota, mas as pessoas procuram miúdas mais novas, não é?», per­gunta-se a si própria, como que duvidando de que, aos 35 anos, esta seja uma verdade irrevogável.

Bárbara, a filha da troika, não tem no­ção prática e real do que é viver em aus­teridade, mas Teresa conta recorrente­mente um episódio que ilustra bem a di­ferença cavada entre a menina e o irmão, que tem apenas mais três anos. «Há dias, no aniversário do filho de uma amiga mi­nha, fomos a um restaurante. A Bárba­ra, não habituada a isso, chegou lá, sentou–se na mesa, virou-se para mim e pergun­tou: ‘Mamã, o que estamos aqui a fazer?’.»A educação de Bárbara será necessariamen­te diferente da do irmão, até porque o «pes­simismo realista» de Arlen e o «otimismo de princípio» de Teresa, conjugados, não augu­ram um futuro muito risonho. «O cenário não parece animador», diz o pai. «Não creio que haja qualquer perspetiva de que a situa­ção possa melhorar. Vivemos um dia de cada vez, agarro-me com unhas e dentes ao que tenho», sintetiza, desembainhando de se­guida a espada do humor. «Agora só me fal­ta preencher o horário da uma da manhã às nove da manhã. Talvez como segurança de uma discoteca ou striper», graceja.

Teresa provoca o marido. E lembra que a família Bispo ainda quer ter mais herdei­ros. Arlen corta o mal pela raiz. Com uma graçola. «Queres ter? Depois avisa-me quem é o pai, porque comigo não. Mas ar­ranja um rico que eu também quero ir de fé­rias.» Teresa solta uma gargalhada. Embo­ra o assunto não lhe dê grande vontade de rir. Ter um terceiro filho estava realmente nos planos dela, mas, tal como muitas mães portuguesas, teve de render-se à evidência dos factos: esta não é propriamente a altu­ra ideal para trazer crianças ao mundo. Fi­nanceiramente falando. Ainda assim, os Bispo conseguem superar a média.

Portugal tinha, em 2012, a taxa de fe­cundidade mais baixa da União Europeia (1,28 filhos por mulher), numa tabela lide­rada pela Irlanda e a França (2,01 cada), e um valor muito abaixo da média do conti­nente (1,58), revelou, recentemente, o Eu­rostat. Se em 2000, quando ainda nasciam 120 mil bebés/ano, o índice de fecundida­de era de 1,55, a cifra tem vindo sempre a baixar, situando-se agora em 1,28 filhos por mulher (contra três em 1970). Con­tas redondas, desde a entrada da troika em Portugal, nasceram menos 13 742 bebés. «Nós temos um lema: ‘Love comes first [o amor primeiro].’ É o que eu digo sempre aos meninos: carinhos, festinhas, abraços, ser­mos muito amigos.» Teresa resgata o prag­matismo maternal para relativizar  os reais efeitos da troika na rotina do agregado fa­miliar. E lança um olhar sobre o marido, como se estivessem em sintonia espiritual.

O que bate mais fundo na alma de Ar­len não é o aperto financeiro a que foi su­jeito, o volume de horas que trabalha, ou, sequer, a ausência de mordomias. O que corrói mesmo este pai é a distância dos fi­lhos, é estar arredado da sua infância, é não estar lá para ouvir aqueles dispara­tes que comovem qualquer educador. É não poder, como ele próprio ilustra, «pas­sar mais vezes a mão pelas minhas crias». Essa é a maior punição de uma vida moldada por uma crise económica sem preceden­tes. «Morro de medo que daqui a alguns anos os meus filhos não vivam aqui. Pro­vavelmente, é o que vai acontecer», ante­cipa Teresa Bispo, corporizando o senti­mento de largos milhares de portugueses, que abalaram para outras paragens, ele­vando para índices assustadores os núme­ros da emigração.

No ano passado, quase cem mil pessoas deram o salto. Cifra, de resto, idêntica à registada em 2012 e mais do dobro da verificada em 2011, quando cerca de 44 mil portugueses partiram à procura de novas oportunidades. Nos três anos diabólicos da crise, terão abando­nado Portugal cerca de 250 mil pessoas. Bárbara entrega-se ao universo das bone­cas, no quarto de menina que é o seu mun­do, alheia a crises económicas, medidas de austeridade, troikas e outras fatalidades do quotidiano. A sua grande preocupação, agora, é saber quando pode sair de casa para comer um hambúrguer com batatas fritas e brincar no parque. Jorge, o irmão mais velho, aconselha-lhe calma. E mira o pai, buscando aprovação. Teresa parece comover-se: «Do que eles verdadeiramen­te sentem falta não é dos brinquedos ou de outras coisas fúteis. Do que eles sentem verdadeiramente falta é do pai, que quase já não está em casa.»
Mas hoje é domingo. Dia de pós-troika.

Troika
Três anos a apertar o cinto

12 de março de 2011
Protesto Geração à Rasca junta entre 160 e 280 mil pessoas em Lisboa e no Porto.

23 de março
O primeiro-ministro, José Sócra­tes, apresenta a demissão, depois de o Parlamento ter aprovado resoluções de rejeição do PEC 4 proposto pelo Governo. No dia 31, o Presidente da República anun­cia a dissolução da Assembleia da República e convoca eleições.

6 de abril
José Sócrates, anuncia que o Gover­no dirigiu um pedido de assistência financeira à Comissão Europeia.

11 de abril
Massimo Suardi, chefe adjunto da missão da Comissão Europeia, chega a Portugal. No dia seguinte, a missão técnica é reforçada por Juergen Kroeger (CE), Rasmus Rüffer (BCE) e Poul Thomsen (FMI).

5 de maio
A troika apresenta o programa de assistência financeira a Portugal de 78 mil milhões de euros.

5 de junho
O PSD de Pedro Passos Coelho vence as eleições legislativas antecipadas, com 38,6 por cento dos votos. PS: 28,1%; CDS-PP: 11,7%; CDU: 7,9%; BE: 5,2%. José Sócrates demite-se da liderança do PS. O XIX Governo Constitucional, liderado por Pas­sos Coelho, toma posse no dia 21, na sequência do acordo político PSD e CDS-PP.

30 de junho
O Governo anuncia a criação de imposto especial que visa o corte de 50% do subsídio de Natal aci­ma do salário mínimo nacional.

13 de outubro
Pedro Passos Coelho anuncia um no­vo pacote de austeridade previsto no Orçamento do Estado para 2012, que elimina os subsídios de Natal e férias para os funcionários públicos e para as pensões acima de mil euros.

2012
5 de julho
O Tribunal Constitucional declara a inconstitucionalidade da suspen­são do pagamento dos subsídios de férias ou de Natal a funcionários públicos ou aposentados.

7 de setembro
O primeiro-ministro anuncia outro pacote de medidas de aus­teridade, que incluem a subida de impostos, como o aumento das contribuições dos trabalha­dores para a Segurança Social e a descida das contribuições das empresas (taxa social única).

15 de setembro
Milhares de pessoas manifestaram-se em mais de 40 cidades contra as medidas de austeridade. A manifes­tação foi organizada pelo movimen­to «Que Se Lixe a Troika! Queremos as Nossas Vidas!».

22 de setembro
O Conselho de Estado reúne-se no Palácio de Belém, entre as 17h15 e a 01h00 (do dia 23), para analisar o conturbado momento político.

2013
11  de janeiro
O Parlamento aprova por maioria a proposta do Governo que prevê o pagamento de metade dos sub­sídios de férias e de Natal no setor privado em duodécimos, durante o ano de 2013.

5 de abril
O Tribunal Constitucional chumba o corte do subsídio de férias para o setor público, pensionistas e contra­tos de docência e investigação, bem como a criação de uma taxa sobre o subsídio de doença e desemprego.

9 de abril
Os ministérios e serviços do setor público, da administração central e da Segurança Social são proibidos de contrair nova despesa, num des­pacho assinado por Vítor Gaspar.

1 de Julho
O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, apresenta a demissão.
No dia seguinte, o Presidente da República dá posse à nova ministra de Estado e das Finanças, Maria Luís Albuquerque, e a cinco secretários de Estado.

5 de julho 2013
Pedro Passos Coelho apresenta ao Presidente da República «o entendimento político alcançado com o líder do CDS-PP», Paulo Portas.
A agência Standard and Poor’s muda de estável para negativo as perspetivas sobre oratingde Portugal.

10 de julho
O Presidente da República propõe um «compromisso de salvação nacional» entre PSD, PS e CDS que permita cumprir o programa de ajuda externa e que esse acordo preveja eleições antecipadas a partir de junho de 2014.

18 de julho
O primeiro-ministro anuncia uma remodelação governamental, com o parceiro de coligação Paulo Portas como vice-primeiro-ministro, assim que terminarem as
negociações entre PSD, PS e CDS-PP, sugeridas pelo Presidente da República.

24 de julho
O Presidente da República dá posse aos novos ministros do Governo de maioria PSD/CDSPP, a sétima alteração à composição do executivo. Paulo Portas toma posse como vice-primeiroministro, Rui Machete como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, António Pires de Lima como ministro da Economia, Jorge Moreira da Silva como ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Assunção Cristas como ministra da Agricultura e do Mar e Luís Mota Soares como ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social.

26 de julho
O Presidente da República dá posse a 19 secretários de Estado do Governo, ficando assim concluída a sétima remodelação do executivo de maioria PSD/CDS–PP. Na cerimónia, que decorreu no Palácio de Belém, tomaram posse oito novos secretários de Estado, enquanto 11 foram reconduzidos nos cargos que já ocupavam no Governo.

29 de agosto
Os juízes do Tribunal Constitucional chumbam o regime jurídico da “requalificação de trabalhadores em funções públicas”, cuja “fiscalização abstrata preventiva” tinha sido pedida por Cavaco Silva.

26 de setembro
O Tribunal Constitucional declara inconstitucionais algumas das novas normas do Código de Trabalho, relacionadas com o despedimento por extinção do posto trabalho e por inadaptação.

1 de Novembro
A maioria parlamentar aprova, com o voto contra da oposição, o regime de convergência de pensões proposto pelo Governo e que aplica um corte de 10% em todas as pensões a partir dos 600 euros.

22 de novembro
PSD e o CDS-PP aprovam os cortes entre 2,5% e 12% nos salários dos trabalhadores das administrações públicas e das empresas do Estado a partir dos 675 euros, que a oposição obrigou a nova votação em plenário.

23 de Novembro
O Presidente da República requer a fiscalização preventiva da constitucionalidade do regime de convergência de pensões entre o setor público e privado, que reduz cerca de 10% nas pensões superiores a 600 euros.

25 de novembro
O Tribunal Constitucional deci­de, por sete votos contra seis, incluindo o do presidente (contra), Joaquim de Sousa Ribeiro, não de­clarar a inconstitucionalidade das normas do aumento do horário de trabalho na função pública.

19 de dezembro de 2013
O Tribunal Constitucional «chum­ba» o diploma que estabelece o corte de 10% nas pensões de reforma, aposentação e invalidez e nas pensões de sobrevivência da função pública, que suscitou dúvidas ao Presidente. O Conselho de Ministros aprova o aumento da idade da reforma para os 66 anos a partir de 2014.

2014
2 de janeiro
O Governo anuncia que vai alargar a base de incidência da Contribui­ção Extraordinária de Solidarie­dade e aumentar as contribuições dos beneficiários da ADSE, até aprovar uma “alteração duradou­ra” às pensões da Caixa Geral de Aposentações em pagamento.

17 de abril
O Fundo Monetário Internacional (FMI) conclui a décima primeira avaliação ao Programa de Assis­tência Económica e Financeira (PAEF) de Portugal e aprovou o desembolso correspondente, de cerca de 851 milhões de euros.

24 de abril
A direção do Fundo Europeu de Estabilização Financeira aprova o desembolso da última tranche do empréstimo a Portugal, de 1,2 mil milhões de euros, saudando o caminho percorrido, mas advertin­do que o processo de reformas não terminou.

17 de maio
Portugal desliga-se do programa de assistência financeira, ao optar por uma saída limpa, sem recurso a qualquer plano cautelar.

Pedro Ivo Carvalho
Fotografia: Leonel de Castro/Global Imagens