OPINIÃO

14 milhões de gritos contra o casamento infantil

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O casamento infantil não é um arranjo invulgar: todos os anos, 14 milhões de meninas são forçadas a casar-se com homens mais velhos, naquilo que o mundo em geral considera ser um atentado contra a Convenção Sobre os Direitos da Criança – ao mesmo tempo que fecha os olhos. Mas o choque é maior quando o problema deixa de ser uma realidade distante e passa a ocorrer num bairro chique de Paris. É o que se passa no filme de quatro minutos 14 milhões de gritos, interpretado pela atriz Julie Gayet (alegadamente envolvida num romance com o presidente francês François Hollande).

A iniciativa é de Lisa Azuelos, que, a propósito do Dia Internacional da Mulher (celebrado a 8 de março), produziu e realizou a curta-metragem a preto e branco para denunciar estes casamentos forçados. Gayet interpreta uma mãe que espera que a filha regresse da escola para lhe oferecer um vestido de noiva. Alexandre Astier é o pai perverso, que aprova a maquilhagem da criança inocente de olhos claros, dizendo-lhe que parece uma mulherzinha. A menina é então levada pelos pais, de carro, até uma sala cheia de convidados, onde a casam com um sexagenário que depois a viola.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a População, estima-se que, entre 2011 e 2020, 142 milhões de menores de 18 anos venham a contrair matrimónio – e que, dessas, 50 milhões se casem antes de terem 15 anos. Os números traduzem-se em 37 mil crianças forçadas ao casamento todos os dias, privadas do seu direito à educação, à saúde e a um desenvolvimento saudável, muitas vezes correndo perigo de vida.

Ana Pago