OPINIÃO

Suecos vão à bola com os portugueses

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Há 40 anos, um grupo de portugueses criou uma equipa de futebol em Gotemburgo. O Portugisiska FF foi três vezes campeão das divisões amadoras, finalista de uma Taça regional e, ainda há dias, venceu um Portugal-Suécia a feijões. Em semana de play-off para o Mundial, esta é a história de um clube desconhecido, dos portugueses que o compõem e de como a nossa emigração está a mudar.

«Dá-lhe com raça.» Nuno Ramalho põe as as mãos em concha e atira para dentro de campo meia dúzia de pérolas destas: «Bonito», de cada vez que os companheiros acertam um passe ou «é o sistema, é sempre a mesma coisa», quando a bola lhes é roubada. Os outros riem, sabem que a chinfrineira é gozo. Daí a pouco, o rapaz há de entrar em campo e marcar um autogolo – comprovando a teoria de que pode não ser grande espingarda como defesa, mas é mestre do léxico futebolístico. «Cola no peito, encosta na relva.» São 11h20 do primeiro sábado de novembro, Portugal joga contra a Suécia no pavilhão desportivo da Volvo, em Gotemburgo, e a partida está tão renhida que os portugueses começaram a ganhar, depois estiveram a perder e agora o jogo está empatado.

Há 40 anos um grupo de portugueses emigrados na segunda maior cidade sueca fundou uma equipa de futebol de onze, o Portugisiska FF (clube de futebol dos portugueses, em tradução literal). Hoje só estão cinco homens em campo, e aqui aplicam-se as regras do futsal. Tiago, Nuno, António, Leonardo e Ricardo jogam todas as semanas no campeonato amador da cidade mas, como são poucos para formar uma equipa exclusivamente lusa, criaram uma turma de estrangeiros. «A ideia era fazer um plantel português e ainda havemos de conseguir», diz Tiago Franco, que é o líder incontestado da formação. Recuperar a glória do Portugisiska, um clube que ganhou três vezes a sexta divisão sueca e foi finalista vencido da Taça de Gotemburgo, onde jogam todos os clubes amadores da cidade. Por agora, os rapazes conseguiram um quarto lugar na sexta divisão, um campeonato que se joga de março a outubro. O jogo de hoje é de treino.

Na próxima sexta, dia 15, Portugal recebe no estádio da Luz uma equipa que é compacta e tem um marcador excecional: Ibrahimovic. A 19, terça seguinte, as contas resolvem-se em Copenhaga. E, entre os portugueses de Gotemburgo, há mais dúvidas do que certezas de que a seleção de Cristiano Ronaldo possa sair vencedora. «Os suecos não desistem, tentam até à última. Podem ter menos talento do que nós, mas são muito mais equipa», vaticinam uns. «Se os subestimarmos, perdemos», asseguram outros.

No pavilhão da Volvo os mais morenos também são mais baixos, usam a camisola das quinas. Os loiros vestem amarelo e azul, são altos que se fartam. Os primeiros fazem passes estudados, fintam, centram. Jogam bem, mas atrapalham-se na hora de chutar à baliza. Os segundos lançam a bola para a frente e tentam rematar rápido. Têm menos oportunidades, e são menos vistosos – mas mais eficientes ofensivamente. «Isto mostra bem o que podemos esperar para o play-off do Mundial», diz Tiago Franco. «A Suécia é forte e eficiente, não vai ser nada fácil ir ao Brasil em 2014.»

O jogo chegou a estar 3-0 para Portugal, um golo de Tiago Franco e mais dois de António Roldão, um ribatejano do Cartaxo. Depois veio o autogolo do Nuno, um tento de um sueco chamado Laurent e outro de Daniel Gustafsson. De repente, Andres marca o quatro a três e dá vantagem aos da casa. Os portugueses parecem ter quebrado, perdido a força anímica. Faltam oito minutos para o fim da partida e Ricardo Silva decide armar-se em Ronaldo. Finta um, finta dois e marca: quatro a quatro. Dois minutos depois, o rapaz repete a façanha e estabelece as contas finais: cinco a quatro, vitória da turma das quinas.

 

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AS VELHAS GLÓRIAS
Dos cerca de três mil portugueses que vivem na Suécia, metade vive em Gotemburgo. É uma cidade industrial, sede da volvo e do maior estaleiro naval da Escandinávia. As fábricas estão todas concentradas numa ilha, Hisingen, e é aí que vive a maioria da classe operária. Os portugueses chegaram há 50 anos e uma boa fatia da população vive na ilha, num bairro de má fama chamado Biskopsgarden. E também aí que fica a sede da União dos Portugueses de Gotemburgo (UPG), onde se pode ver os jogos do Benfica, jogar à sueca e comer bacalhau.

Desde que a UPG foi fundada, em 1972, as noites de sexta são as mais movimentadas. As portas da associação abrem às 18h e até às 20h há sempre gente a chegar. Há uma fila de mesas com quatro cadeiras cada, onde homens de meia idade, ou de idade avançada, batem ruidosamente as cartas. Joga-se sueca, sempre, e às vezes o desafio é tão renhido que dá discussão. De dentro do bar vão chovendo garrafas de cerveja nacional. Amália olha para tudo aquilo, pendurada na parede, em formato de poster.

«Venham cá ver isto», e José Pereira é todo disponibilidade. A UPG ocupa o primeiro andar de um edifício de madeira, tem uma sala que faz as vezes de bar e outra que é ginásio e salão de festas, onde há fotografias antigas na parede e uma vitrina cheia de troféus. O homem tem 59 anos, veio de Portalegre nos anos setenta, trabalha nos estaleiros navais como serralheiro. Ele fez parte da primeira formação do Portugisiska e há uma imagem na parede a comprová-lo.

«A nossa geração foi a primeira, ganhámos duas vezes a sexta divisão, que era disputada por 12 equipas», e Manuel Bastos, que tem a mesma idade e nasceu em Borba, já se juntou à conversa. Nesse tempo, juntavam trocos para comprar equipamentos e bolas. «Treinávamos duas vezes por semana, era um frio que não se podia. Mas tínhamos uma raça danada, os suecos tinham-nos muito respeitinho.» Manuel ainda jogou no mítico ano de 1990, o da glória maior do Portugisiska FF. Era treinador, também. «Ganhámos a nossa série e os vencedores de todas as divisões regionais iam depois disputar a Taça de Gotemburgo.» Vitórias em todos os jogos garantiram-lhes apuramento para a final.

Diamantino da Lage era médio-centro, lembra-se bem da partida. «O Bjurslatt era um clube difícil, jogava na segunda divisão sueca. Por isso, o árbitro deu-nos quatro penalties de vantagem, no início do jogo.» A estrela dos nórdicos era Magnus Wislander, considerado pela Federação Internacional de Andebol o melhor jogador do século, mas que também dava uma perninha em futebol de onze. Manuel Sequeira dava cartas pelos latinos, foi um dos que foram chamados a marcar – e até converteu a grande penalidade em golo, mas dois dos seus companheiros não tiveram a mesma sorte. «Levámos seis na pá que nos tramámos. Ficou seis a dois, no final.» Diamantino acabaria expulso, por protestos contra o árbitro. Mas o que ele aponta como fator determinante para a derrota foi a vaidade: «Como o jogo era importante toda a gente decidiu comprar chuteiras novas. E depois pronto, estávamos sempre a escorregar e a cair.»

Na outra sala da UPG está agora um alvoroço danado. Há mesas a ser arrastadas, cadeiras de um lado para o outro, toda a gente de pé. «Está pronto o petisco», grita-se de dentro do bar, e é feijão com carne, nem chili nem feijoada. Aqui não se janta, petisca-se. E tudo à mesma mesa, nem que isso obrigue a criar um corredor oblíquo com as mesas, que impeça a passagem a quem quer entrar no salão de festas. O Benfica joga com a Académica, há garrafas de vinho alentejano na mesa e Henrique Zacarias, outro dos pioneiros do Portugisiska, larga um brinde: «Que Portugal ganhe à Suécia na próxima semana.» E toda a gente levanta os copos, inclusive um sueco que ali veio parar nessa noite, mas que não deve perceber patavina de português.

SÓ EU SEI PORQUE FICO EM CASA
A segunda mão do play-off de apuramento para o Mundial, já se viu, será em Estocolmo, a 19 de novembro. E toda a gente que está hoje na UPG gostava de ir assistir à partida. Mas são poucos os que vão. Existem três associações de portugueses na Suécia, uma em Gotemburgo, outra na capital e uma terceira em Malmo, no sul do país. E as três, em conjunto, pediram 400 bilhetes à Federação Portuguesa de Futebol, para vender aos emigrantes. E Tiago Franco, que além de liderar os jogos da equipa de futebol portuguesa também assumiu há um ano a presidência da União de Gotemburgo, diz isto: «Estávamos a preparar excursões com vários autocarros a saírem de diversos pontos do país. Cancelámos tudo.»

Os emigrantes acusam a federação de excesso de burocracia. «Recebemos um email a dizer que teríamos de comprar os bilhetes individualmente, cada pessoa teria direito a um número máximo de quatro. Ora, assim, a ideia de reunir a comunidade portuguesa em torno do jogo cai completamente por terra.» O Diário de Notícias questionou há dias a FPF sobre o assunto, e a resposta foi esta: «Solicitámos que o pedido fosse formalizado, indicando o nome de alguns cidadãos portugueses que pretendessem estar presentes no jogo.» E acrescentam que não receberam qualquer resposta. Mas Tiago defende-se: «O problema é que metade dos adeptos não têm cidadania portuguesa porque já nasceram na Suécia, fazem parte da segunda ou até terceira geração de emigrantes. Mas são apoiantes fervorosos da Seleção.»

Os regulamentos da FIFA não permitem a venda de 500 bilhetes a uma única entidade, por razões de segurança. Podem abrir-se exceções, mas é preciso comprovar que os bilhetes são vendidos a cidadãos portugueses. «E, como isso é impossível de provar, Portugal não vai ter o apoio que devia ter em Estocolmo», continua Tiago. «Custa-me a acreditar que, com a atual conjuntura económica do país, se consigam encher todos os lugares destinados aos fãs da Seleção.» O Friends Stadium, onde se irá realizar partida, tem um total de 50 mil cadeiras. Cinco mil estão reservadas para os apoiantes das quinas.

Diamantino da Lage é dos poucos que diz que vai, e está quase a convencer Tiago a ir com ele. «Compramos os bilhetes online, pegamos no carro e fazemo-nos à estrada, pá.» São quinhentos quilómetros para cada lado e, com o outono escandinavo a anunciar chuva, é mais do que previsível que tenham de passar a noite em Estocolmo e faltar um dia ao trabalho. Será por fé na vitória? «Nem por isso», responde Diamantino, «até acho que temos grandes possibilidades de perder.»

Na mesa oblíqua onde o petisco vai sendo devorado toda a gente recorda o Alemanha-Suécia do apuramento, em que os nórdicos estiveram a perder por quatro a zero e conseguiram empatar o resultado. «Se tivessem mais dez minutos de jogo ganhavam», sentencia Henrique Zacarias, convocando a anuência da multidão, uns trinta portugueses e o tal sueco. «A defesa deles não é tão boa como a nossa, mas o meio campo e o ataque são excelentes. E depois têm um joker, o Zlatan Ibrahimovic, como nós temos o Ronaldo.»

A história dos confrontos com a Suécia não é favorável a Portugal. Em quinze encontros, os nórdicos somam seis vitórias contra apenas três derrotas. Os restantes seis jogos são empates. Ainda assim, os portugueses não perdem com a seleção escandinava desde 1984. As duas equipas encontraram-se no apuramento para o Mundial de 2010, e ambos os jogos resultaram em nulo. «Portugal é favorito», diz Marek Persson, o capitão da equipa de amadores suecos que enfrentou o Portugisiska no pavilhão da Volvo, no primeiro sábado de novembro. «Mas nós superamo-nos com as seleções grandes. Tenham cuidado connosco.»

 

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PORTUGAL PARA SEMPRE, PORTUGAL NUNCA MAIS
Os feijões há muito que foram devorados, mas ainda há conversa e vinho na mesa da UPG, e o futebol é passaporte para tudo e mais alguma coisa. Na história do Portugisiska FF cabe a história da emigração portuguesa para a Escandinávia e, se assim é, Martinho Escudeiro é a história do início. O homem chegou em 1966, com contrato para trabalhar numa pedreira. «Sou de Alcains, na Beira Baixa, que também é uma região de pedra. Tenho 74 anos, a minha geração foi a primeira a chegar à Suécia.»

Eram 23, todos contratados e instalados junto à fronteira com a Noruega. O espanto maior não era por o dia nascer às quatro da manhã, antes por haver máquinas de ar comprimido que partiam a pedra, e ela a contar que ia para Norte usar a picareta. «Os suecos valorizam o trabalho e valorizam o trabalhador, dá gosto trabalhar aqui.» Trouxe três filhos de Portugal, o quarto nasceu em solo de vikings. «Enviávamos remessas para Portugal, o país nesses anos, com a guerra colonial a decorrer, só se aguentou por causa dos emigrantes.» Cada verão era viagem à terra. Quando veio o 25 de abril e viu o país começar a modernizar-se pensou voltar a casa, como muitos fizeram. Agora agradece aos santinhos não o ter feito.

José Pereira veio nos anos setenta, já se falou dele. A segunda vaga da emigração portuguesa chegou nessa década e na seguinte para dar corpo à produção industrial, os estaleiros navais e os automóveis. «Há gente que está aqui há uma vida inteira e não sabe a língua, é malta que se dá com portugueses e pouco mais.» A comida igual à da terra, os hábitos também. A maioria ouve fado, acompanha o Benfica e vai à missa. «Depois, quando se reformam, voltam para as terras. Estiveram aqui para ganhar dinheiro e pouco mais.»

Nos últimos dois anos, asseguram todos, começou a chegar uma nova vaga de emigração. E esses são os rapazes que agora jogam no Portugisiska. Tiago Franco tem 32 anos, é engenheiro eletrotécnico. Ricardo Silva tem 30, é engenheiro físico. António Roldão tem 34, é investigador na área da biotecnologia. Leonardo Rosado tem 38, fez um doutoramento do MIT (Massachusets Institute of Technology) e veio com a mulher e dois filhos fazer investigação para uma universidade de Gotemburgo. Nuno Ramalho é dez anos mais novo, é gestor. E ninguém pensa voltar para Portugal.

«O talento científico do país está a fugir, mas não foge porque sai da zona de conforto, como diz o primeiro-ministro», fala Tiago. «Na maior parte das vezes é por não ter outra alternativa.» Ele é o veterano desta nova geração, chegou em 2006. Não lhe passava pela cabeça frequentar clubes de emigrantes mas, há medida que soma anos fora, as saudades de casa batem – e foi por isso que assumiu a presidência da UPG. Ricardo tem uma filha pequena em Portugal, o que ele quer é trazê-las para Gotemburgo. «Que futuro tem o nosso país, quando sabemos que não se avaliam as pessoas por mérito nem se progride na carreira?» Leonardo acredita que o país estava num bom caminho, as políticas energéticas e a aposta na ciência iriam dar retorno a longo prazo, criar riqueza sólida. «Portugal bem pode cortar as gorduras que quiser, baixar os ordenados e aumentar os impostos. Mas, se não criar programas economicamente viáveis, se não se inovar tecnologicamente, daqui a 20 anos vai precisar de mais cortes e mais impostos, porque não resolveu nada.»

Há um desconsolo generalizado em relação à pátria, uma desesperança, talvez. Nuno e António alinham pela mesma batuta, têm saudades de casa, mas não querem trabalhar ali. «Porque em Portugal o teu chefe ganha dez vezes mais do que tu e faz-te sentir um sortudo por te dar trabalho», diz o primeiro. «O sistema está dominado pela mediocridade, pelos títulos. Aqui, um diretor não ganha muito mais do que a senhora da limpeza, todos ganham razoavelmente bem. Porque toda a gente é importante para a estrutura.»

Juntam-se para ver os jogos da bola e para correr atrás dela, mas estão seguramente mais dispersos do que as gerações de emigrantes anteriores. Tiago bem queria recuperar a glória do Portugisiska FF, mas ainda só encontrou cinco jogadores. «Esta geração mistura-se mais com os suecos, já não vai mandar remessas de dinheiro para Portugal nem voltar a Portugal sempre que pode.» Porque, explica ele, o país tratou mal os seus, fê-los sentir culpados de viverem acima das possibilidades, quando as possibilidades eram tão poucas. «As férias vão ser passadas em destinos exóticos, não nas aldeias de origem. É o que eu já faço, neste momento.» E nem no Natal planeia regresso a casa? «Nem passar, não vou a Portugal no Inverno para passar frio.» Caramba, o homem vive na Escandinávia. «Mas aqui as casas são aquecidas, os espaços têm todos condições para a população estar confortável. Em Portugal é que se passa frio a valer.»

Ricardo J. Rodrigues, em Gotemburgo
Fotografia: Jorge Simão