OPINIÃO

André, o enfermeiro

Mais um lutador.

A prova de que o exercício durante a hemodiálise melhora a vida dos doentes valeu-lhe um prémio europeu de investigação. Agora, passou da investigação à luta.

Desde novo que imaginava um futuro ligado ao desporto, mas um acidente aos 16 anos roubou-lhe as hipóteses de fazer carreira no hóquei. Pai médico e mãe enfermeira «têm consequências». Então, já que não podia ser atleta, quis especializar-se na área da reabilitação desportiva. Tirou enfermagem, fez uma formação diferenciada e estava no doutoramento em Ciências da Atividade Física e do Desporto quando o diretor de uma clínica de hemodiálise de Mirandela, próxima de Bragança – onde nasceu e vive –, lhe propôs mudar o objeto de estudo: porque não avaliar os efeitos do desporto em doentes hemodialisados? Acedeu ao pedido e começou a trabalhar. Nunca antes, em Portugal, se tinha feito algo do género. Acabou por provar que fazer exercício durante a hemodiálise melhorava a qualidade de vida dos pacientes. Entrou em contacto com outros investigadores que, na Europa, davam os mesmos passos.

O trabalho despertou interesse e recebeu contactos de todo o país. Em 2011, venceu o Prémio de Jovem Investigador Europeu, entregue pela Federação Europeia das Associações de Medicina do Desporto. Entretanto, começou a dar aulas na Escola Superior de Saúde de Bragança e é, desde o ano passado, vereador sem pelouro na autarquia da sua terra. Já em 2014, fundou a Associação Portuguesa de Reabilitação de Insuficientes Renais, que junta médicos, enfermeiros, dietistas e outros profissionais que procuram melhorar a qualidade de vida dos portadores desta doença crónica «que não escolhe idades, nem classes, nem género», através do exercício físico e da alimentação. O trabalho hoje, garante, «é mil vezes mais gratificante». Não se arrepende de ter deixado para trás a reabilitação desportiva e, aos 31 anos, decidiu que ia tirar nova licenciatura: Gestão. Viaja frequentemente para congressos e formações, mas os gastos saem-lhe do bolso. Não vacila. Quer continuar a trabalhar para que, um dia, qualquer doente com hemodiálise possa aderir a um programa de exercício físico durante o tratamento, se assim o quiser.

Bárbara Cruz
Fotografia: Adelino Meireles/Global Imagens