OPINIÃO

Andar pela vida a dançar

Não há festival como o Andanças.

Quem se prepara para ir ao 19.º Andanças a partir de 4 de agosto, na barragem de Póvoa e Meadas em Castelo de Vide, não imagina que o festival já tenha sido pequeno, fruto do ideal de um grupo que quis dar forma ao movimento do folk em Portugal. Um evento feito para participar e não para ver.

Um bom rancho folclórico sempre deslumbrou Paulo Pereira. Músico e compositor desde 1982, investigador em ambiente e biodiversidade, desgostava-o que Portugal não quisesse cantar, tocar e dançar o que é seu de raiz, trocando sem pesar a riqueza do património nacional pela cultura anglo-saxónica. Foi preciso ir para Barcelona fazer Erasmus em 1992, e ver uma centena de pessoas a dançar o nosso regadinho no Bairro Gótico, para se reconciliar com a música e começar a tocar em tudo o que era festival na Catalunha, Galiza, Inglaterra e França, nomeadamente os de Gennetines e St. Chartier, onde chegou a tocar 22 horas seguidas. De volta, quis fazer algo parecido com o que viveu lá fora, os bailes folk, a reinvenção da música tradicional. A peregrinação resultou no Andanças, que arranca amanhã em Castelo de Vide pelo 19.º ano consecutivo.

«O festival não se inventou, copiou-se. O objetivo era fomentar o movimento folk no país, tanto na questão da música e da dança, como dos instrumentos portugueses. Queríamos que houvesse pessoas a utilizar tudo o que é a nossa música e o nosso património material de raiz para tocar, para estar lá, para que as coisas estivessem vivas», conta Paulo, 44 anos e diretor artístico/coordenador do Andanças de 1996 a 2004. «Então o que se fez foi copiar o que havia na Catalunha, em França, na Irlanda, muito à frente nesta preocupação de valorizar aquilo que nos torna culturalmente únicos no mundo. Com a diferença de também termos oficinas paralelas, que não existiam em mais lado nenhum, e integrarmos danças africanas, brasileiras, indianas, egípcias, street dance e europeias – húngaras, bascas, balcânicas, bálticas, italianas, catalãs e outras.»

Como em todos os projetos empresariais e associativos, os primeiros cinco anos foram os mais aventureiros. «Em 1996, em Évora, até foi pacífico: na cidade as coisas estavam controladas e ainda havia pouca gente. Mas depois em 97 e 98 montámos o Andanças na Serra da Freita, no parque da Fraguinha, e aconteceu-nos de tudo: workshops cancelados porque as pessoas se perdiam na serra; palcos a chegarem ao sítio do festival no próprio dia; nós a termos que ir chamar os bombeiros para nos abastecerem porque ficámos sem água a meio…» No ano seguinte, recém-instalados em Carvalhais, São Pedro do Sul, o terreno das atuações foi invadido por uma manada de cavalos que se soltou das vizinhanças e a instalação elétrica de um dos dois palcos ardeu devido a um curto-circuito que lhes cancelou alguns concertos.

«É verdade que passámos por muito. Para mim, o Andanças é o festival do amor, o mais espetacular de todos ao nível do que o ser humano é capaz», concorda Mercedes Prieto, 43 anos e professora de dança. «Chegámos a saber de advogados e professores de renome que vestiam uma saia, durante aqueles sete dias, e viviam outra personagem, quase como um Carnaval.» Hoje o evento é enorme, espera 35 mil pessoas nesta edição e mudou-se (desde o ano passado) para a barragem de Póvoa e Meadas, em Castelo de Vide. Mas parece-lhe que foi ontem que veio da Galiza estudar química, com uma bolsa insuficiente para pagar as contas, e conheceu Paulo Pereira e a amiga Diana Mira, quando lhes deu aulas de dança na Xuventud de Galicia, no Centro Galego de Lisboa.

«O Paulo era o carola de tudo, uma coisa incrível. Andava sempre com a flauta no bolso, a tocar em todo o lado, e eu e a Diana seguíamo-lo a dançar como ratinhos de Hamelin», recorda. Inseparáveis os três, viram como os estrangeiros se divertiam e conviviam com a música tradicional, orgulhosos das suas raízes. Inflamaram-se de ideias, juntamente com João Pires e outros amigos que queriam recuperar o baile na praça, para que as pessoas não se limitassem a ver e experimentassem essa vertente da dança. «O modelo do Andanças foi copiado do Le Grand Bal de l’Europe, em Gennetines, em que havia oficinas durante o dia e bailes à noite, sem mais nada que não fosse dança», aponta Mercedes. Mas também se demarcou dos modelos europeus pelos workshops de teatro, construção de instrumentos, contos, artesanato, meditação e relaxamento, exercícios orientais ou cozinha vegetariana, na esperança de que quem não gosta de dançar venha por outras razões e acabe por ficar com o bichinho.

Ana Martins, uma das fundadoras do festival.
Ana Martins, uma das fundadoras do festival.

«Era tudo muito pequeno no início, ninguém supunha que se tornasse o portento atual. Nunca tínhamos dinheiro para a comunicação, de modo que quem vinha eram os amigos e familiares dos festivaleiros de anos anteriores, que faziam daquilo um evento familiar.» Desde que saiu da organização para ser mãe há meia dúzia de anos, e largou os nervos e as zangas de se montar um festival, Mercedes vive «um outro Andanças mais divertido», a criar para o evento e a ensinar a dançar. O colega Luís Moura, que entrou neste «maravilhoso mundo novo» ainda na Fraguinha, em 98, sabe bem ao que ela se refere quando diz que parece impossível terem criado um festival assim, tão diferente dos outros que se fazem em Portugal.

«Convidaram-me a trabalhar na organização no ano seguinte e fiz um pouco de tudo. Sobretudo convencer os ranchos de que havia um lugar onde eles podiam ir ensinar a dançar, mais do que fazer exibições», adianta o funcionário público, 43 anos e apaixonado pela cultura tradicional de Amarante, a sua terra. Em 2004 mudou-se para os Açores, onde viveu seis anos voltado para o mar e a natureza bravia, e entretanto regressou e voltou a ligar-se ao Andanças, de novo como voluntário, organizador e monitor de malhões, viras e chulas. «O Andanças é a participação, a sua forma de propor uma mudança de atitude face às necessidades energéticas e de recursos. As pessoas são mais fáceis de mudar pelas emoções e, aqui, elas sentem que fazem a diferença. Porque não se vê lixo, porque sorriem constantemente, porque o ambiente é de festa.» Um modo de fazer as coisas como gostaríamos, talvez, que fosse sempre.

«O Andanças assenta em quatro pilares: música e dança, voluntariado, sustentabilidade e comunidade», sublinha Ana Martins, 54 anos e coordenadora da PédeXumbo – a associação gerada pelo Andanças que produz o evento e, ao longo do ano, organiza outros festivais no país, dinamiza projetos comunitários de educação artística e promove ações de formação que exploram diversas vertentes das danças de raiz tradicional, portuguesas e do mundo. «O festival tem a particularidade de ser uma voz de expressão coletiva. Vai sendo construído. E isso obriga-nos a ouvir, a aceitar aquilo de que discordamos, a aprender a viver de uma outra maneira pela opção que temos de fazer o Andanças desta forma. Pode parecer completamente anárquico, mas funciona na perfeição», diz. A partilha de boas práticas ambientais e sociais vale tanto como a melhor música popular.


Andanças em números:

300
FESTIVALEIROS
acorreram em 1996 à primeira edição do evento, ainda sem nome e realizado a título experimental no Teatro Garcia de Resende, em Évora.

32
MIL PESSOAS
fizeram o festival de 2013, entre público, artistas e voluntários.

35
MIL PESSOAS
são esperadas na edição deste ano.

250
MIL EUROS
foi o investimento em infraestruturas no spot de Castelo de Vide.

600
ARTISTAS
é o número estimado, a par de outros tantos voluntários.

4
MIL REFEIÇÕES
serão asseguradas diariamente pela organização na Cantina Andanças.


MÚSICA NO CORAÇÃO

Num festival cujo lema é aprender fazendo, seja a dançar, aprender um instrumento ou reduzir a pegada ecológica, há informações úteis que importa ter em conta para aproveitar ao máximo estes dias de partilha. Tome nota:

No Andanças, a fim de evitar descartáveis, introduziu-se o uso de uma caneca pessoal e reutilizável. O Canecário funciona das 09h00 à 01h00 e aí pode alugar canecas e mosquetões mediante caução.

Se ficar sem bateria no telemóvel ou máquina fotográfica, pode carregá-la gratuitamente na Casa Amarela, no centro do festival, das 09h00 às 24h00.

A Cantina Andanças disponibiliza uma variedade de pratos adequados a todos (inclusive crianças), confecionados sempre que possível com produtos regionais e biológicos. Na quarta-feira o menu é Km Zero, com todos os ingredientes produzidos num raio de 20 quilómetros para incentivar a economia local e reduzir o impacto ambiental provocado pela emissão de gases e o consumo energético com o transporte. Quem quiser pode ainda confecionar as suas próprias refeições na Cozinha do Campista ou comer nos Taskos (tasquinhas com sabores regionais espalhadas pelo recinto).

Considerado um dos festivais mais family friendly, o Andanças dispõe de um espaço com programação própria – oficinas de dança e de outras artes, bailes e concertos – dirigida a crianças e famílias. No Espaço Bebé os pais poderão levar crianças com menos de cinco anos a fazes a sesta.

Pela primeira vez este ano, os cães também são bem-vindos ao festival, desde que tenham a vacina da raiva em dia, microchip e pagamento de caução por parte dos donos. Podem acampar em qualquer camping à exceção do Camping Livre de Cães, e circular por todo o lado exceto zonas de palcos, Cantina, Espaço Criança e Espaço Bebé. A recolha de fezes é obrigatória.

Mais informações em www.andancas.net.

Ana Pago
Fotografia: Pedro Martins/Global Imagens