OPINIÃO

Amigos: um seguro de vida

O melhor do mundo são os amigos.

Não podemos viver sem eles. E fazemos bem, dizem os investigadores. Está mais do que provado que ter amigos pode prolongar-nos a vida e aumentar a resistência a doenças graves, como o cancro. No Dia Internacional da Amizade, recentemente assinalada, descubra como ela nos protege. E, claro, celebre-a com quem mais gosta.

Há quem diga que quem tem amigos tem tudo. Após décadas de pesquisas, investigadores dos quatro cantos do mundo estão certos de que é mesmo assim. Afinal, os laços que nos unem demonstraram não ser apenas um dos fatores que mais contribuem para a alegria de viver, estando justificada a nossa atração por livros, canções, filmes ou séries que fazem da amizade o seu centro, como são autênticos promotores de saúde. O que descobriram os cientistas nas suas experiências? O que há muito se suspeitava: as ligações emocionais têm um poder curativo, enquanto o sentimento de não se contar com ninguém, para além de si próprio, deixa o corpo mais predisposto a doenças. Simplificando: ter amigos ajuda a viver mais e melhor.

Um estudo publicado em 2010, na revista científica Plos Medicine, em que foram analisados e cruzados os resultados de quase meia centena de pesquisas internacionais, trouxe mesmo más notícias aos eremitas. Independentemente da idade, estado de saúde ou sexo, a solidão danifica tanto a saúde como fumar 15 cigarros por dia, ser alcoólico ou não fazer exercício regularmente. E pior: o isolamento pode ser até duas vezes mais prejudicial do que a obesidade. No extremo oposto, os sociáveis garantem mais 50 por cento de hipóteses de sobrevivência, o mesmo é dizer mais anos de vida. «A constante interação não é apenas essencial ao bem-estar mental humano, afeta diretamente a nossa saúde física», sublinhou Julianne Holt-Lunstad, uma das autoras da análise.

Outras conclusões impressionantes foram as obtidas num estudo realizado na Universidade de Standford, na Califórnia, e relatadas, ainda no século xx, na revista The Lancet. Aí, médicos dividiram doentes com cancro da mama em dois grupos: um apenas com medicamentos e outro também com um encontro semanal para partilhar vivências. Apesar de todas as participantes estarem num estado avançado, as que puderam conversar sobre a experiência sofreram menos dores e sobreviveram, em média, mais do dobro do tempo do que as que se restringiram aos medicamentos. Mais tarde, outra pesquisa, publicada em 2006 na revista científica Journal of Clinical Oncology, confirmou este poder: as mulheres sem amigos íntimos registaram quatro vezes mais hipóteses de morrer de cancro de mama do que as que tinham dez ou mais amigos.

Não se pense que o poder da amizade serve somente as mulheres. Os homens também beneficiam, e muito, do seu escudo protetor. De acordo com um estudo de seis anos, realizado junto de mais de 700 suecos de meia-idade e divulgado na revista Psychosomatic Medicine, o suporte dado pelos amigos pode ser fundamental para reduzir o risco de problemas cardíacos. E, sublinham outras investigações, cresce de importância à medida que os anos e a solidão avançam, após a saída dos filhos de casa, garantindo uma maior longevidade.

Como é que a amizade faz a sua magia? Apesar de o seu mecanismo ainda não ser totalmente conhecido, pois já dizia O Principezinho, de Saint-Exupéry, o essencial é invisível aos olhos – mesmo aos olhos aumentados da ciência –, desconfia-se, sem surpresas, da estreita ligação entre o corpo e a mente. E é sabido que os verdadeiros amigos fazem muito pelo nosso bem-estar mental. Não só nos acompanham e acarinham, mesmo à distância, como nos permitem tirar a máscara e sermos como realmente somos, com as nossas angústias, incertezas e manias. Mais? Puxam-nos para a frente, oferecendo-nos outras visões do mundo e dando-nos a mão no acidentado caminho do crescimento pessoal. Não é por acaso que a amizade é um bem de primeira necessidade para o ser humano. Afinal, o romano Cícero lembrou: «Quem risca a amizade da sua vida afasta o sol do mundo.»

AMIZADES DE RISCO
Nem todos os amigos são bons. Alguns podem fazer-nos muito mal ao sugar-nos energia e recursos mentais. Identifique-os e avalie se quer mantê-los no seu círculo mais íntimo.

«O SANGUESSUGA»
É aquele que o considera sua propriedade e não admite que faça nada sem o informar. Inunda-o de mensagens e telefonemas inquiridores, aparece sem avisar e até aos seus filhos dá ordens. Se não sabia, agora já sabe: isso não é amizade.

«O INTRIGUISTA»
Pede-lhe um segredo e no dia seguinte meio mundo sabe… depois vêm as desculpas habituais: não tinha percebido que a matéria era tão importante para si e que era mesmo para guardar segredo. Será que ele não escutou nada do que lhe disse?

«O OCUPADÍSSIMO»
Nunca atende o telefone, mesmo quando só o contacta às horas combinadas. Raramente tem tempo para um encontro e se, não desmarca no último momento, não larga o telemóvel. “Pensas que tenho a tua vida?”, pergunta ele. Está na hora de responder à altura.

«O INVEJOSO»
Quer ter tudo o que você tem, mas em último modelo. A comparação é o seu modo de vida e provavelmente já lhe falhou em momentos-chave, onde não pudesse ser, também ele, o centro das atenções.

«O CRÍTICO»
Este parece a versão infernal dos seus pais: nunca nada do que faz ou diz está bem. Na sua opinião, está sempre a merecê-las. Quem é esse amigo, afinal, para lhe pôr assim o pé em cima e abalar a sua autoestima?

«O AUSENTE»
Quantas vezes já suportou os seus atrasos ou esquecimentos? Quantas vezes já comentou que não se pode contar com esse amigo para nada? Então não conte!

ALARGUE O CÍRCULO
Esta época marcada pela deslocalização profissional, pelo afastamento familiar e até pelo individualismo pode levar a que se esqueçam, ou percam, os amigos. Contrarie essa tendência – eles fazem falta. Se não sabe como cativar novas amizades, aqui ficam três ideias simples:

ARRANJE UM PASSATEMPO
Pense em algo que gostaria de fazer e avance. Tudo é válido desde que tenha gente que partilhe o mesmo interesse: pode ser um curso de línguas ou aulas de fotografia, lições de costura ou um grupo de dança. O importante é o convívio e a criação de laços.

FAÇA VOLUNTARIADO
Ao escolher uma causa com a qual se identifique irá encontrar, por certo, pessoas que pensam do mesmo modo e que têm as mesmas preocupações sociais ou ambientais. Não será difícil encontrar por ali amigos.

SAIA DE CASA
Aceite convites dos novos colegas de trabalho, do novo ginásio ou da nova escola dos seus filhos, apareça em eventos públicos, seja simpático com os novos vizinhos… pode ter mudado de cidade, de vida ou de família, mas os amigos são essenciais nesse processo.

Cristina Azedo