OPINIÃO

A supercola3 que trata as varizes

Maria do Sameiro Caetano Pereira diz-lhe tudo o que precisa de saber sobre esta doença crónica.

Há três milhões de portugueses que sofrem desta doença crónica. As novas técnicas permitem tratar as varizes sem anestesia geral e com melhores resultados estéticos. A mais recente recorre a um produto sintético, que é supercola 3 diluída, e permite que o doente seja operado de manhã e vá trabalhar à tarde.

O que são as varizes?
As varizes resultam do mau funcionamento das válvulas que impulsionam o sangue para o coração. Como as válvulas não estão a funcionar corretamente, o sangue, em vez de voltar para o coração, vai ficando acumulado pelo peso da gravidade e provoca a dilatação das veias. É um problema de circulaçãoo venosa, de retorno do sangue ao coração. Aparece mais nos membros inferiores do que nos superiores porque a coluna sanguínea faz mais pressão nas pernas, e também porque as veias têm um calibre maior. Em cada perna, temos duas grandes veias superficiais, a grande safena e a pequena safena, que drenam o sangue dos vasos da pele e dos tecidos mais superficiais.

Se as varizes não forem tratadas, que tipo de complicações podem surgir?

Não tratadas, as varizes podem provocar tromboembolismo pulmonar – e a embolia pulmonar mata – e varizes secundárias, que fazem úlceras, tornando a doença ainda mais crónica.

São uma inevitabilidade hereditária?
A predisposição genética é um dos principais fatores de risco, mas há outros, como o sedentarismo, passar muitas horas de pé ou sentado e o excesso de peso. Nas mulheres, é frequente aparecerem depois da gravidez, devido às alterações hormonais e também ao aumento de peso.

Como se pode prevenir as varizes?
Não podemos controlar a hereditariedade, mas os fatores de risco sim, como a obesidade, fazendo uma alimentação equilibrada e exercício. Não usar roupa muito apertada também ajuda a prevenir.

Que cuidados devem ter as grávidas?
Sabendo que há predisposição, a vigilância deve começar cedo. A grávida deve fazer prevenção com suporte elástico (meias elásticas) e, a partir do quarto mês, tomar medicação.

Qualquer pessoa com história familiar da doença deve usar meias elásticas?
Se tiver outros fatores de risco, sim. Aliás, quem tiver uma profissão que obrigue a estar muitas horas sentado ou de pé deve usar meias elásticas até ao joelho, porque é mais confortável e contraria o efeito da gravidade. O exercício físico também ativa a bomba muscular, que temos na região dos gémeos, e empurra o sangue em direção ao coração.

As mulheres que tomam a pílula têm mais probabilidade de ter varizes?
Têm mais tendência para ter derrames e aranhas vasculares. Por outro lado, apresentam mais complicações decorrentes dos estrogénios, que compõem os anticoncecionais e interferem com a coagulação, o que pode levar a tromboses venosas. É, aliás, devido a fatores hormonais que as mulheres sofrem mais de varizes do que os homens.

Quantos portugueses sofrem do problema?
Cerca de três milhões, e dois milhões são mulheres.

Desse total, quantos precisam de tratamento cirúrgico?
Não há estudos, em Portugal, mas estima-se que mais de 50 por cento das mulheres com varizes precisem de cirurgia. O que significa que um milhão de doentes precisam de algum procedimento cirúrgico, minor ou major.

Os tempos de espera para cirurgia das varizes costumam ser dilatados. O aumento das cirurgias em regime ambulatório reduziu a lista de espera?
A cirurgia de ambulatório reduziu a lista. No Centro Integrado de Cirurgia de Ambulatório (CICA) do Centro Hospitalar do Porto, a lista é praticamente inexistente: a espera média é de um mês. Precisávamos era que nos referenciassem mais doentes porque temos capacidade para operar mais doentes e num curto espaço de tempo.

Atualmente, que opções cirúrgicas existem?
Há uma grande panóplia de soluções, que podemos dividir em duas categorias: a cirurgia clássica, que é a técnica convencional, aberta, e a endovenosa. A clássica consiste na extração das grandes veias superficiais para fazer que o sangue circule no sistema venoso profundo. Há também técnicas endovenosas, minimamente invasivas, que aplicam vários dispositivos. Começou com a técnica de esclerose com espuma, que é mais barata mas que apresenta riscos, tanto do ponto de vista estético como da ocorrência de tromboembolismo pulmonar, e depois evoluiu para o laser, a radiofrequência, a ablação mecânico-química, o vapor e, mais recentemente, o tratamento adesivo com cola medicinal.

Qual a principal diferença entre a cirurgia clássica e as técnicas endovenosas?
As endovenosas são menos agressivas, esteticamente resultam melhor, acarretam menor incómodo para o doente e podem ser realizadas com anestesia local. Com a introdução da radiofrequência, de que fui pioneira em Portugal, foi possível realizar estes procedimentos com anestesia local, tumescente, isto é, diluída num soro frio que permite que não se queime nem os tecidos profundos nem a pele. Na sequência destas técnicas de ablação térmica, surgiu a técnica mecânico-química, que injeta um líquido que vai secar a veia. Estes procedimentos são feitos no Serviço Nacional de Saúde e são menos onerosos.

Há doentes que fazem estes tratamentos menos invasivos e queixam-se de que as varizes voltam a aparecer. Qual é a taxa de eficácia destas técnicas?
Todas as técnicas endovenosas têm uma eficácia, ao fim de um ano, acima de 94 por cento, o que é superior à cirurgia convencional. Ainda não há estudos a longo prazo porque, ao contrário da cirurgia convencional, que é realizada há mais de cem anos, são técnicas recentes.

Qual é o procedimento mais inovador?
É o tratamento adesivo com cola medicinal. Estou entre os primeiros 20 cirurgiões, em todo o mundo, a realizá-lo. Quanto à radiofrequência, os resultados são semelhantes ou melhores, porque dispensa o uso de meia elástica. É um procedimento cirúrgico minimamente invasivo, que dispensa bloco operatório, e que usa um produto sintético, cianoacrilato, que é supercola 3, em concentração muito baixa e sem toxicidade.

Qual é a vantagem desta técnica em relação às outras endovenosas?
Uma das vantagens é que só é necessária a anestesia no local de punção para tratamento do refluxo das grandes veias. Outra grande vantagem é a utilização do ecodopler durante o procedimento, o que permite visualizar as veias e, como o doente não está com anestesia geral, se o cateter não estiver bem posicionado, queixa-se com dor. É mais seguro. Além disso, o doente fica imediatamente funcional.

E o doente pode ir trabalhar logo a seguir?
O doente pode fazer o procedimento de manhã e, à tarde, trabalhar, andar e até correr. Com a técnica da radiofrequência, também é aconselhável que o doente caminhe uma hora, e os resultados são semelhantes, mas o procedimento é um pouco mais incómodo, porque é necessário aplicar anestesia local ao longo do trajeto do cateter. Já os doentes operados com a técnica convencional têm de ficar deitados com as pernas levantadas.

Quanto custa esta técnica com a cola?
O custo depende do doente, de ter uma ou mais veias insuficientes e da evolução da doença. Neste momento, o custo é a única desvantagem, uma vez que é cerca de três vezes superior ao da radiofrequência. A tendência é para o preço baixar, à semelhança do que aconteceu com as outras técnicas.

Este tratamento já está disponível nos hospitais públicos?
Não. As outras técnicas endovenosas, sim, mas esta técnica com a cola é muito inovadora e ainda não, devido ao preço mais elevado do cateter.

Estas técnicas menos invasivas podem ser aplicadas em doentes com varizes em estado adiantado?
Sim, podem. Tenciono operar um doente com 80 anos, que apresenta úlceras na perna porque, como esta técnica é menos invasiva, o risco de infeção é menor. Pessoas idosas, muito obesas ou com grandes edemas podem ser operados com esta técnica.

Isso significa que as técnicas convencionais tendem a desaparecer?
Creio que sim. Em 2001, nos EUA, 90 por cento dos doentes eram operados com técnicas convencionais. Dez anos, 90 por cento dos procedimentos eram com técnicas endovenosas.

E em Portugal?
É essa a tendência. Neste aspeto, o Centro Hospitalar do Porto é pioneiro. É o hospital público que realiza mais técnicas endovenosas para tratamento de varizes.

Helena Norte
Fotografia: Rui Oliveira/Global Imagens