OPINIÃO

A infância deste rapaz pode ser a nossa

Em Boyhood - Momentos de Uma Vida, Richard Linklater filma a infância de Mason, aliás Ellar Coltrane. 12 anos de filme.

E se a nossa infância fosse condensada em 2h35? O resultado seria Boyhood – Momentos de Uma Vida, de Richard Linklater, o tal filme que todos apontam como um dos grandes favoritos aos Óscares. A vida deste menino foi filmada durante 12 anos. Ellar Coltrane é o seu nome. A Notícias Magazine foi a Londres conhecer o miúdo que entretanto já tem 19 anos…

É inédito o que Richard Linklater (Geração Fast Food, saga Antes de Amanhecer) fez. Todos os anos fil­mava parte de uma história que só teria fim 12 anos depois. A ideia era acompanhar o crescimento de um menino de 5 anos e ver o que dali saía, sempre com um argumento capaz de se moldar, aqui e ali, à realidade. O resultado é espantoso: a vida daquele rapaz e da sua família pode ser um flashback das memórias de infância de todos nós. É esse o milagre do filme de Linklater, a possibilidade de identificação, de apropriação emocional. Não importa se não crescemos no Texas ou se os nossos pais não se divorciaram cedo. Tudo aquilo tem o peso da vida real. Um épico íntimo ca­tártico, pois então. Mas toda a experiência de Linklater poderia ir por água abaixo se não criássemos uma ligação com o rapaz, se não acreditássemos que aquele rapaz pode ser um espelho nosso. E acreditamos.

A América está rendida a Ellar Coltrane, que vê agora a sua infância, crescimento e juventude fixadas num filme-evento. Coi­sa desconcertante, no mínimo. Para Ellar, jovem de olhar terno e serenidade franca, desde que a obra virou fenómeno no Festival de Berlim (venceu o Leão de Prata), cada vi­sionamento é uma viagem surreal ao passado.

Em Londres, vamos encontrá-lo numa suite luxuosa do Soho Hotel, piercing no na­riz que não existia em Mason, a personagem do filme. Pequeno sinal que realça que o jogo entre a ficção e a realidade tem os seus limi­tes. Mason é parecido com Ellar, mas nun­ca foram a mesma pessoa. Apesar de o argu­mento escrito por Linklater ter ido buscar elementos a Ellar, Boyhood não é um docu­mentário sobre a sua vida, diz. «O Mason é diferente de mim, mas também tem coi­sas que são reflexos meus. A verdade é que a minha infância ficou modificada pelo fac­to de estas filmagens terem sido uma cons­tante todos os anos durante um certo período.
O Linklater, entre os outros filmes que foi rodando, anualmente convocava-nos para uma semana ou mais. Em certos anos, che­gámos a ter dois períodos de rodagem. Fi­quei com uma perspetiva sobre a vida muito diferente das outras crianças. É como se es­tivesse permanentemente a colaborar num projeto artístico para a escola! Por outro la­do, não penso que tenha ficado mais adul­to, só posso dizer que olhei para as coisas de uma outra forma.» Mérito que não é só do argumento ou da forma natural como cres­ceu, é a sensação de que todas as etapas emo­cionais das «primeiras vezes» de um jovem estão certas. Aí, há trabalho de ator, há ca­risma de Ellar, que conseguiu que questões como a primeira namorada, o primeiro ato de rebeldia, os primeiros sintomas de crise de adolescência não parecessem forçados. A sua interpretação ou perfomance lembra- -nos literalmente as dores de crescimento e a recordação do que é ser uma criança e, mais tarde, adolescente.

Voltando à questão da bizarria de ver to­das as etapas da sua jovem vida no gran­de ecrã, Ellar confirma que lhe é complica­do analisar o próprio filme: «É muito esqui­sito ver-me naqueles primeiros cinco anos, quase não me reconheço. É a minha versão minúscula! É surreal! Ver Boyhood é sempre uma experiência muito emocional, embora agora já tenha recuperado. Mas sei que é um privilégio ter este retrato de mim. Funcio­na como uma crónica de como fui mudan­do. Agora percebo que a infância é uma parte muito fugidia da nossa vida. Sei que vou es­tar sempre a voltar a este filme e a olhar pa­ra ele sob diferentes perspetivas.»

Apesar de toda a narrativa ser centrada na sua perso­nagem, há também a sua família. A mudan­ça passa também pelos atores que fazem de seus pais: Patricia Arquette e Ethan Hawke. Aí, a passagem do tempo tem outro peso, ou­tra intenção dramática. Também é surreal vermos Hawke a ficar quarentão. Nesse sentido, Boyhood – Momentos de Uma Vida ganha uma carga ainda mais complexa como pará­bola sobre a passagem do tempo. Não é por acaso que nos EUA houve relatos de espeta­dores muito emocionados a aplaudir duran­te o genérico final. O filme toca as pessoas.

Continuamos a tentar perceber como os níveis de transcendência artística desta co­laboração vivencial entre Ellar e Linklater foram esticados e é o próprio que nos con­ta que a ficção entrou pela sua vida aden­tro: «Sim, quando estava escrito no guião que o Mason se interessaria por fotografia, eu acabei por experimentar fotografia e fi­quei apaixonado. Pelo contrário, aconteceu o Mason ter ficado com os meus penteados da altura», diz, com um sorriso tímido, e con­tinua: «A ideia era a personagem ser sempre influenciada pela minha vida. O Linklater quis que tudo fosse natural, real… As gran­des diferenças é que nunca tive irmãos nem mudei de casa, nem tive de passar pela sepa­ração dos meus pais. Tive também educação em casa. Os meus pais odiavam a escola pública! Estou grato por isso, apesar de não ter tido amigos tão cedo.» Os pais de Ellar eram artistas liberais texanos e grandes fãs de Richard Linklater.

Os gostos musicais são outra das matérias em que realidade e ficção não coincidem. Mason cresceu a ouvir Arcade Fire e Cold­play, é fã dos Radiohead. E por ser reserva­do e sossegadinho, toda esta atenção medi­ática em seu redor acaba por ser o segundo choque surreal da vida. Ele próprio já disse que odiaria tornar-se uma celebridade, mas começa a ser complicado: «Tudo isto é novo! A certa altura, estar a ser filmado pelas câ­maras todos os anos deixou de ser estranho, mas agora estas obrigações das entrevis­tas são algo a que não me consigo habituar, em especial nos talk shows televisivos. Fico muito nervoso». Curiosamente, desta vez, sem câmara, está calmo, muito calmo. Diz–nos também que se lembra de levar as filma­gens muito a sério: «Era um puto responsá­vel… mas também, no começo, era um pro­cesso um pouco inconsciente. Uma criança não percebe inteiramente os níveis de com­prometimento. À medida que fui crescen­do comecei a investir muito mais no pro­jeto e a gostar mais. A dada altura percebi a importância que teria para a minha vi­da e tornei-me ainda mais dedicado. Lem­bro-me que o Linklater perguntava-me co­mo tinha sido a minha vida ao longo do ano e dois meses antes e tínhamos um almoço com os meus pais para tentar perceber co­mo seriam as filmagens nesse ano. Depois, tornou-se um processo de colaboração no verdadeiro sentido da palavra, uma espécie de workshop.»

Há quem pense que alguém que andou a infância e a adolescência a ser filmado pode­ria crescer com problemas. Ellar não. Fazer um filme durante 12 anos passou a ser uma coisa normal e nunca teve acompanhamen­to psicológico: «Se calhar, o meu psicólogo foi o realizador! Estava numa situação privi­legiada: pude explorar muito as minhas pró­prias experiências, as minhas relações atra­vés de uma outra personagem. Digamos que fui documentado. Nesse sentido, e aí sim, há algo de documental neste filme que acaba por contar uma história.» Para já, quer vol­tar a estudar. O quê, não sabe ainda, algo que tenha arte, afirma. E ser ator? «Quero conti­nuar a representar, mas tenho de encontrar tempo para começar ir a audições e tudo is­so. Com calma.» A vida deste rapaz deu um filme. Um filme da nossa infância.

Rui Pedro Tendinha, em Londres