OPINIÃO

Viajar pelo mundo de amigo em amigo

Saíram de Lisboa há mais de um ano. Passaram por 25 países e ficaram em casas de amigos.
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Saíram de Lisboa em Outubro do ano passado. Regressaram há uma semana. Passaram por 25 países e ficaram em casas de amigos. Ou amigos de amigos. A hospitalidade não tem fronteiras.

O ar radiante de Bárbara Simões e Ana Alves ao chegar, bronzeadas e sorridentes, no fim-de-semana passado, ao aeroporto do Porto, dispensava perguntas. Regressavam a Portugal, vindas do Rio de Janeiro, com uma cor tropical e uma aura tão luminosa que era escusado perguntar como se sentiam. Se tinham gostado da viagem de 13 meses, por 25 países, com paragens em 106 locais, tudo graças à simpatia, hospitalidade e acolhimento de 135 pessoas, a maior parte das quais totais desconhecidas para elas. Não podíamos fazer essas perguntas banais – a resposta estava no rosto moreno das duas aventureiras, de 28 e 27 anos, que deixaram os empregos em Lisboa, há mais de um ano, para dar vazão ao formigueiro de mundo que as mandava ir. E foram, nas asas de um projeto desconcertantemente simples, chamado «Até onde nos levam os nossos amigos».

Bárbara é metade de Fafe, a outra de Vila Real. Ana é de Bragança. São amigas desde os tempos de estudantes na Universidade do Minho, em Braga, onde se formaram em Comunicação Social e fizeram juntas Erasmus em Paris. Estavam habituadas a viajar na companhia uma da outra. Em 2011, regressadas da Índia, um país que as marcou muito, as viagens nunca mais saíram do seu dia-a-dia. Começaram a escrever o blog sobre viagens «Onde Judas perdeu as botas» e o trabalho como publicitárias começou-lhes a parecer menos aliciante face à perspetiva de lançaram também as suas botas ao caminho. O sonho tornou-se um projeto quando duas coisas confluíram: tornou-se impossível conciliar a rotina casa-trabalho com a sede de mundo na alma; e surgiu a ideia de assentar a circum-navegação na hospitalidade humana.

Pensaram em todas as vezes em que conheceram pessoas nas viagens e em que foram ao encontro de amigos. E o conceito começou a fazer sentido. «Foi preciso recuar uns tantos passos para percebermos o que estava mesmo à nossa frente», diz Ana. «Porque não ir ter com os amigos? E os amigos dos amigos? E se os amigos dos amigos tiverem outros amigos por aí, porque não ir ter com eles também?» O ponto de partida foi um e-mail enviado a amigos, portugueses e estrangeiros, descrevendo a intenção de viajar pelo mundo e perguntando se conheciam pessoas nos lugares onde queriam ir.

«Com as respostas, fomos traçando a nossa viagem. Deixamos de lado destinos onde não havia amigos, mas outros, mesmo sem amigos, mantivemos porque queríamos muito ir.» Não se arrependeram de ter mantido o Camboja na rota, mesmo sem contactos prévios. Nesse país, além de se terem encontrado com amigos portugueses que lá foram ter com elas de férias, conheceram vários uruguaios e argentinos e, quando foram para a América Latina, ficaram nas casas deles.

A preparação da viagem demorou nove meses, entre calcular rotas e transportes, alojamentos, lugares para ver e tratar de vistos e vacinas. A viagem era para ser de dez meses, passou para um ano e terminou por se estender até 13 meses.

O diário de bordo foi sendo publicado na internet, com fotografias e descrições intensas dos lugares por onde passavam. No site do projecto (ateondenoslevamosnossosamigos.com), foi sendo possível seguir os passos de Ana e Bárbara com detalhe e satisfação literária porque o mundo pode ter perdido duas publicitárias, mas ganhou duas cronistas de viagens de mão cheia. As duas amigas não conseguem destacar qualquer dos 135 amigos, entre tanta gente, incluindo pessoas que se ofereceram para lhes dar guarida e servir de guia, e depois os familiares destes, com a avó brasileira Dona Neyde, em Diamantina, no Brasil, a rematar a epopeia de afetos. Conheceram casas e almoços de família, mergulharam na vida natural e espontânea das cidades, de mão dada com estranhos que deixaram de o ser. Foi uma viagem mágica, demasiado intensa para a conseguirem descrever, mas tudo o que engrandeceram por dentro estava lá, no rosto moreno e cansado, radiante e luminoso, com que trouxeram um bocado do mundo no avião que aterrou no Porto.

«O melhor de tudo foram as pessoas que fomos conhecendo, muito mais que as paisagens. Os países que nos ficaram mais no coração foram aqueles onde criámos uma relação especial com as pessoas. Foi viajar também pelas pessoas e não pela geografia.» Apanham as frases uma da outra e vão entrelaçando palavras. Foi assim que Bárbara e Ana responderam sempre à nossa entrevista.

Estiveram em 25 países, deixando de fora a Europa, a África e a Oceânia, e também o Médio Oriente, concentrando-se na Ásia, nos Estados Unidos e em particular na América Latina. Em alguns lugares, passaram uns dias, noutros entre três semanas e dois meses.

No feriado irlandês Saint Patrick”s Day, estavam em Pequim com um irlandês e emocionaram-se a ouvir argentinos cantar o fado. Sentiram um alegria sem par ao chegar a Machu Picchu depois de cinco dias a caminhar até lá. E muito, muito mais. «Foi o máximo poder conduzir pela antiga Route 66″, cruzar as retas do Death Valley, ficar sem ar no Grand Canyon e ainda acordar com a surpresa de uma amiga de um amigo para o Coachella [um popular festival de artes e música no vale de Coachella, na Califórnia]». Pelo caminho, foram deixando o que estava a mais – «uma data de tralha e roupa, porque levamos muita coisa e percebemos que bastava uma pequena mochila» – e guardando o essencial. Não fizeram compras, esse era um principio firme desde o início, e perceberam que as fotografias eram, na maior parte dos casos, memória suficiente.

As saudades que sentiram robusteceram-se em algo que não estavam à espera, uma espécie de nova identidade nascida da ciência dos lugares. «Começamos a dar mais valor ao lugar de onde viemos, ao lugar que nos construiu assim e nos fez adaptáveis. Há um orgulho enorme, quando estamos a viajar, de ser do país de onde somos, parece que descobrimos um amor muito grande por Portugal.» E quando lhes perguntamos, já que viajaram pela geografia das pessoas, onde encontraram mais calor humano, não hesitam em dizer que foi no México, no Brasil, na Índia, no Laos e nas Fipilinas.

Mas a lista de bons momentos parece interminável e as duas admitem estar a pensar num livro sobre a viagem. Há-de terminar como terminou a aventura, com as brasileiras Fernanda a Manuka – que tinham conhecido nas Filipinas, seis meses antes e com quem tinham passado duas semanas entre Parati e o Rio – a levá-las ao aeroporto do Rio de Janeiro, às seis da manhã, depois de uma noite de alegre despedida.

Dora Mota