OPINIÃO

A noite dos inquizidores

Conheça o quiz mais competitivo de Lisboa.

Esqueça o Trivial Pursuit, o Quem Quer Ser Milionário? ou as perguntas de cultura geral do costume. Na Academia Recreativa da Ajuda, em Lisboa, joga-se aquele que é, provavelmente, o quiz mais competitivo do país.

A  jornada vai longa. Passa das duas da manhã quando o jogo chega à reta final, com um duelo renhido pelo primeiro lugar.  Última pergunta: na Primeira Guerra Mundial, que poeta italiano sobrevoou Viena para largar propaganda? « Gabriele d’Annunzio!» A  resposta sai sem hesitação e acrescenta um ponto à contabilidade dos Feios, Porcos & Maus, valendo-lhes uma vitória à tangente na derradeira jornada do campeonato de quizda Ajuda. Além do prémio de jogo, este resulta do garante-lhes o segundo posto na  classificação final de 2013. O primeiro lugar, há muito que já era dos Fernandos  Mamedes, a  equipa com mais títulos no historial da competição.

A cada um, a sua dose de cultura geral. Há quem se contente em ver o Quem Quer Ser Milionário?, outros preferem jogar Trivial Pursuit. E há aqueles que gostam de ser real mente postos à prova. Para esses, há as noites de quiz, fenómeno que tem vindo a crescer um pouco por todo o  país. «Era engraçado ver a reação das  pessoas quando, há uns cinco anos, entravam num bar, viam a sala cheia de  gente  sentada a escrevinhar e não faziam ideia do que se estava a passar», conta Júlio Alves, organizador profissional  de quizzes e jogador há quase  duas décadas (ver caixa). «Se eu dizia “bem-vindos, hoje é noite de quiz, querem jogar?”, continuavam sem perceber do que se  tratava e eu tinha de explicar tudo  outra vez.»  Hoje são vários os bares e  as associações que organizam noites dedicadas ao conhecimento, em que o objetivo é  simples: juntar uma equipa e acertar o máximo de perguntas sobre os mais diversos temas. O prémio pode variar, mas por norma traduz-se em  crédito no bar.
Na Academia Recreativa da Ajuda, a recompensa é maior: uma parte do valor das ins crições (cinco euros por pessoa) reverte pa ra a equipa vencedora. Mas não é fácil vencer  este  jogo.  António  Pascoalinho, professor de cinema e bicampeão de quis com os Fernandos  Mamedes, chama-lhe, com as devidas aspas, «primeira liga». «Também jogamos noutros quizzes, mas aí é para brincar. Se um elemento da equipa falta para ir ver o Benfica ou jantar com a família, não faz mal. Mas nos dias de quis da Ajuda faz mal», explica, com ligeira ironia. «As equipas são de seis. Quando um falha, o rendimento não é o mesmo.» O cer to é que, em oito campeonatos, só três não foram ganhos pelos Mamedes.

O quis mais competitivo que Lisboa já conheceu decorre na terceira sexta-feira de cada mês (interrompido apenas em  agosto), na Academia Recreativa da Ajuda. Quem passa diante do número 67 do Largo Dom Vasco nem suspeita a agitação que vai lá dentro. Franqueada a porta de ferro, subidas as escadinhas íngremes, chega-se ao bar, com a sensação de se estar a entrar numa sociedade secreta ou num clube clandestino, um local onde quem é da casa se conhece e as caras estranhas são topadas de imediato. Nos dias de quiz, chegam-se para o lado os aparelhos de gi násio que habitualmente ocupam o  salão de baile e põem-se as mesas. Liga-se o sistema de som, verifica-se o microfone, testa-se o projetor. Se não for dia de futebol, fator inevitável de atraso, a invasão do salão está marca da para as 22h30: dezasseis equipas, seis jogadores cada, tomam os seus lugares. Somando os organizadores, as empregadas de mesa e algum público que vai aparecendo, estará sempre perto de uma centena de pessoas nesta sala cheia de eco e fumo de tabaco. Primeiro, uma prova escrita, que pode envolver charadas, problemas  matemáticos, identificação de celebridades,  bandeiras, músicas, o que os organizadores entenderem.
O objetivo é entreter, já que isto é só o aquecimento. Segue-se o jogo «a sério». As perguntas são apresentadas pelo anfitrião de serviço, direcionadas à vez às equipas pela ordem numérica. Se a equipa a que a  questão se destina acertar, ganha dois pontos. Se falhar, a pergunta passa de mesa em mesa (por isso se chama «cascata»), percorrendo a  sala até alguém saber a resposta, que valerá um ponto. A dificuldade vai crescendo ao longo da noite. Primeiro, vêm as fáceis. Mas nada de coisas «simples» como «Qual é a capital de Madagáscar?» ou «Por que nome ficou conhecido Farrokh Bulsara?». Essas darão inevi ta vel mente azo a protestos. Espere-se antes algo como «Qual é a capital de La Rioja?» ou «Em que cidade se passa a série de animação Power  Puff Girls?». As dez  equipas mais bem posicionadas passam à fase seguinte. E,  para a final, há apenas seis mesas em jogo. Aí, as coisas  complicam-se. «Em que olimpíadas correu  Mi ruts Yifter?» ou «Quem foi  capa da primeira edição do Blitz?» são o género de perguntas que pode aparecer. Isto sem falar de questões  sobre poetas-italianos–que-sobrevoaram-Viena-para-lançar-propaganda. História, geografia, ciências, desporto e artes são temas habituais. Mas também podem vir à baila direito internacional, veículos  blindados ou estações de metro. Depende da especialidade e do bom senso de quem organiza – responsabilidade partilhada, alternadamente, pelas onze equipas mais bem classificadas na temporada anterior.

Numa jornada bem encaminhada, o jogo acaba por  volta da uma da manhã. Noutras noi tes, pode  durar até às quatro. As polémicas tornaram-se prato do dia, talvez pela facilidade em aceder à internet para contestar respostas dúbias ou perguntas mal formuladas. «Dantes, o pessoal acreditava no que eu di zia, não resmungavam  como agora»,  desabafa  Júlio  Alves.  De  temas  tão inócuos como a diferença entre um feijão e uma feijoca podem nascer acesas discussões que por pouco não chegam a vias de facto. «Este quizé hardcore», acrescenta João Silva, uma das figuras mais conhecidas do circuito e um dos poucos que consegue romper o sururu com um  grito de «Silêncio!» quando as coisas começam a descarrilar.

António Pascoalinho já perdeu a  conta dos anos que leva a jogar quiz. Começou «por volta de 1998». Na altura, o jogo dava  ainda os primeiros passos em Portugal. Nascido nos pubsbritânicos nos anos 1980, o  fenómeno chegaria a Lisboa pelo bar  inglês Comfy Cushion, em 1995. Foi aí que Júlio Alves começou. «Aquilo era muito mal  organizado. Estavam habituados ao público inglês, e praticamente não havia regras, porque lá  toda a gente sabe o que é um quiz.» O jogo não tardaria a ser subvertido, minado  pela  batota descarada. «Havia gajos com enciclopédias no carro, era uma  selva.» O público  britânico foi deixando de ir e os  responsáveis  cederam à ­des­mo­ti­vação. «Quando pararam, eu tinha um bar na Madragoa, foi aí que tudo come­çou.» O segundo ­começo, portanto. Jú­lio apre­­sentou o seu primeiro quiz no Cha Cha Cha, em 1999, e não ­tardaria a ter de ­mudar pa­ra um bar maior, a que chamou, sem mis­tério, Quiz. Foi lá que muitos dos «dinos­sau­ros» da Ajuda se ini­ciaram. No princí­pio eram quatro, ­cinco equi­pas, «mas aqui­lo cres­ceu exponencialmente». Entretanto, o bar, como tantos negó­cios, fechou e os quiz­zes ­acaba­ram por uns tempos – até que João Silva começou a organizar. É altura de falar do terceiro começo: a cascata.

Até aí, vigorava só o formato tradicio­nal, o quiz de bar: 50 perguntas para toda a sala, res­postas por escrito. No fim da noite, ­cor­rige-se as provas e é anunciada a ­pontua­ção. Em 2004, apareceu o quiz de ­cascata. A sua ori­gem é algo nebulosa. Segundo João ­Silva, «foi criado na [Universidade] ­Lusíada, ­depois passou para o restaurante Terreiro do ­Paço». Pascoalinho acrescenta-lhe um nome: Mi­guel Júdice, CEO da Thema Hotels, antigo dono do restaurante. Já Júdi­ce aponta mais para trás: «Da primeira vez que joguei, ­tinha uns 14 anos, foi ­organizado por Marce­lo Re­belo de ­Sousa, Maria João ­Avillez e Quito Hi­pólito Rapo­so.» Não tem a certeza ­quanto ao formato, mas ­garante que, «já adulto», jogou «uma coisa organizada na Católica e era em cascata». E reforça: «Não fui eu que inven­tei o forma­to.» ­Paternida­de assumida ou não, o quiz de cascata instituiu-se no Terreiro do Paço, pela mão de Júdice, e ­con­tinuou a cres­cer, até as responsabi­lidades de hote­leiro ­começa­rem a pesar na gestão do tem­po. En­tra de novo em ­cena João Silva, que levou o jo­go para a academia recrea­tiva da qual chegou a ser presidente. Em 2006 foi cria­do um cam­peonato, com regulamento es­crito e tudo.

Quase uma década depois, o ­torneio man­tém-se. «O quiz oferece uma desculpa para ir para os copos com os ami­gos, parecen­do que se está a ­fazer algo mais do que isso», resu­me, em jeito de paródia, Tiago Rodrigues. Os seus Zbroing 747 chegaram a ganhar o cam­peo­nato, mas entretanto mudaram-se para quizzes mais tranquilos, moti­vados ­pela inconsistência de qualida­de dos jogos e pelo «excesso de compe­titividade de algumas equipas». Júlio Alves também já deixou a «casa-mãe» e agora dedi­ca-se apenas a ­fazer perguntas, com quizzes semanais em vários bares lisboetas. Garan­te que se diver­te mais do que a jogar, mesmo tendo de «inventar» mais de seiscentas ques­tões todos os meses. João Silva, além de ali­nhar pelos ­Ex-­Cavalei­ros na Ajuda, também tem a sua dose de ­trabalho com isto. Às ter­ças está no Estado d’Alma (onde apresenta também uma cascata mensal), às quintas no ­Indiferente e aos domingos no Joker. Conci­liar isto com o trabalho, ­como professor de Educação Física e treinador de futebol, não lhe custa. «As pessoas têm os seus hobbies, es­te é o meu.» Pascoalinho «sofre» do mesmo «mal»: «Não dispenso jogar, mas não é um frete organizar, até é estimulante.»

Encontramo-lo no lugar de anfitrião às quartas, na Sociedade Guilherme Cossoul, e aos domingos no Magic Pool Bar. Nos «anos de ouro» dos concursos televisivos de cultu­ra geral, víamo-lo também no pequeno ecrã – a ele e a vários outros jogadores da Ajuda, ­caras familiares de programas como Quem Quer Ser Milionário?, Dinheiro à Vista ou o mí­tico Casa Cheia, ­porventura, o concurso mais difícil da televisão portuguesa, no qual Pas­coalinho participou duas ­vezes. Ganhou am­bas. Mas, garante, «comparado com o quiz de cascata, o Casa Cheia era para meninos.»

PROFISSÃO: ORGANIZADOR DE QUIZZES
Pergunta de algibeira: prefere jogar ou organizar para outros jogarem? Júlio Alves escolhe a segunda opção. Ao cabo de quase duas décadas, dedicou-se só a criar divertimento para os outros, a ponto de deixar o seu trabalho como barman e fazer do quiz profissão. «Não se pode ser muito ambicioso, mas é possível sobreviver. Compensa–me pelo divertimento e pelas pessoas que se conhece.» Júlio ganha, em média, 40 euros por noite e, atualmente, apresenta quatro quizzes por semana. Não tem mãos a medir. Organiza jo­gos «equilibrados em matéria de dificuldade» e «tão abrangentes quanto possível», porém com al­guns limites: «Não faço pergun­tas sobre Casa dos Segredos ou coisa que se pareça.» E até futebol, tema que não lhe agrada particularmente, foi uma adição recente. Foca-se nos «clássicos» da cultura geral: história, geografia, música, cinema, etc. Com espaço para pedidos espe­ciais: «Tento ouvir quem está a jogar e perceber que temas que­rem. É como ser um DJ: vai-se pondo músicas e vendo a quais é que o pessoal reage.»

ONDE JOGAR?
ACADEMIA RECREATIVA DA AJUDA
Rua de Dom Vasco, 67, Lisboa
AL CAFÉ ESTEFÂNIA
Rua da Estefânia, 151, Lisboa
facebook.com/julioalvesblitzquiz

ESTADO D’ALMA BAR & BISTRO
Rua da Junqueira,
Galeria FIL, Loja 3-4, Lisboa
estadodalma.com.pt

INDIFERENTE BAR
Rua de Entrecampos, 12B, Lisboa
facebook.com/indiferentebar

JOKER LOUNGE
Estrada da Luz, 96C, Lisboa
jokerlounge.pt

MAGIC POOL BAR
Rua Augusto Gil, 30A-B, Lisboa
Facebook: Magic Pool Bar

QUIOSQUE TIME OUT
Avenida da Liberdade, Lisboa
facebook.com/julioalvesblitzquiz

SOCIEDADE GUILHERME COSSOUL
Avenida D. Carlos I, 61, 1.º, Lisboa
guilhermecossoul.pt

BAR ZEITNOT
Rua João Saraiva, 13, 2.º, Lisboa
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ASSOCIAÇÃO ARTÍSTICA E CULTURAL LUCHAPA
Palácio do Egipto, Rua Dr.Neves Elyseu, Oeiras
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João Mestre
Fotografia: Vitor Rios / Global Imagens