OPINIÃO

O que é o bullying?

A investigadora norte-americana Dorothy Espelage responde e dá a receita para o combater.
Steven Governo/Global Imagens

Ainda não há palavra que o designe em português, mas o fenómeno já chegou às escolas nacionais. O bullying é uma agressão repetida a uma mesma vítima. As consequências podem ser trágicas. Mas há formas de o combater. E elas passam por criar um ambiente mais positivo, tolerante e disciplinado.

O que é exatamente o bullying?
Durante anos, os investigadores debateram o que torna este fenómeno diferente de outras formas de agressão. Atualmente, a definição de bullying tem a ver com a frequência, o diferencial de poder entre agressor e vítima e as consequências para esta. Não se trata de um conflito ou agressão pontual. O agressor ataca repetidamente a vítima, que na maioria das vezes não consegue defender-se. Por outro lado, a agressão continuada leva frequentemente a vítima a isolar-se, alterar o comportamento, recusar ir à escola ou a almoçar no refeitório ou participar nas atividades desportivas ou em quaisquer situações que associe aos ataques. Portanto, o bullying tem um impacte tremendo na vida das crianças afetadas.

O bullying pode ser físico ou psicológico. A violência psicológica pode magoar mais do que a física?
Sim. Há duas décadas que estudo o fenómeno do bullying e mesmo quando o ataque é físico, há uma violência psicológica subjacente, que tem precisamente a ver com o seu caráter continuado e com aquilo que o desencadeia. Quando se fala com crianças do mundo inteiro, percebe-se a extrema violência que significa ser alvo constante de assédio, seja porque se tem excesso de peso ou uma deficiência ou uma inconformidade de género, características que a criança não controla e não pode alterar. E isso é terrível.

Associamos o bullying à escola. É este o único contexto em que o fenómeno ocorre?
A escola é o principal cenário, mas também pode acontecer em casa, nas atividades desportivas, nas atividades de tempos livres, em organizações de jovens, como os escuteiros, em organizações de caráter religioso, e até, à medida que vamos crescendo, na universidade ou mesmo no local de trabalho. Não há razão para pensar que o bullying acaba quando a escola acaba. A minha pesquisa indica mesmo que pode começar antes, no infantário, com miúdos de três, quatro anos, e continuar vida fora.

Há um perfil típico das vítimas de bullying?
Há diferentes tipos de vítimas: as passivas, que permitem de certa forma o abuso, não o fazem parar e resignam-se; e as agressivas, que respondem à vitimização tornando-se elas próprias agressoras. São estas as que suscitam maior preocupação, porque há um maior risco de desenvolverem problemas de saúde mental, que podem levar ao suicídio ou a ataques com armas com um desfecho trágico, de que são exemplo alguns dos massacres escolares ocorridos nos EUA.

Mas há características que tornam algumas crianças mais vulneráveis ao bullying?
Detestamos pensar que há miúdos que são alvos preferenciais só pela sua aparência, mas a verdade é que há uma série de atributos físicos que levam a um maior risco. Em todo o mundo, incluindo Portugal, é muito claro que crianças com deficiência, com excesso de peso, com um défice de competências sociais, que têm dificuldade de se relacionar e integrar ou que são diferentes da maioria estão em maior risco de se tornarem vítimas. Em algumas escolas, crianças imigrantes, refugiadas ou pertencentes a minorias étnicas também podem ser um alvo preferencial, assim como as que revelam inconformidade de género ou são homossexuais, no caso dos adolescentes. Nos EUA, por exemplo, os jovens homossexuais são um alvo preferecial. Mas tudo depende das escolas.

É preciso então transformar as escolas para acabar com este fenómeno?
O que defendo é que temos que entender as especificidades e os dados relativos a cada escola, para perceber quem são os potenciais alvos. Como referi, é muito claro na pesquisa que há determinados atributos que podem fazer de uma criança um alvo preferencial de vitimização. Grande parte desses atributos não são coisas que se possam mudar ou controlar – como a deficiência, a origem étnica, o nível socioeconómico ou até o excesso de peso –, portanto o trabalho tem que ser feito ao nível do ambiente da escola e da comunidade, de forma a torná-lo mais tolerante e a prevenir os ataques sistemáticos a estas crianças.

E como é que se faz isso?
A direção da escola é uma peça chave. É fundamental ter uma liderança forte que perceba qual é o seu papel na criação de um ambiente positivo e faça disso uma das suas prioridades, porque a investigação demonstra claramente que em escolas onde o ambiente é mais positivo, a violência é menor. Como é que se faz? Criando condições para que os professores se sintam apoiados, estejam motivados e tenham uma boa relação entre si, com os alunos e com os pais; definindo claramente as regras e garantindo que estas são respeitadas; pondo em prática aquilo que chamamos de «social emotional learning» ou seja a aprendizagem de gestão de conflitos entre os alunos. Parece muito trabalho, mas não é. É basicamente o que fazem ou deviam fazer as famílias em casa. Eu vejo uma escola saudável como uma família saudável, uma escola disfuncional como uma família disfuncional. Mas a abordagem não passa só por aí. Como referi há pouco, uma das nossas maiores preocupações é com aquelas crianças e adolescentes que sendo cronicamente vitimizados, possam ter a sua saúde mental ameaçada e tornar-se eles próprios agressores. Tem que haver a capacidade de diagnosticar estes casos, de forma a acompanhá-los, tratá-los e quebrar o ciclo de violência.

O facto de, como está a acontecer em Portugal, os orçamentos para a Educação diminuirem, reduzindo-se os recursos e o número de funcionários a vigiar os recreios, enquanto é aumentado o número de alunos por turma, por exemplo, não torna mais difícil a criação de um ambiente mais positivo?
Claro. Ninguém está imune aos cortes na educação. Infelizmente, é sempre a primeira área a ser cortada. Os legisladores cortam o orçamento sem perceberem que estão a criar escolas onde os miúdos não se sentem ligados, os professores não se sentem reconhecidos e os directores estão sob pressão. Junta isto tudo e cria uma mistura explosiva. Os miúdos estão fechados nas redes sociais, não falam entre si e se não falam não conseguem resolver conflitos, daí que estes subam de tom e fiquem fora de controlo, gerando mais vítimas e mais agressores: se o que é cool é ser mau e cruel, vamos ser maus e cruéis. As vítimas podem retaliar e a violência escolar explode. Não nos vão dar o dinheiro de volta, por isso há que usar a criatividade e pensar em formas de criar um ambiente escolar positivo, o que passa pela comunicação e por estimular o diálogo. Para isso, não são precisos milhões.

Falou nas redes sociais. Recentemente, foi noticiado mais um caso nos EUA de um suicídio provocado pelo ciberbullying. Este pode ter consequências ainda mais graves do que o bullying «tradicional»?
Nós, investigadores, tendemos a distinguir o bullying presencial do ciberbullying, mas para os miúdos hoje não há essa diferença, eles não distinguem a vida dentro e fora das redes sociais. E, de facto, o que temos descoberto é que há uma relação causal entre estes dois «mundos». Se os miúdos são maus e cruéis na escola uns para os outros, quando vão para o computador à noite serão maus e cruéis, se são vitimizados na escola vão retaliar à noite, online. E a escalada de violência pode aumentar. Mais uma vez trata-se de educar para. Oitenta por cento da vitimização nas redes sociais acontece em casa. Se os pais e as escolas não comunicarem e não promoverem a mesma cidadania digital vamos continuar a ter miúdos cronicamente vitimizados. Temos que ensinar às crianças não só as regras de segurança na escola, na rua, no parque, mas também nas redes sociais. Os pais muitas vezes não supervisionam tanto os miúdos nas redes sociais como o fazem fora delas, mas têm que tomar consciência de que é onde eles vivem agora. Quanto ao caso de que fala, é importante esclarecer que embora possam ocorrer situação extremas com consequências dramáticas, não existe uma relação de causa efeito entre o bullying e o suicídio. Este é normalmente explicado por problemas de saúde mental. E esta é uma questão a que as escolas e as famílias devem estar atentas, no sentido de diagnosticar e tratar, para evitar as tais consequências extremas.

A prevenção e solução deste problema passa tanto pela escola como pela família?
Sim. Não é só um papel da escola, é de todos nós, da família e da comunidade. Enquanto não formos uma sociedade mais afável, justa e integradora, existirão casos de violência. Como é que criamos gerações de crianças gentis, bem educadas e com capacidade de gerir os conflitos com que inevitavelmente se depararão ao longo da vida? É lógico pensar na escola, porque é lá que passam a maior parte do seu tempo. E esta deve incutir-lhes desde muito cedo regras de comportamento e competências sociais. Mas nada disto pode ser feito sem as famílias, a quem também cabe educar, estabelecer regras, transmitir valores, socializar. Se o ambiente em casa for violento, nada feito, a violência é levada para a escola.

 

QUEM É DOROTHY ESPELAGE?
Professora do Departamento de Psicologia Educacional da Universidade de Illinois, dedicou os últimos vinte anos à investigação do bullying nos EUA e em todo o mundo. Com vários livros publicados sobre a matéria, é presença frequente em conferências internacionais dedicadas ao tema. Em outubro esteve em Portugal, a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, como oradora na conferência «Indisciplina nas Escolas», que integra o Ciclo «Questões-Chave da Educação».

CONFERÊNCIA «QUESTÕES-CHAVE DA EDUCAÇÃO»
A próxima Conferência do Ciclo «Questões-Chave da Educação», promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, será dedicada ao tema «Ensino Profissional», e terá lugar em Lisboa e Faro, nos dias 12 e 13 de Novembro, às 17h30 e 14h30, respetivamente. Informações em www.ffms.pt.

Catarina Pires
Fotografia: Steven Governo/Global Imagens