OPINIÃO

A loja do tempo

Luís Couto Soares é um apaixonado por relógios. E partiu em busca do tempo perdido.

Reduzir os custos de manutenção da coleção privada e reanimar uma atividade em vias de extinção. Foram os objetivos de Luís Couto Soares ao abrir uma loja de reparação de relógios de parede. Um trabalho minucioso, com minutos preciosos.

No rés-do-chão do número 135 da Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa, recuperam-se pe­ças que contam histórias de outros tempos, segundo a se­gundo. Os consertos de reló­gios mecânicos de caixa alta, de parede e de mesa que se fazem na Pêndulo Real são um trabalho de precisão. O som rítmico enche a pequena sala, cada relógio na sua melodia chama a atenção de quem passa e para admi­rando as peças expostas na montra.

A cada revisão geral a máquina é desmon­tada, descascada, reencasquilham-se os apoios do eixo, limpa-se a corrosão, sepa­ram-se as peças uma a uma por mais peque­nas que sejam, replicam-se as desgastadas. «Vai-se ao âmago», diz Luís Couto Soares, que abriu a loja há três anos. Vem depois o tempo da montagem e da lubrificação e, por fim, é preciso testar. «A casa dá uma garan­tia de cinco anos, mas com um trabalho bem feito o relógio não terá problemas nos pró­ximos 15 a 20.» Trabalho para mais de um mês, no caso de relojoaria mais «nobre» – a do século XVIII – orçamentado em regra por um valor mínimo que ronda os 500 euros e que obriga ao cruzamento de vários sabe­res. A Pêndulo Real junta ao especialista em mecânica – sobrinho do proprietário da loja, ex-designer gráfico com vocação para resol­ver intrincados problemas de maquinaria – vários colaboradores externos, de marce­neiros a prateiros e ourives, passando por um especialista em serralharia de precisão.

Estudioso e apaixonado por relógios de caixa alta, o proprietário recupera mostra­dores dos séculos XVII e XVIII. «É uma inova­ção da minha loja, não conheço quem mais faça isto.» Mas o trabalho não se esgota na recuperação e no conserto: «A ideia é apoiar globalmente o cliente, chamar a atenção pa­ra o valor da peça, datá-la e fornecer elemen­tos biográficos do autor do relógio, sempre que este for assinado – e geralmente é.»

Luís Couto Soares, 62 anos, é oficial da ar­mada. Este monárquico nascido no Porto herdou do pai, colecionador de relógios, o gosto pela relojoaria antiga. Ainda mal saíra da adolescência e já estabelecera uma meta: adquirir um relógio inglês de caixa alta. Mas não queria um relógio qualquer – teria de ser do período que desde sempre o fascina, o sé­culo xviii. «Esteticamente, é o meu século.»

No início dos anos 1980 comprou o reló­gio sonhado, dando início à coleção que hoje conta com 25 relógios de caixa alta, alguns de mesa, vários «topo de gama» Tinha 30 anos, vivia já em Lisboa, cidade onde chegou em 1974, com 22 anos, para cumprir o serviço militar na Marinha. Especializou- se em hidrografia, intensificou o gosto pelos relógios, frequentando vários relojoeiros da capital. Entre eles, o prestigiado António Couto, com loja na Rua Sampaio e Pina. «Ia lá uma vez por semana, o senhor achava graça ao interesse de um rapaz pela relojoa- ria antiga e deixava-me ver, mexer, fotografar. E respondia a perguntas. Aprendi muito.» Fotografou centenas de relógios, aprendeu a distinguir o genuíno do falso «vendo, espreitando, tirando apontamentos». Foi ganhando nome na praça, tornou-se consultor e colaborador de leiloeiras e fundações, avaliando e fazendo a descrição das peças para os catálogos.

A loja da Sampaio e Pina não resistiu muitos anos ao desaparecimento do proprietário. Outras foram fechando. E algumas não faziam trabalho de qualidade. «Começaram a faltar lojas de confiança. E faziam-se autênticas barbaridades com relógios. Algumas delas visíveis em peças compostas por mostradores, máquinas e caixas de diversas origens e datas, acasaladas sem nexo por ignorância ou má-fé, ou em relógios cortados no topo ou na base quando o teto era baixo.»

Erros que arrepiam Couto Soares. Entre os relógios que já passaram pela Pêndulo Real estão peças do Palácio de Belém, da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, da Biblioteca Nacional ou do Palácio de Monserrate. «O Estado tem uma boa coleção de relógios de caixa alta, mas muitos estão abandonados.» E há mercado? «Em Portugal, os relógios de caixa alta de qualidade estão contabilizados em poucos milhares. Mas é um nicho de mercado ativo, basta ver os leilões. A loja tem as contas equilibradas. Dá para as despesas e os clientes vão passando a palavra. Fazemos o que nem todos fazem.» Entre os casos de restauro e conserto mais complicados conta-se um relógio de calendário de 1730, mecânica particularmente complexa deslindada pelo sobrinho Filipe, depois de vários especialistas terem desistido.

A vocação multifacetada da loja estende-se a outros objetos, que podem ser igualmente reparados na oficina – octantes, sextantes, binóculos, telescópios ou barómetros. E até relógios de torre já foram recuperados pela casa. «O tratamento é personalizado e não acaba com a montagem da peça, de que eu próprio me encarrego, na casa do cliente. Depois disso, telefono de vez em quando para saber se está tudo bem.» Não mover um relógio com o pêndulo, não expor a peça a luz solar direta ou a fonte de calor e limpar madeira apenas com um pano macio são alguns cuidados e conselhos de manutenção a seguir. Os mesmos que o próprio segue à risca em sua casa, onde tem 25 relógios de caixa alta, 12 a trabalhar em simultâneo – a peça mais antiga é de 1674. Um dos relógios está avaliado em cerca de 30 mil euros. «Mas nem por 50 mil o vendia.» Na loja, encontram-se à venda peças que, refinada a coleção, perderam lugar na sala de Couto Soares.

E quanto ao tique-taque constante? Uma tortura? «Nem pensar. Ouvido ao longe, o som de um relógio é reconfortante, remete- -nos para a nossa infância. É uma presença, uma testemunha de séculos, com personalidade. Até porque parece um adulto – tem cara, a face do relógio, tem tronco e tem base. E comunica, faz companhia.»

Alexandra Tavares Teles
Fotografia de Mário Ribeiro