OPINIÃO

Alentejo é vinho

O Alentejo foi considerado a melhor região de enoturismo do mundo. Fomos lá beber um copo.

Há um mês, o jornal norte-americano USA Today considerou o Alentejo a melhor região de enoturismo do globo. Nas velhas herdades de vinho nascem hoje hotéis de luxo, restaurantes gourmet, atividades idealizadas a partir do ciclo da uva. Em época de vindimas, fomos perceber o novo mercado que nasceu na planície.

Não é fácil chegar à Herdade do Sobroso, no con­celho da Vidigueira. São 1600 hectares escon­didos do mundo, nove quilómetros a oeste do Alqueva, na linha que separa o Alto do Baixo Alentejo. A estrada é acanhada e, também por isso, belíssima. Colinas verdes a encontrar os braços do Guadiana, vinhas e mais vinhas e mais vinhas. Ao fim de alguns quilómetros de alcatrão esburacado entra-se finalmente na fazenda. Foi aqui que Sofia Ginestal Machado e Filipe Teixeira Pinto decidiram cons­truir, há seis anos, um projeto que alia a uva ao turismo e à caça. O culto da terra em todo o seu esplendor.

A história deste casal mostra bem o que está a acontecer na re­gião. Ele é enólogo, ela é engenheira zootécnica. São ambos do Porto, estudaram em Trás-os-Montes, tudo indicava que have­riam de fazer vida no Douro, onde o mercado onde queriam apos­tar estava já cimentado. «Mas eu tinha raízes aqui e percebemos que havia muita coisa por explorar no Alentejo», diz ela. «O Douro tem uma paisagem estupenda e uma tradição vinícola enorme, mas no Sul há o potencial dos grandes espaços. É como se pudés­semos viver em África, com todo o conforto europeu.» Fazer vi­nho de alta qualidade, construir um pequeno hotel e um restau­rante que privilegiasse a cozinha de caça.

Uma boa parte do terreno é reservada à caça, ali se fazem du­as montarias por ano. «Tem tudo que ver com a mística do vinho, com a força da terra», diz Filipe. «O caçador é normalmente co­lecionador de garrafas, mas também sabemos que não podemos misturar o mundo deles com o dos outros visitantes – que po­dem condenar a atividade.» Foi por isso que construíram um pa­vilhão de caça, longe dos 11 quartos do hotel e da adega onde se fabrica o vinho. É também ali que se fazem as provas e os cursos. «Todos os dias temos pelo menos um grupo a vir experimentar o que é produzido na herdade», assegura Sofia. A Herdade do So­broso exporta 70 por cento do meio milhão de garrafas que pro­duz anualmente, mas há cada vez mais gente a vir passar férias ali, ou a visitar a adega. «No que toca ao enoturismo, a faturação já representa um quinto do dinheiro que fazemos e a tendência é para crescer.»

Há um mês, o Alentejo foi considerado «a melhor região de eno­turismo do mundo para visitar» pelo jornal USA Today, que ven­de todos os dias dois milhões de exemplares. Havia vinte regiões a concurso, incluindo a espanhola La Rioja, a italiana Toscana, as zonas francesas de Champagne e da Borgonha. Os vinhos do novo mundo também foram a concurso: Napa Valley, na Califórnia, Mendonza, na Argentina, Hunter Valley, na Austrália, Maipo, no Chile, ou Stellenbosch, na África do Sul. As votações decorreram online e mobilizaram produtores vinícolas e operadores turísti­cos. «Apesar de terem sido os leitores a votar, é importantíssimo para a visibilidade da região», diz Vítor Silva, presidente da Agên­cia de Promoção Turística do Alentejo. «O enoturismo é a mon­tra de exposição dos produtores de vinho, que estão cada vez mais empenhados em exportar. Sempre que a imprensa internacional fala do assunto, o Alentejo torna-se mais referência. Chegámos a este mercado do enoturismo com algum atraso, quando nos com­paramos com outras zonas do mundo. Mas isso está a permitir–nos fazer as coisas melhor.»

Não existem números certos de quantos milhões de euros mo­vimenta o mercado turístico em redor do vinho, mas todos os operadores são categóricos a dizer que é um negócio em cres­cimento. Das mais de duzentas adegas que existem no Alentejo, 66 também acolhem hotéis, visitas, atividades turísticas. Um es­tudo recente da consultora espanhola THR para o Turismo de Portugal apontava a existência de quatro milhões de enoturistas regulares em todo o mundo – mais dois milhões ocasionais. Só na Europa, anualmente, o enoturismo representa seiscentas mil viagens – e a tendência é de duplicação nos próximos cinco anos. «O gasto médio diário é geralmente superior ao realizado por ou­tros tipos de turismo, podendo variar entre 150 e 450 euros», lê-se no mesmo documento. Ou seja, é um nicho de mercado, sim, mas é altamente rentável. E tem um efeito secundário nítido: ampliar as vendas do setor vinícola.

Ei-los que bebem
Toby Smith é um guru de investimento norte-americano. Teve durante anos um programa de economia na cadeia de televisão Fox News onde aconselhava as pessoas a apostarem nestas ou na­quelas ações. Também tem uma empresa de consultadoria em negócios emergentes, chamada Next Big Things, que distribui uma newsletter por milhares de americanos que querem apostar em negócios emergentes. Ele e a mulher, Marjorie, são também apaixonados por vinhos. «Temos uma pequena adega em Napa Valley, na Califórnia, mas todos os anos tentamos fazer uma via­gem para conhecer vinhos novos», diz ele. Nunca vêm sozinhos, trazem também alguns dos seus clientes. Já estiveram na Áfri­ca do Sul, no Chile, em França, Itália e Espanha. Este ano vieram ao Alentejo.

Estes vinte americanos são bastante endinheirados e são to­dos colecionadores de vinho. «Portugal encaixa perfeitamen­te no nosso conceito. É o próximo grande negócio no mundo dos vinhos e é por isso que trouxemos toda esta gente aqui», diz Toby a meio de uma degustação na L’And Vineyards, em Montemor-o-Novo. Ele fala das vantagens do Alentejo, diz que tem vinhos vi­vaços e a preços muito simpáticos. «Mas o que é verdadeiramente excitante é que ainda são desconhecidos e qualquer investidor gosta da sensação de descobrir algo que é absolutamente novo. Nesse aspeto, esta é a nossa melhor viagem de sempre.»

Vão passar uma semana a visitar adegas, fazer provas, peque­nos cursos com enólogos. Marjorie está encantada, diz que a ex­periência está a ser única. «Nota-se que é um mercado novo. As adegas que visitámos têm arquitetura moderna, mas há muita história e antiguidade nos sítios à volta. Acho que o Alentejo é a next big thing não só para os vinhos em si como para quem gosta de fazer viagens vinícolas. É na antiga Europa e, no entanto, é re­frescante e desconhecido.» Solta uma gargalhada. «Além disso a comida é ótima.»

A mesma ideia há de ser reforçada daí a uns dias por João Vi­lar, diretor comercial do Monte da Ravasqueira, em Arraiolos. «Somos o novo mundo do velho mundo.» A revista Drinks Inter­national colocou esta herdade no segundo lugar dos melhores centros do mundo para acolher enoturistas em 2014, atrás das espanholas Bodegas Tio Pepe. «Não temos alojamento, mas as visitas e as atividades que realizamos aqui representam oito por cento das nossas receitas.» Quando abriram as portas aos visi­tantes, em 2008, recebiam mil pessoas por ano. Agora o núme­ro quintuplicou.

São 1500 hectares de vinha e em cada pedaço de terreno ou­ve-se um chilrear desgarrado. «São gravações de estorninhos a serem atacados por aves de rapina. Foi a maneira que arranjá­mos de manter a passarada afastada das uvas», diz Tiago Cor­reia, que coordena os passeios turísticos na propriedade. O pro­grama típico inclui uma visita às castas, um piquenique no meio da vinha e uma prova na adega, mas também se pode adicionar atividades de canoagem, passeios de jipe, viagens de balão ou de bicicleta. «Estamos a ter grande sucesso com empresas que vêm fazer atividades de reforço do espírito de equipa», diz Tiago. E depois explica como funciona: dividem um grupo em equipas e cada uma faz vindima a algumas uvas. «Depois levamo-las para a adega, damos-lhes a provar várias castas e eles têm de fazer a sua própria mistura, que é como quem diz, têm de criar o seu próprio vinho. Desenham um rótulo e tudo. E depois bebem as garrafas ao jantar, ou então levam-nas para casa. As pessoas saem daqui muito contentes.»

Não se dorme no Monte da Ravasqueira e, por isso, há mui­ta gente que fica alojada no Convento do Espinheiro, em Évo­ra. É um cinco estrelas instalado num antigo mosteiro do sécu­lo XV, com arte sacra espalhada pelas paredes e uma capela que faria corar de inveja muitas catedrais europeias. «O vinho está a tornar-se cada vez mais importante para o negócio», diz Ma­ria Carapinha, a diretora. «Produzimos cem garrafas por ano, que não é nada, mas que permite aos visitantes acompanhar o ciclo da uva, fazer as vindimas, perceber como a bebida fermen­ta. E isto nasce da nossa impressão de que há um interesse cada vez maior pela área.»

Todos os dias fazem-se provas de vinhos na adega, que fica no antigo claustro. Por baixo das abóbodas há expositores com garrafas de todo o mundo e de todas as regiões do país, mas no­venta por cento das vendas, claro, é em vinhos alentejanos. «Te­nho pessoas que gastam aqui dez mil euros.» Portugueses? «Só 45 por cento da nossa clientela é nacional. O resto são estrangei­ros.» Brasileiros, americanos e franceses são as nacionalidades com maior presença – e estão a crescer. «E são eles que se focam em tudo o que tenha que ver com vinho. Os portugueses tam­bém aderem, mas vêm pela gastronomia, pelo património. São alvos diferentes.»

A cozinha do Convento do Espinheiro é coordenada por Bouazza Boughlani, um chef de 27 anos que nasceu em Marrocos mas anda a tentar atualizar a comida tradicional alentejana. «Primeiro esco­lhemos o vinho, depois tentamos perceber que comida fica bem com este ou aquele prato. Nem sempre é fácil, porque a gastrono­mia desta região é de origens pobres e dá algum trabalho qualificar estes produtos, requer imaginação.» No inverno cozinha-se com vinho, de três em três meses muda-se a carta de bebidas. Hoje há um grupo vindo do Koweit, 16 pessoas. Pedem vinho, e o chef adapta o menu às suas escolhas. Também faz consultadoria ao restaurante Cartuxa, no centro de Évora, onde a comida se verga ao vinho com o mesmo nome. «Tu não poderias fazer isto tão bem se não fosses mesmo um apreciador da bebida.» Mas um muçulmano bebe álcool? «Só vinho. Sempre vinho.» Daí a umas horas, depois de acabar o trabalho, o cozinheiro marroquino há de cumprir o seu ritual de fim de dia: ir a uma rulote, comer uma pita shoarma, beber um copo de vinho. É um tipo desempoeirado.

Uns quilómetros a sul, na Herdade dos Grous, entre Beja e Cas­tro Verde, o vinho dita, e de que maneira, o que se passa no res­taurante. Rui Prado trabalhou com os maiores chefs do país, an­dou pelo estrangeiro e aterrou no Alentejo para cozinhar com vi­nho. «Há uma mística própria das vinhas, que dita um ciclo, e que aqui tentamos seguir com rigor.» Na época das vindimas cozinham–se as primeiras castanhas, quando se abrem as pipas mata-se um porco, preparam-se os enchidos – e a sua comida obedece a esta ló­gica sazonal. O restaurante oferece menus vínicos, com sopas de ca­ção cozinhadas com um Grous branco e gaspacho de uvas pretas que é servido numa garrafa de vidro. Edivaldo e Viviane de Jesus, brasileiros de Curitiba, quase aplaudem quando a comida chega à mesa. «Estamos a viajar pelo país todo a procurar os melhores vinhos. Mas nunca tínhamos visto isso, almoços inteiros em re­dor do vinho», diz ele. «É como se o próprio Baco estivesse a orga­nizar uma festa no Alentejo.» E desata a rir-se.

Por causa do vinho
Os Grous são propriedade da família Pohl, os mesmos alemães que são donos do resort Vila Vita, no Algarve. Muitos dos turistas que vão passar férias a sul vêm ali fazer programas de dia inteiro, alguns passam a noite, e todos provam vinho. «Temos 73 hecta­res de produção, exportamos quarenta por cento do que fazemos, mas o nosso negócio é o turismo. Ou melhor, o enoturismo», diz Aurélio Marcos, diretor do hotel. Há visitas à herdade, provas e cursos, pode passar-se um dia inteiro com um enólogo e um clien­te pode criar o seu próprio lote a partir de várias castas.

Os workshops nos Grous são cuidados. Há vários copos com es­peciarias, há vários frascos com aromas, e há cartolinas que mos­tram os frutos ou as sementes que dão aquele cheiro. «Então da­mos o vinho às pessoas e ajudamo-las a interpretar.» Romã, ana­nás, rosas, baunilha, canela, pimenta. «Temos cursos de vários níveis, para públicos amadores e para clientes mais especializa­dos.» Vem cada vez mais gente. Alemães, claro, mas muitos por­tugueses. «Há cada vez mais opções para quem quer saber de vi­nhos. E isso é um fenómeno recente porque os vinhos alentejanos também são um fenómeno recente. Têm trinta anos, o enoturis­mo na região tem cinco ou seis, mas as condições são excelentes. O único caminho é crescer.»

A diversidade de ofertas ajuda a potenciar o mercado. Não se ven­de apenas vinho, vende-se a mística do vinho. No L’And Vineyar­ds, por exemplo, há um spa de vinoterapia. Esfoliação com grai­nha, massagens com uva, cremes feitos a partir de produtos viní­colas. «Há pessoas que vêm por causa disto, mulheres na maioria, mas cada vez mais homens», diz Maria Pitéu, que coordena aque­le espaço. Durante época de vindimas faz-se também moon har­vest. Ir colher uvas com lua cheia, lanterna na testa, tesoura de po­da nas mãos. Mas o prato forte são os cursos de escanção, que Gonçalo Mendes organiza. Ele não fala só dos aromas, nem só das castas. Fala dos vinhos como se fossem tesouros, diamantes por lapidar, outros bem constituídos, aprumados. «Um Douro dá aquele flash inicial, deixa-te contente, mas é arrogante. O vinho do Alentejo é mais humilde, vai crescendo na boca, é um vinho para namorar.»

O L’And é sobretudo um negócio imobiliário. Tem trinta quartos de hotel e uma noite pode ficar por trezentos euros. Tem um res­taurante com uma estrela Michelin, quem está ao leme é Miguel Laffan. E não tem mais de seis hectares de vinha, que servem so­bretudo para abastecer a cozinha. «Mas tudo aqui gira em torno do vinho», diz Pedro Cabeça, técnico de viticultura. «Algumas pesso­as compram propriedades e têm direito a uma parte das castas, com que fazem o seu vinho.» O próprio edifício central da her­dade é construído em redor de uma adega exterior. É um dos poucos casos em que o enoturismo superou as vendas de garrafas.

No salão da Herdade da Malhadinha Nova, perto de Al­bernoa, há vários jogos de tabuleiro para os clientes que ocu­pam os dez quartos do hotel. Mikado, Pictionary, Monopó­lio e Scrabble, e depois há um que se chama Mundo dos Vinhos. Uma espécie de Trivial Pursuit com perguntas sobre castas, regiões demarcadas, anos emblemáticos de produção. Aqui não chegam hordas de turistas, a ideia é receber pouca gen­te, mas recebê-la bem. A piscina tem vista para a vinha, 57 hec­tares de produção. Há um restaurante, há produção de ani­mais e há privacidade. «Aqui não entram paparazzi», diz Filipe Seguro, diretor do hotel.

Estamos em período de vindima e por isso a azáfama é gran­de na adega. Nuno Gonzalez é o enólogo de serviço e, como ho­je é dia de pisar uva, pede a três colegas que mergulhem no tan­que. «A primeira pisa é nossa, depois entram as máquinas», diz uma delas. Os clientes podem participar, mas fazer vinho, ali, é uma festa. A música ecoa pela adega toda, indie rock, parece-nos. No outro lado da herdade, dá-se comida aos porcos e às vacas. Este enoturismo é quase autosuficiente, mas a ideia ali também é essa: pacatez, recato, isolamento.

Os programas incluem provas de vinhos, cursos e passeios a ca­valo na vinha. Criam-se cavalos lusitanos, há 28 e alguns são cam­peões nacionais de dressage. Pedro Sousa, o cavaleiro de serviço, organiza passeatas de meia hora ou hora inteira, às vezes atrela uma charrete aos animais, e certo é que o percurso faz-se no meio da uva. Quem quiser pode pegar numa bicicleta, dar uma volta so­zinho. «É este Alentejo que queremos vender», diz Filipe Seguro, «o dos grandes espaços e da tranquilidade absoluta. Não há melhor sítio do que este para parar, respirar e pensar. E isso funciona mui­to melhor com um copo de vinho na mão.» Quem haveria de dizer que o trabalho dos pobres ia virar luxo de ricos?
VIAGENS COM VINHO
Em abril deste ano abriu o primeiro portal de enoturismo em Portugal. Não é só uma agência de viagens, é mais um centro comercial onde os clientes podem pesquisar online a diversidade de ofertas de turismo associado ao vinho e criar o seu próprio programa de viagens. «Sou informática de gestão com um gosto grande pelo vinho», diz Sílvia Ferreira, fundadora da Wine Tourism Portugal. «Comecei a trabalhar nisto em 2012 e senti sempre que era um mercado em crescimento.» O negócio tem sido auspicioso, a maioria da clientela é estrangeira e o Douro ainda é o destino mais requisitado. «Mas o Alentejo tem o fascínio de ser uma novidade, e tem tendência a crescer.» Pode encontrar o portal aqui.

A Notícias Magazine agradece à Wine Tourism Portugal a organização desta viagem.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Paulo Alexandrino/Global Imagens