OPINIÃO

O hambúrguer, signo e significado

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Parece que nem tudo está perdido. Vislumbra-se o imperativo de consciência de cada um se ocupar de saber o que come. Picadinhos, carnes, gorduras e entremeadas conseguem produzir sabores de que gostamos em criações diversas, incluindo as caseiras. O momento é de saber mais.

Sou a favor do progresso e o corolário natural deste postulado é que sou contra o preconceito. O hambúrguer, que em alemão quer dizer «de Hamburgo», resolveu na história da alimentação humana a dificílima equação de «uma refeição por um dólar». Dos Estados Unidos, a nação que o mundo adora odiar pelos seus costumes supostamente bárbaros, surgia, com o hambúrguer, a corrente imparável da dita fast food: serviço rápido, dispensa de talheres e facilidade de conservação foram alguns dos aspectos que desde cedo atraíram a comunidade internacional, abrindo o caminho de grandes cadeias de restaurantes de comida rápida. Depois subiu a indústria de bebidas gasocarbónicas, com a Coca-Cola e a Pepsi a terem de pagar a fatura da obesidade infantil, do colesterol e de acidentes vasculares. Agora, sabemos da tragédia calórica e das perturbações do metabolismo provocadas pelo pão, pelas batatas fritas, maioneses, mostardas, ketchups e muitos outros «venenos» que a humanidade passou a consumir sem procurar qualidade. As colas não são, afinal, o único monstro da história. De repente, já não é a fome que se combate, em vez disso passou-se à necessidade absoluta de fartura, de muito. Em toda a parte.

A McDonald’s, transformada numa espécie de demónio pela opinião pública e pela comunidade que supostamente se interessa pelo que dá de comer aos seus filhos, tem sistemas de controlo de qualidade alimentar que ultrapassam o exigido e o exigível. Criou em torno do seu nome uma exigência sobre os fornecedores a que poucos conseguem corresponder. Recordo aqui, a propósito, uma viagem que fiz ao Reino Unido, em Worcestershire, para falar com criadores de bovinos para fornecerem a McDonald’s e constatar in loco como as coisas estão sérias no plano das exigências. Tenho a certeza de que corremos mais riscos quando comemos hambúrgueres congelados de hipermercado, ou mesmo quando os fazemos em casa a partir de preparados de carne picada que se vendem nos talhos. Oxidada, cheia de micro-organismos próprios da decomposição, quando não mesmo imprópria para consumo, essa carne só não levanta suspeitas ao consumidor porque é «fresca». Não podia haver maior engano. E como tudo o que aqui digo, e poderia dizer, está disponível na internet, pergunto-me porque não se informam todos melhor sobre o que comem e dão a comer. Na base de tudo o que é industrial está a busca de rendibilidade e de quantidade a custo contido. É o progresso. No que respeita à comida não é muito diferente. A julgar pela profusão de cozinheiros, empresários e criadores que hoje se ocupam a fazer do hambúrguer um produto nobre, o bife de molde circular, nasceu para mitigar a míngua, está a servir de passe para aliviar a crise. Saboroso, saudável e criativo, como convém. É altura, portanto, de afastar o preconceito e procurar saber mais sobre tudo o que comemos. Até hoje, a única coisa que o hambúrguer não conseguiu.

Fernando Melo
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens