OPINIÃO

A vida a brincar

O forte de Miss Suzie é construir personagens e criar. E quanto mais bizarro, melhor.

Muitos associam Miss Suzie ao aluguer de fatos no Carnaval, mas o forte da figurinista é construir personagens e coisas de raiz, sejam adereços, mascotes, cenários ou um guarda-roupa invulgar. O único requisito? Ser o mais bizarro possível.

Fazer animação é como andar de bicicleta – nunca se esquece, mesmo se passarmos anos sem praticar – e Suzie Peterson está ao nível dos que fazem acrobacias numa só roda quando se trata de conceber personagens fantásticas. O lema escolhido, quando abriu o ateliê Miss Suzie Guarda-Roupa Ideias e Afins em Lisboa, em 2005, tinha que ser uma frase de Júlio Verne segundo a qual «tudo o que uma pessoa pode imaginar, outras podem tornar real», para dizer que não existem impossíveis. Das mãos desta figurinista-aderecista, perita em fatos temáticos e roupas para espetáculos, saem coisas tão diferentes como heróis de banda desenhada, figuras carnavalescas, mascotes de marcas ou animais. Há somente uma coisa que Miss Suzie não faz nem que lhe peçam de joelhos: roupa normal, que para isso existem as modistas e os responsáveis de guarda-roupa mais cordatos.

«Trabalho bastante para companhias de teatro independentes, com muito menos dinheiro para montarem os seus projetos do que as grandes empresas, e pergunto-me sempre por que razão é que os pequeninos não hão de ter coisas giras também? Epá, se não podemos fazer com materiais topo de gama, usamos outro tipo de materiais, mas fazemos bem na mesma.» E assim mesmo de projeto em projeto, com a cabeça em universos fantásticos e uma genica à prova de bala, Suzie tem vindo a crescer em pedidos, espólio acumulado e necessidade de espaço. «Há 25 anos formei-me palhaço na Escola de Circo do Chapitô, tinha um grupo de novo circo (o Cesta de Artes) que fazia animação e cabia-me pensar nos figurinos para nós, para fora, para mim… A minha inspiração nunca foi bem a dos estilistas, que trabalham seguindo tendências», conta.

Já nessa altura a sua imaginação não conhecia limites, o que lhe valeu uma casa atravancada de caixotes cheios de adereços e os cabelos em pé quando tinha que alugar coisas que não encontrava. Mudou-se então para a Rua do Século, onde partilhou ateliê com uma amiga durante três anos: «Foi ótimo, mas aquilo era minúsculo. Eu fazia mascotes e tinha que acabá-las na rua», adianta a artista, bem recordada da vez em que lhe pediram sete camelos para um anúncio do Dakar e não havia loja que chegasse para tudo. «A Rua do Século nunca mais foi a mesma depois disso.» Entretanto apaixonou-se pelo homem que se tornaria seu companheiro, Nico Guedes, também à procura de sítio para construir as suas baterias, e mudaram-se para o atual espaço na Rua Santo António da Glória, 6 C, com ar de camarim aberto a promessas.

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«O Nico e eu tornámo-nos sócios na vida e no trabalho, e faz todo o sentido que assim seja, porque o que fazemos está ligado: ele, além de músico, criou comigo a produtora New Animation Laboratory, para a qual faço produção e direção artística. Já eu canto com os Ena Pá 2000 e os Irmãos Catita, estou com o ateliê o ano todo e ajudo a construir os cenários e efeitos especiais para os nossos filmes», explica Miss Suzie, habituada a desdobrar-se como um polvo para ter mãos que cheguem para as mil e uma empreitadas: «Lembro-me que o ano passado fizemos os cenários para a apresentação dos álbuns da Áurea e da Luísa Sobral, logo a seguir tivemos uma encomenda para o Pavilhão do Conhecimento de 24 filmes de animação em três meses… foi uma loucura! E ao mesmo tempo pediram-me os adereços para uma exposição e despachei outros pedidos que iam chegando, porque não fico três meses a trabalhar só para um cliente.»

Apesar de muita gente associar Miss Suzie ao Carnaval e ao aluguer de fatos – e aqui ela nunca cede apenas a roupa mas a personagem completa, acostumada que está a ser outras pessoas enquanto artista de teatro e cinema –, o forte da figurinista de 44 anos é mesmo construir coisas de raiz. Mexer nos materiais, saber como se comportam, dar-lhes a forma dos sonhos de cada um. «Às vezes o cliente chega, diz querer um fato para vender o produto X, e nesse caso procuro conhecer a estratégia de marketing para me inspirar», revela a criativa, que gosta especialmente que lhe digam para inventar algo da sua autoria. «Fazer mascotes para empresas é ainda mais simples: tenho que olhar para os logótipos e, de alguma forma, conseguir pôr um corpo humano lá dentro.»

Suzie já perdeu a conta aos pedidos bizarros que recebeu, de tal modo está ligada ao extravagante e à fantasia, mas é precisamente essa diferença que lhe acelera o coração. «O Teatro do Bairro pediu-nos para lhe criarmos um cisne morto, que ficou lindíssimo, e ainda agora terminei uma cauda de sereia para alguém vestir no próximo filme do cineasta Miguel Gomes», enumera. Idealizou um casaco alternativo para o Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, que conhece «de gingeira» há 20 anos, e saiu-lhe uma peça a cruzar o estilo de cossaco russo com apontamentos punk, cheia de pinta. Suzie não tem empregados, mas vai contratando pessoas da sua confiança consoante a empreitada a realizar sejam adereços, mascotes, cenários, guarda-roupa ou qualquer outra coisa fora do normal.

«Acho que o mais mirabolante que fiz, por não se tratar de um espetáculo nem de um baile de máscaras, foi vestir um casal de noivos que não queria nada de convencional no seu casamento», confessa. A noiva perdeu-se de amores por um vestido branco que encontrou no ateliê, cheio de estruturas ondulantes que combinou com umas bolas na cabeça, e a artista construiu um fato na mesma linguagem para o noivo, além de um bouquet falso a completar a indumentária dela. «Acredito que quem os viu sair do cartório assim trajados possa ter deitado as mãos à cabeça. O que é certo é que eles estavam radiantes no dia mais especial das suas vidas e isso é que importa.»

Miss Suzie reconhece que muitas vezes o stress é tanto que anda «a bater com a cabeça nas paredes», mas a verdade é que adora o que faz e tira daí uma força insuspeita. «Irrita-me haver quem pense que isto é tudo um recreio pegado, sem supor que eu trabalho uma média de 12 horas por dia e hipoteco os fins de semana quando se trata de assegurar que um espetáculo esteja pronto a tempo», diz. É uma brincadeira muito séria, sem sombra de carnavalices por mais que o cenário possa induzir em erro. «Eu posso divertir-me a valer, mas suo as estopinhas para fazer as coisas acontecerem. Quem corre por gosto também se cansa.» Valha-nos o jeito dela para tornar real aquilo que a nós só nos ocorre imaginar.

ATELIER MISS SUZIE

MORADA: Rua Santo António da Glória, 6 C, Lisboa.
CONTACTO: 917 786 778 (atendimento por marcação).
ALUGUER DE PERSONAGENS: 50 euros.
PEÇAS FEITAS POR MEDIDA: orçamento definido caso a caso, mediante os materiais, o grau de dificuldade e os custos envolvidos.
CURIOSIDADES: Suzie é lisboeta, filha de mãe alfacinha e pai sueco (daí o nome invulgar e o apelido Peterson). Enquanto atriz de teatro, trabalhou com Lúcia Sigalho em Cármen Sisters e A Cena do Ódio de Almada Negreiros para o CCB (1994); levou a cena na Barraca Corações de Papel Pardo, de Beckett, com João Martins e António Pires (também em 94); participou no espetáculo O Artista Português É Tão Bom Como os Melhores, de Manuel João Vieira, no Teatro São Luiz (2009). No cinema entrou em Corte de Cabelo de João Sapinho (1993), PAX de Eduardo Guedes (1994), Lovebirds de Bruno de Almeida (2007) e Filme do Desassossego de João Botelho (2010), entre outros.

Ana Pago
Fotografia: Leonardo Negrão/Global Images