OPINIÃO

As mil faces da arte

Elisa Ochôa é uma mulher caleidoscópica.

Uniu Barcelona e Portugal através da arte com cortiça, com uma exposição multidisciplinar de que foi curadora. Aos 40 anos Elisa Ochôa não reprime vocações. Nem a de empreendedora.

Curadora, atriz, artista plástica, professora, modelo fotográfico, empregada de bar quando foi preciso. De vocação caleidoscópica, Elisa Ochôa, licenciada em Filosofia, pós-graduada em Museologia e Musicografia, mestre em Estética e Filosofia da Arte, é mulher de pulsões e de algumas, poucas, palavras proibidas – parar e desistir são verbos que não conjuga, muito menos hoje, acabada de chegar aos 40 anos de idade.

O seu mais recente trabalho, de curadoria, promovido pelo Consulado-Geral de Portugal em Barcelona e pelo Instituto Camões no âmbito da semana cultural portuguesa na Catalunha, terminou há poucos dias (de 12 a 28 de junho). Em Diários da Cortiça/Diários del Suro, exposição de arte contemporânea, Elisa propôs «uma viagem pelo mundo da cortiça», marca peninsular e traço transversal a Portugal e Catalunha, produtores líderes, desde o montado ao resultado final. Para isso, a curadora convocou ao Convent de Sant Agustí de Barcelona a criatividade de artistas nacionais e da comunidade autónoma de Espanha, inspirada em matéria que marca as duas paisagens. Projeto que «depois de longa troca de e-mails,» mereceu à Fundação Millennium BCP o patrocínio que o tornou possível.

Em finais de 2013, Elisa atirara-se de cabeça ao projeto Animals Like Us, trabalho multidisciplinar (apresentado no Lx Factory, em Lisboa), misto de exposição e ciclo de conversas que reuniu artistas e especialistas na área da biologia, juntando arte e ciência, combinação cara a Elisa. Tema: A animalidade e a relação animal-homem. Porque, defende Elisa, militante da causa dos animais, «o universo da animalidade tem semelhanças com o universo da arte e do pensamento».

Estas são as mais recentes provas do empreendedorismo desta mulher de vários ofícios que, embora praticante de yoga dedicada à meditação diária, se confessa pouco metódica. Admite agir por impulso e reconhece nem sempre ter «os pés assentes no chão». Mas quando se mete a caminho fá-lo ferozmente. «Quando trabalho, furo as paredes que há para furar.» Há nela uma necessidade imperiosa de ganhar mundividência, saciada em Nova Iorque quando, com 25 anos, trocou Lisboa pela ideia que a tomava desde criança: ser atriz. Nascida no ano da revolução, criada à volta de jornais, rodeada das fotografias (que se entretinha a rasgar) do pai, o fotojornalista Rui Ochôa, Elisa sempre quis ser bailarina e atriz. Os pais exerceram alguma pressão contrária, e ela acabou por escolher Filosofia.

Apaixonou-se por Kant mas sabia que não queria ser professora. Arriscou então num mestrado complexo (Estética e Filosofia da Arte) que a cansava. Nas aulas sentia-se desajustada, e Nova Iorque ganhou forma. «Lá fui eu estudar representação, sem qualquer conhecimento ou contacto.» Apaixonou-se pela cidade, pelo futuro marido e os quatro meses do curso resultaram em quase uma década de Manhattan. «Durante esse período fiz algum teatro, algum cinema independente, participei em algumas séries, cá e lá. Era a mulher das temporadas. Não tinha um trabalho fixo e os que conseguia eram muito mal pagos, ou mesmo não remunerados. Para pagar as contas tive de desenrascar-me. Fui empregada de bar, babysitter e dogsitter.»

Três anos de Nova Iorque e surge o convite que a levaria a fixar-se por sete anos mais numa escola, como coordenadora de um curso do ensino básico. «Foi uma experiência muito boa; adorei trabalhar com crianças, mas a certa altura já não me chegava.» Em 2009, regressa a Portugal. Traz consigo um pastor-alemão e uma lição nova-iorquina – «errar pode ser maravilhoso». Para trás ficam três anos de casamento, e o teatro. «O teatro desiludiu-me. Nova Iorque é uma cidade fantástica para quem quer ser atriz mas também pode ser cruel. Há demasiada agressividade, rejeição, competitividade. É preciso gostar de jogar esse jogo. Eu não gostava.»

Em Lisboa, ataca o mestrado em Museologia. Ao mesmo tempo, dá workshops de representação e aulas de inglês a futuros pilotos e comissários de bordo. «Esses trabalhos pagavam-me as viagens a Barcelona», onde já morava o atual companheiro, namorado de adolescência e reencontrado mais de duas décadas depois. «Amor à segunda vista», declara Elisa.

Pelo meio, nunca parara de pintar. Pinta desde os vinte e poucos anos e, já em Nova Iorque, frequentou a New School. Em 2008, na Fábrica do Braço de Prata, faz a primeira exposição individual – Anatomias e Paisagens da Mulher-Pássaro . Um ano depois, na Galeria Pisa o Risco, do Centro de Artes do Restelo, apresenta Passages of Myself, coexistência entre a fotografia, como colagem, e a pintura. «Cresci com a fotografia, mas não fui contagiada por ela. Ganhei até alguns anti-corpos, e nunca quis seguir as pegadas do pai». Na calha está um novo trabalho de fotografia, «com encenações minhas sobre um tema da natureza», e um projecto bastante maior: «Sei que sou uma mulher de grande sorte, mas só a senti na pele tarde de mais. Apenas aos 40 anos me começam a reconhecer valor. Tudo na minha vida aconteceu tarde. Os filhos, ainda não os tenho. Mas agora sim. Agora está na hora.»

Alexandra Tavares-Teles
Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens