OPINIÃO

«Um dia regressarei ao FC Porto»

Grande Entrevista Vítor Baía
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Abandonou a influência benfiquista do pai e quase foi expulso de casa por ter trocado a escola pela bola. Numa carreira que começou aos 18 anos, tornou-se o melhor guarda-redes europeu, o menos batido, o recordista da transferência mais cara na sua posição, o segundo atleta com mais troféus. Mas a vida não é só futebol. Vítor Baía é hoje um empresário, que sofre com a crise e foi burlado em cerca de dez milhões de euros – processo de que não fala por estar em investigação – e que aposta agora noutras áreas como os… diamantes. Mas o «bichinho» está lá e a paixão azul e branca também. Ainda que diga que Pinto da Costa está «como o aço», não descarta um dia sentar-se na cadeira presidencial no dragão. As confissões do atleta marcado pela polémica ausência no Euro 2004. Antes do derradeiro jogo do playoff com a Suécia, não duvida: «Somos favoritos.»

Acaba de fazer 44 anos e 25 de carreira. Já consegue fazer um balanço da sua vida?
Foi uma vida bem preenchida, a todos os níveis.

Que momentos elege como marcantes?
O primeiro dia em que cheguei ao Estádio das Antas. Fui prestar provas com 13 anos. Vi aqueles muros enormes das bancadas e assustei-me. Foi o meu primeiro treino, no campo de treino, mas estive a olhar para o estádio principal quase o tempo todo. Era realmente imponente, para um miúdo de 13 anos que raramente saía da zona onde vivia, Leça da Palmeira. Depois, ir atingindo objetivos: querer jogar pela primeira equipa do Futebol Clube do Porto, com 18 anos. À medida que os objetivos iam sendo atingidos, ia projetando outros na minha mente, como querer ser o guarda-redes da seleção nacional, ser campeão. Com 16 anos, quando vi o FC Porto ser campeão da Europa, sonhei ganhar uma competição internacional pelo FC Porto. Consegui-o com a Taça UEFA. Daí falar sempre dessa conquista.

Porque foi a primeira de muitas?
Exatamente. Foi o cumprir de um sonho. Não sabíamos ainda que a cereja no topo do bolo viria a seguir (a Liga dos Campeões, no ano seguinte). Já estava no meu pensamento desde jovem – viver uma experiência semelhante à da equipa de 1987. A minha vida foi, acima de tudo, isso: definir objetivos e cumpri-los. Querer ser o melhor guarda-redes português, o melhor da Europa, o melhor do mundo.

E foi?
Da Europa, fui. No único campeonato do mundo em que estive presente as coisas não nos correram bem, não houve entrega do prémio. Quando fui para o Barcelona, fui considerado como tal.

Sempre quis ser jogador de futebol?
Como a minha irmã tirou o curso de economia, houve uma altura em que também queria essa área. Mas, fazendo uma análise fria, tenho a certeza de que nasci para ser guarda-redes. Tinha qualidades intrínsecas, tinha um talento inato…

Jogou sempre a guarda-redes?
Desde miúdo. Quer dizer… Por questões físicas, tinha grande facilidade de jogar em qualquer posição. Também jogava à frente e jogava bem. [risos].

Não era o típico miúdo gordinho que vai à baliza porque não tem jeito para jogar?
Não! Era baixinho mas era muito ágil. Da primeira vez que fui prestar provas a primeira pergunta que me faz o sr. Costa Soares (foi ele quem me escolheu) – não havia ainda os testes de medição óssea – foi se o meu pai era alto. E eu «é». «Mas é alto para quanto?» «Para mais de 1,80 m.» «Então ficas.» [risos].

Onde começou a jogar à bola?
Numa equipa popular, da qual hoje sou o presidente, a Associação Académica de Leça, que está direcionada para o futsal e para a formação de jovens. Fazíamos torneios populares. Jogava com o Domingos. Quando nos foram ver a jogar um torneio no Estádio do Mar, a minha equipa era muito forte, acabei por não fazer quase nada no jogo. Só quando fomos a penáltis é que evidenciei qualidades. No fim, o olheiro do FC Porto pediu para o Domingos e o guarda-redes da outra equipa irem fazer provas. Mas o meu treinador, sem que ninguém soubesse, levou-me a mim. Esta troca foi… Foi o início.

Nessa altura, quem era o seu ídolo?
A nível internacional, adorava, pela sua excentricidade, o Jean Maria Pfaff. Em termos nacionais, as referências eram o Fonseca no FC Porto, o Bento no Benfica e o Vítor Damas no Sporting. Depois, quanto surge o Mlynarczyk, muda tudo. Ele tinha uma escola e uma forma de estar na baliza que se aproximava mais à minha forma de ser e de estar, mais tranquilo, com grande frieza. Vi nele alguém a quem ir buscar conhecimento. O Bento era muito ágil, rápido, explosivo, e eu também tinha essas qualidades, mas não estava sempre em movimento como o Bento e sobretudo o Damas. E o Józef, pela sua forma de ser, até morfológica, tinha algo que… me podia ser útil.

Quando lhe pediu as luvas com que acabou por se estrear na I Divisão?
Foi numa fase final de juniores. Pedi-lhe umas e ele ofereceu-me o modelo dele. Só que ele tinha uma mão enorme, as luvas dele eram o número 11 e o meu número, na altura, tinha eu 17 ou 18 anos, devia ser o 10, ou 9,5. Tive que arranjar uma forma de agarrar as luvas para elas não saírem. Pus uns pulsos que me permitiam apertar melhor.

Lembra-se de o Quinito o lançar na I Divisão frente ao Guimarães?
Lembro! Primeiro, pela situação incómoda, a lesão que deixou toda a gente em sobressalto, pela gravidade, numa pessoa importante para o FC Porto, o Jósef Mlynarczyk. Eu já tinha sido convocado por causa do castigo ao Zé Beto. Não conseguiram falar com o Zé Beto e acabei por ir porque não havia mais ninguém. E o Correia, que era um jovem que estava nos juniores, foi para meu suplente. Na palestra, o Quinito disse-me : «Miúdo, quero-te dizer que confio em ti mas que não te preocupes, porque tu, para seres um grande guarda-redes, vais ter que dar muitos frangos. Eu assumo essa responsabilidade. Vai lá dentro, não tenhas medo de dar frangos e desfruta.» E foi o que fiz. Empatámos 1-1, mas acabei por me safar bem.

Sem «frangos»?
A receção em Guimarães foi logo boa, deu para adaptar… E estava o estádio cheio, como é normal lá. No início estava um pouco mais nervoso, mas quando toquei pela primeira vez na bola os meus colegas ficaram admirados, como é que um miúdo com 18 anos tinha aquele à-vontade a sair aos cruzamentos, à zona de penálti.

Ainda guarda essas luvas?
Infelizmente não. Tive aquele jogo, depois estive alguns jogos sem jogar, mas acabei por fazer nessa época toda a segunda volta, mais 15 jogos. As luvas desapareceram, foram gastas. A camisola sim, fiquei com uma para mim e outra para o presidente, Pinto da Costa.

Quando é que lha deu?
No primeiro contrato de sénior fiz-lhe essa surpresa. E ele perguntou-me quanto é que eu queria ganhar e eu disse que o que ele me quisesse oferecer, para mim estava bom.

Como é que era, financeiramente, a vida da sua família, nessa altura?
O meu pai era guarda-fiscal, a minha mãe doméstica. Nunca nos faltou nada, mas não havia grandes luxos ou brinquedos que gostaríamos. Tive uma infância normal.

É verdade que se emocionou na inauguração do Museu do FC Porto?
Sim, é verdade, não vou esconder. Nós trabalhamos pelas nossas conquistas, mas também a pensar no reconhecimento. Não o nego. Nunca me cansava de dizer que queria perpetuar o meu nome no tempo. A única forma de perpetuar o nome, nesta área, é ganhando troféus importantes. Acabei por ser um privilegiado porque sou o guarda-redes, no mundo, com mais troféus.

Já lá vamos. Teve um problema grave de saúde e foi também por causa dessa lesão que acabou por se estrear tão cedo na I Liga…
Sim, a ironia do destino. Naquela fase final de juniores em que pedi as luvas ao Mlynarczyk. No primeiro jogo, com o Benfica, acordo pela manhã para ir para o estágio e notei que tinha o braço inchado. No caminho, vi a apreensão do Dr. Fernando Póvoas e os diretores preocupados a tentar convencê-lo para eu poder jogar. Mas era impossível. Contraí uma tromboflebite com 18 anos e ninguém sabe porquê. Até hoje está por explicar como é que foi possível .

O que é que pensou naquela altura?
Pensei tudo. Estive hospitalizado um mês, e dois meses a recuperar, a fazer exames regularmente em Paris. Comecei a treinar em setembro e passadas duas semanas fui chamado à primeira equipa. Se não fosse a lesão tinha ido para Famalicão, emprestado, como foi o Fernando Couto. Foi um mal que veio por bem. Ironia do destino…

É daí que vem a relação com o médico Fernando Póvoas?
Sim, somos amigos desde aquela altura. Vim de Lisboa para casa dele, porque tinha de me aplicar um medicamento por via venosa, tinha de me acordar de x em x tempo.

O seu pai reagiu muito mal quando deixou os estudos para jogar?
Foi terrível. Há dois motivos por que voltei a estudar depois de deixar de jogar – tirei o curso superior em gestão de desporto. Primeiro para procurar ferramentas e competências que não tinha. E segundo para dar ao meu pai essa alegria. Na altura foi terrível para ele eu deixar de estudar. O grande sonho era ver os filhos formados. Quando recebi o diploma fui dizer-lhe que o tinha feito por ele. E foi um momento emotivo.

Portanto, ele queria um gestor e não um futebolista…
Para ele era inconcebível eu não estudar.

E quando lhe disse que ia deixar os estudos?
Foi complicado. Tive a sorte da aliança feminina em casa, senão… Só assumi que ia deixar de estudar quando já tinha a certeza de que o futebol era a minha vocação, por volta dos 17, 18 anos. A minha irmã, depois de uma reação muito intempestiva do meu pai, ao ponto de dizer que queria que eu saísse de casa, disse-lhe que se eu saísse ela também ia. Que não compreendia aquela atitude porque ela tinha a certeza que o irmão tinha um dom e tinha de o aproveitar. A minha mãe também me apoiou. E ele tomou consciência e acabou por pedir desculpa. Depois, seguia-me à distância. Só queria saber como tinha corrido o jogo. Não ia ver porque foi ver uma vez, viu-me a ser insultado e disse «vou ter de me chatear».

Era bom aluno?
Apesar de muitas ausências devido a acompanhar as seleções ainda jovens, era um aluno de quatros e de cincos.

E acabou agora o curso com que média?
16.

O seu pai era do Benfica, chegou a ser benfiquista?
O meu pai era do Benfica mas depois de eu chegar ao FC Porto tornou-se o portista mais ferrenho. Eu estava numa casa onde todos eram do Benfica e, até aos 8 anos, 9 anos, também. Depois mudei completamente. E então quando bebo daquela água… [risos] O treinador da equipa de futsal levou-me a ver jogos a partir dessa idade e quando entrei a primeira vez no Estádio das Antas, qual Benfica, qual quê! Nessa altura ainda não jogava no FC Porto.

E agora, depois da carreira, o que quer ser?
Pela minha formação atual, decidi seguir a direção desportiva.

Sempre se viu mais como gestor do que como treinador?
Sim. Não quer dizer que não me sinta com a competência para ser treinador, mas acho que nem todos podem ser treinadores. Quero ser fiel ao que foi o meu pensamento desde que deixei de jogar. Não condeno os meus colegas, os que são treinadores. Mas eu estou plenamente convencido que poderei ser mais útil nesta área da gestão.

Como é que viu o seu companheiro de carreira, o Domingos, começar a carreira de treinador?
Ele tem jeito. No início tinha alguns pontos em que poderia ser menos bom mas soube ir atrás das pessoas e das ferramentas que lhe proporcionassem evoluir. Foi muito inteligente, foi ter com pessoas que lhe transmitiram ideias e conceitos de liderança e de comunicação. Nós sentimos, quando estamos a falar com alguém, se essa pessoa tem perfil ou não de treinador. O Domingos é alguém com muita capacidade para estar em qualquer equipa no mundo.

As amizades no futebol perduram para a vida?
Tenho alguns bons amigos, mas a verdade é que é muito difícil ter amizades no futebol. Enquanto jogadores, damo-nos muito bem. Quando nos encontramos, respeitamo-nos. Mas quando deixamos de jogar isso acaba e cada um vai para seu lado.

Sentiu isso quando abandonou o futebol?
Senti. Enquanto joguei, concentrei-me naquilo que queria: quis ser o melhor e fui o melhor, quis ganhar tudo e ganhei tudo. Depois entrei na vida normal, como qualquer outro cidadão.

E, nessa altura, o mundo do futebol virou-lhe as costas?
Eu não diria isso. Fiquei com a família e alguns bons amigos. Acho que é normal que quando se sai de um universo tão próprio e forte como é o do futebol que a vida se altere bastante.

E depois?
Segui com a minha vida, e procuro manter a relação que tenho com as pessoas próximas e que são as que estão sempre presentes.

Como quando recentemente teve um grave problema financeiro?
Se me permite não vou responder a isso. É uma questão de foro pessoal, a qual está neste momento a ser investigada pela PJ, e não me posso pronunciar. Apenas refiro que há um terceiro envolvido nesta situação que, seguramente, sabe que não agiu de boa-fé, mas que acredito que na devida altura tudo será esclarecido. Estou a procurar resolver todas as questões da melhor forma possível.

Como é que está o processo?
Está a decorrer um processo de investigação na PJ. Tenho esperança que tenha um fim célere apesar de já decorrer há um ano e meio. Acredito nas competências técnicas da nossa PJ, reconhecidas nacional e internacionalmente assim como nos tribunais e na justiça portuguesa.

Foi uma fraude de dez milhões, como se escreveu?
Prefiro não comentar.

Está a voltar a investir?
Sim, claro que sim. Noutras áreas de negócio.

É verdade que, de repente, perdeu quase todas as poupanças de uma vida… Como é que se sentiu por se deixar enganar assim?
Uma vez mais, não comento.

Está a começar de novo?
É das dificuldades que tiramos as melhores lições. Isto foi um crescimento pessoal, espiritual, empresarial. Sinto-me muito mais forte, mais capaz.

Mesmo financeiramente?
Prefiro não comentar a minha saúde financeira. A educação que os meus pais me deram sempre foi no sentido de enfrentar dificuldades e resolver problemas. Sou uma pessoa de princípios e valores. E o que eu vou fazer é honrar e poder cumprir com tudo.

Era poupado?
Era. Tinha uma vida normal, gastava apenas o que podia, a pensar no futuro.

Li recentemente que fez um curso sobre diamantes.
Foi uma importante oportunidade que surgiu. Por curiosidade fiz o curso e, por consequência, devido ao meu prestígio internacional, a HRD Antwerp propôs-me ser embaixador deles nos mercados de língua portuguesa.

E estão a usar a sua imagem?
Sim, naturalmente. É uma das maiores entidades a nível mundial na formação e certificação em gemologia e diamantes. Interessou-se por ser extremamente séria na forma de atuar. O mundo dos diamantes está muito relacionado com os diamantes de sangue e como eles aprendi que existem sistemas de controlo, como o Processo de Kimberly, que garantem que os diamantes não vêm de países em conflito. Vão abrir laboratórios de certificação e cursos em Portugal, Angola e Brasil, não só para os profissionais do setor, mas todos os que, como eu, são apenas meros curiosos ou entusiastas.

E continua a desenvolver a sua fundação?
Nunca deixei de estar junto da minha fundação, de continuar a minha obra de ajudar os mais carenciados, neste caso, as crianças.

Com a crise, aumentaram muito os pedidos de ajuda?
Exponencialmente. Deixaram de fazer pedidos fúteis ou mesmo de pedir dinheiro para ajuda na compra de casa, e começaram a aparecer pedidos de produtos de primeira necessidade. Comida e roupa.

Interfere diretamente?
Tenho uma pessoa de confiança que me faz chegar os pedidos e a partir daí as diligências são feitas por mim, às empresas. Já ajudámos mais de 15 mil crianças. Há muita criança a passar fome. É assustador. Já tivemos crianças a necessitarem de cadeiras de rodas, já remodelámos casas onde habitavam com os pais sem quaisquer condições, já substituímos o Estado na compra de aparelhos de diagnóstico.

Em que outras áreas de investimento está envolvido?
Como andam as coisas, há que ter algum cuidado. Sou, agora, a pessoa mais cautelosa do mundo, é tudo analisado ao pormenor.

Vai fazer academias de futebol?
Um dos projetos que tenho é poder, através da fundação, através do desporto, dar maior qualidade de vida às crianças que vivem em zonas problemáticas no mundo. Uma academia que, além de estimular a prática do desporto, dê valências escolares, porque o futebol é um veículo extraordinário na passagem de ensinamentos, até nas questões comportamentais. Ajudar a tirá-los da rua e da criminalidade e diminuir o analfabetismo. Já estive no Brasil e em África, nomeadamente em Angola.

Mas Portugal não precisa também de algo do género neste momento?
Infelizmente, em Portugal, as pessoas colocam logo a questão de que «ele, para querer fazer isto, é porque quer ganhar algo». Eu quero é poder servir. Não sou nenhum salvador, mas consigo, nos momentos mais difíceis, ter discernimento de ver o que é que está mal e devia ser mudado. Mas em Portugal as pessoas a quem falo querem é ganhar dinheiro. Quando veem que o projeto é para servir e não para ganhar dinheiro, muda logo tudo de figura. Já apresentei o projeto em vários sítios e a várias pessoas. Ficam maravilhados, mas depois fica na gaveta, porque não dá dinheiro.

E lá fora?
É diferente. Daí o transportar da ideia para países onde as pessoas que mandam não querem ganhar.

Está desiludido com o País?
Isso é uma palavra muito forte. Os portugueses têm capacidade para dar a volta por cima, como sempre fizeram ao longo dos tempos.

Segue o mundo da política?
Sim, cada vez mais.

Nunca o tentaram a ir para a política ou a apoiar políticos?
Sim. Mas sou mais de apoiar pessoas, não partidos.

Voltemos ao futebol e às suas ambições de gestão desportiva. Começo pela pergunta inevitável. Sempre se falou em si como possível presidente do FC Porto. É esse o grande objetivo?
É normal que façam a pergunta. Sei que posso ser tudo o que quiser. Mas no FC Porto existe um cenário de estabilidade, onde não se coloca sequer uma transição, por isso não faz sentido falar de algo que não existe. Neste momento, e espero que por muitos anos, o FC Porto tem um presidente no máximo das suas capacidades. Está como o aço, em termos de saúde, intelectuais, daquilo que é o Pinto da Costa que conhecemos.

Costumam falar regularmente?
Adorava estar com ele uma hora por dia para conversarmos e beber daquilo que é uma sabedoria extraordinária. Mas não estou. Tenho, e penso que é recíproca, uma grande admiração e amizade por ele. Ele sabe que gosto verdadeiramente dele e que durante muitos e muitos anos dei a minha vida pelo FC Porto e por ele, porque era ele o presidente.

E, a longo prazo, quando houver a transição…Teremos de fazer uma análise e ver se há necessidade de ter uma participação. Não vivo preocupado com isso. Mas tenho a certeza de que um dia regressarei, pode ser amanhã ou daqui a uns anos. As pessoas sabem que gosto de mais do clube. Há uma ligação umbilical. Nessa altura cá estaremos para olhar pelos interesses da instituição.

Chegou a ser falado também para a Federação…
Fui mandatário para o futebol nas últimas eleições e se aceitei é porque tínhamos um acordo para algo… de futuro.Vamos aguardar.

Porque é que deixou o cargo que tinha no FC Porto?
Saí porque tenho uma forma de ser e de estar muito própria. Não houve complôs nem tentativas de chegar ao poder saindo agora para depois organizar as individualidades para o assalto. Não me sentia útil. Mas não deixo de ser um «embaixador» do FC Porto a nível internacional. A marca é fortíssima. Podíamos fazer algo em conjunto, porque onde vou o nome do FC Porto e o meu estão de mãos dadas.

Vê-se mais ligado a essa projeção internacional do FC Porto do que num cargo mais perto da equipa de futebol?
Não tenho problema em estar nas estratégias diárias da equipa, como também me vejo em algo ligado à expansão da marca FC Porto. Em ambas poderia ser muito útil.

Foi, até há pouco tempo, o atleta com mais títulos do mundo…
Sou o guarda-redes com mais títulos do mundo. Sou o atleta português com mais títulos no mundo. Deixei de ser o jogador, porque temos o fenómeno que é o Ryan Giggs, que ainda continua a jogar e a somar, o que não estava no programa [risos]. Sou o segundo melhor jogador da história do futebol em títulos.

Mantém o recorde de invencibilidade em Portugal?
Sim, 1192 minutos. Não deixa de ser uma forma de poder… se calhar é forte a palavra, de perpetuar o meu nome, de ajudar os mais jovens através da minha experiência. Outra coisa que faço são palestras sobre liderança em que uso a experiência, o espírito de sacrifício, superação.

Outro dos seus recordes foi ter sido a transferência mais cara de um guarda-redes, seis milhões de euros, quando foi para o Barcelona. Agora, quando vê os valores pagos ao Ronaldo ou ao Gareth Bale, como é que se sente?
É incrível. Esta globalização, esta indústria, está a atingir níveis altíssimos. As pessoas ficam muito preocupadas com o dinheiro que os clubes gastam, mas os clubes recuperam. O break-even desse investimento é rápido, rapidíssimo. Outra coisa que faz muita confusão às pessoas é o ordenado dos jogadores, mas isso é a ínfima parte daquilo que a equipa de futebol gera. A máquina é muito mais complexa e o dinheiro que envolve…

Está a dizer que o Ronaldo, o Bale, o Messi, dão um retorno muito maior do que aquilo que lhes pagam?
Mas sem comparação possível! Gera um retorno extremamente elevado pela atratividade que gera no público.

É um sector em que Portugal devia ainda investir mais?
Sim, não tenho dúvidas. Há duas saídas, em Portugal, para a crise: uma delas é o turismo. A outra é o futebol, um fenómeno num país pequeno como o nosso. Em dez anos tivemos dois Bolas de Ouro! Em Espanha, eles cortam os pulsos com isto… Conseguiram, a partir de 2008, algo importante a nível de seleções, mas não conseguem ter Bolas de Ouro. E nós tivemos dois! Luís Figo e Cristiano Ronaldo, já para não falar do Eusébio, noutra geração. Portugal, pequenino, tem três Bolas de Ouro, tem o melhor treinador do mundo. Isto é um importante cartão de visita.

Venceu quatro grandes competições internacionais, entre FC Porto e Barcelona, tem oitenta internacionalizações. Qual é o momento que elege como o momento da sua carreira?
O meu primeiro título internacional, em Barcelona, acaba por ser marcante porque é o primeiro, embora num colosso do futebol mundial. Tenho uma Liga dos Campeões, que é a cereja no topo do bolo, o que qualquer jogador sonha ganhar. Mas a marcante mesmo, é a Taça UEFA pelo FC Porto, em Sevilha. Foi um sonho cumprido, feito realidade. O sonho de um miúdo, aos 16 anos.

E o pior momento da carreira?
Foram as lesões. Tive dois anos terríveis com quatro operações. Foi mais uma fase importante para o meu crescimento, para o meu espírito de sacrifício, superação. Até ali só tinha conhecido o lado bom, até aos 30 anos. Conheci o menos bom, dos 30 aos 32. Estive dois anos a ser operado e dentro de ginásios a recuperar. E valeu a pena o sacrifício porque consegui algo extraordinário: quando já ninguém acreditava que pudesse recuperar, os melhores anos vieram a seguir.

A melhor defesa e o pior «frango»?
Lembro-me de defesas importantes, golos também onde estive menos bem. Mas escolher um lance, não consigo. Tenho um motivo de orgulho: nos momentos mais importantes estive presente, não falhei nas grandes finais internacionais. E isso é algo que marca também uma carreira. Nos grandes momentos nunca falhei.

Ficou desiludido por não ter feito mais em Barcelona?
Barcelona foi uma espinha encravada. Tive um primeiro ano fantástico, era idolatrado, cem mil pessoas, em todos os jogos, a chamarem pelo meu nome. Não podia sair à rua. E depois, uma lesão e a entrada de um novo treinador, mudou tudo. Casmurro como sempre, o tal espírito do FC Porto, pus os interesses da equipa acima dos meus. Tinha acabado a minha recuperação, mas a nível físico de adaptação não estava ainda bem. O Ruud Hesp foi expulso num jogo de Liga dos Campeões, eu tinha começado a treinar há uma semana mas o Van Gaal veio ter comigo e disse-me que sabia que eu estava a cinquenta por cento, mas que me preferia a cinquenta por cento do que ao Busquets a cem por cento. E fui. Contra o Dínamo de Kiev, perdemos 4-0 e foi terrível. Foi a pior decisão da minha vida, ter aceitado jogar assim.

E depois Van Gaal não lhe perdoou essa falha?
Não. As pessoas que conhecem bem os treinadores holandeses sabem como eles são. Devia ser o primeiro a apoiar-me. Daí o meu desencanto, e disse-lho na cara. A minha margem no Barcelona ficou diminuta e senti que tinha necessidade de sair. Tive a possibilidade de ir para o AC Milan, emprestado com opção de compra, e toda a gente me criticou por ter optado pelo FC Porto. Mas senti que para retomar os níveis de confiança tinha de voltar ao sítio onde era acarinhado. Onde podia voltar a ser o que era. Em Milão seria outra vez um estrangeiro. Vim em janeiro, ainda ajudei a vencer o pentacampeonato. E depois vivi os melhores anos da minha carreira.

Ainda hoje é um ídolo em Barcelona?
Sim, por incrível que pareça. As pessoas continuam a conhecer-me e a ter um certo carinho por mim.

O Barcelona é muito diferente do FC Porto?
Como clube, tem os princípios do seu povo, os catalães, mas depois em termos de espírito guerreiro é diferente.

O FC Porto tem regras muito restritivas? São controlados?
Tem. É uma filosofia, uma cultura. Se não a principal, é uma das chaves do êxito. Somos mesmo controlados. Temos responsabilidades, a partir do momento em que assinamos… Sabemos as regras, bem explícitas e bem explicadas. E o prevaricador sabe as consequências. A partir daí, cada um decide: ou aposta na carreira ou vai à vida.

Conheceu o Mourinho co­mo adjunto/tradutor e depois como treinador principal. Mudou muito? Considera-o o melhor treinador do mundo?
De longe. Só quem nunca trabalhou com ele pode pôr isso em causa. É muito abrangente nas competências. Normalmente, os treinadores só se focavam nas questões técnicas e táticas. Sentiu que ser treinador é muito mais do que o jogo, é a forma como comunica e, acima de tudo, a parte psicológica.

Teve um problema disciplinar com ele. Foi ultrapassado?
Sim. E foi um momento de grande inteligência da parte dele. Fiquei muito triste com o que se passou, mas tive o bom senso de fazer uma análise, perceber que ele fez aquilo com um propósito e que esse propósito foi atingido na perfeição. A sua emancipação enquanto treinador foi conseguida, conseguiu transmitir uma imagem de um treinador disciplinador e amigo. E isso foi muito bem assimilado por toda a equipa. Utilizou-me a mim para isso. Pela relação que tínhamos, pessoal e familiar, não gostei de ter sido a vítima. Mas pôs a equipa a jogar como ninguém e a mim também a um nível altíssimo.

Disse que não ter ido para o AC Milan foi uma boa decisão. Houve algum convite que se tenha arrependido de não ter aceite?
Vários, ao longo dos anos. Tive a possibilidade de ir para o Sporting quando vim emprestado do Barcelona. Ainda estava cá o Schmeichel. Era o Luís Duque o manager e o Inácio o treinador. Mas toda a gente sabia que o meu desejo era ficar no FC Porto e em Portugal não me via a jogar noutro clube. E tive um pré-acordo assinado com a Juventus, antes de ir para o Barcelona, de que muito pouca gente sabe. Foi depois da Lei Bosman, fiz um pré-acordo sigiloso com a Juventus para quando terminasse o meu contrato, seis meses antes. Mas o Barcelona aparece no verão. Se o Barcelona não surge, a Juventus era o meu clube em fim de contrato. O interesse do Barcelona foi um alívio, podia compensar o meu clube. Assim o FC Porto pôde ganhar com tudo aquilo que me tinha proporcionado.

Disse que a espinha encravada da sua carreira foi o Barcelona, e o treinador Van Gaal. E o episódio Scolari?
Aí, houve dois prejudicados pela birra de uma pessoa. A seleção e eu. Ou melhor, três. A pessoa que decidiu também.

A Van Gaal disse-lhe na cara o que sentia. E a Scolari?
Não, porque nunca tive essa oportunidade, nunca nos cruzámos. A única vez que o fizemos ainda se falava na possibilidade de ser convocado para o campeonato da Europa e pareceu-me uma pessoa afável, simpática, bem-educada. Que nada tinha a ver com as tomadas de posição que acabou por ter. Ouvi muitas teses e muitas justificações. Nenhuma delas, até ao momento, me preencheu. Preferia que ele, desde o início, tivesse dito claramente que não me convocava porque achava que o Ricardo era melhor. E pronto, tudo estaria sanado.

Se se cruzar com ele, aperta-lhe a mão?
Aperto, porque não sou pessoa de guardar rancor. Mas não sei qual será a reação dele, porque sabe perfeitamente que fez mal. Com que propósito, só ele saberá. Da minha parte, nunca lhe faltei ao respeito nem nunca tive uma única afirmação que pusesse em causa as suas competências enquanto selecionador.

Teve algum caso de indisciplina?
Zero. Aliás, na situação mais delicada, no campeonato do mundo Coreia/Japão, em que houve uma tensão muito forte entre treinadores e diretores, deram-me os parabéns pela forma como tentei manter unida a equipa. Um dos fatores mais importantes para o sucesso de uma seleção é a estabilidade e a amizade entre todos, não só entre jogadores. Houve divergências entre o António Oliveira e elementos da equipa técnica, e também entre ele e a direção. O senhor Godinho e o senhor Boronha vieram-me dar os parabéns pela minha atitude enquanto capitão, no serenar de conflitos e de posições.

Quando acabou a carreira, em junho de 2007, sentiu-se vazio?
Não, foi preparado. Quando o Helton começou a jogar senti que estava na hora de passar o testemunho. Se me pergunta se ainda podia ter jogado mais tempo, podia. Estava em condições físicas plenas. Mas fiz aquilo que, se calhar, muitos não fariam. Criei condições ao meu substituto para que a adaptação fosse rápida e a melhor possível. Transmiti ao Helton o que me foi transmitido pelo Mlynarczyk. Ser-me-ia muito fácil boicotar isso. Mas não é a minha forma de ser.

E em Riade. Não lhe custou ficar de fora nesse mundial de juniores em que Portugal se mostrou ao mundo?
São questões completamente diferentes. Em 1989 tinha começado a jogar no FC Porto, era uma oportunidade. E a entidade patronal é que manda, quer queiramos, quer não. Fiz parte daquela geração, exceção feita àquele momento. Senti-me também como parte integrante daquela vitória, indiretamente. Estive com eles, felicitei-os, fiquei muito feliz. Mas, se calhar, ao não ter ido comecei uma carreira. Podíamos não estar aqui a falar se tivesse ido e o FC Porto apostasse noutro guarda-redes.

Como lida com a sua exposição mais mediática, a das revistas sociais?
Faz parte da nossa notoriedade. Não nos podemos esconder.

O seu filho mais velho está com 20 anos?
Sim. Sou um privilegiado. Tenho miúdos bem formados, bem educados, com uma grande sensibilidade.

E algum com queda para o futebol?
O Diogo, o mais velho, está a seguir Educação Física. Está na faculdade e é treinador nas escolinhas do Mónaco, neste caso, que é Salgueiros. Jogador não. Ainda tentou, mas não tinha espírito. Quando viu que tinha de se levantar muito cedo… [risos] Isso era mais para o pai. A Beatriz quer seguir as pisadas da tia, na economia. Tem 16 anos, está no 11.º ano, com bom aproveitamento. E o Afonso é um miúdo com 6 anos, cheio de vida que não para, só quer futebol.

É esse que vai seguir as pisadas do pai?
Está no Dragon Force a treinar, desfruta… É avançado e guarda-redes. E fica supervaidoso quando os miúdos vêm falar comigo. Mas não estou preocupado se vai ou não ser jogador. É importante que pratique desporto. O resto…

Vamos ao futebol atual. Como é que é este ano vê o campeonato?
O FC Porto com a estabilidade de sempre, e com equipa para conseguir o que foi conseguido nos últimos anos. Com um jovem treinador que eu consigo sentir com competência e com qualidade.

Esta aposta do FC Porto em jovens treinadores é de risco?
Riscos calculados. Há competência de quem treina e uma estrutura muito sólida. Não podemos dissociar a estrutura do resto, mas se não houver competência da parte do treinador a estrutura não consegue tudo.

Costuma ir aos jogos?
Sim, sempre que posso. Tenho uma agenda muito preenchida, não tenho muito tempo. Ando sempre para trás e para a frente, sempre fora do país.

E o Benfica e o Sporting?
No Benfica, a decisão de manter o treinador trouxe alguma instabilidade. Não que ponha em causa a competência, mas por todo o dramatismo do final de época, o caso Cardozo e depois a novela do «renova, não renova»… A maior surpresa acaba por ser o Sporting, que depois de um ano terrível surge confiante e a evidenciar-se a um nível que já não víamos há muito tempo.

Como segue as picardias entre o presidente do Sporting e o presidente do FC Porto?
Não é o caminho, sinceramente. Devem ter dito ao presidente do Sporting que para se ter sucesso tem de se ter esse tipo de estratégia. Mas é um erro tremendo. Também se pode vencer sendo educado e sendo comedido. Tem é de se ter estratégias muito bem vincadas e assertivas.

Essa é a sua imagem de marca…
Sim, continuo a ter a certeza, a convicção, de que é possível ter sucesso respeitando, não baixando o nível.

Vai ser comentador no Mundial?
Se calhar. Tenho tido convites. É uma área de que gosto. Neste momento estou na TVI e tem sido uma surpresa.

Pergunta sacramental: Ronaldo ou Messi?
Ronaldo. São os dois muito iguais. Com o azar de terem nascido no mesmo período. Mas não concordo que o Messi seja de outro planeta e o Ronaldo seja apenas o melhor, são os dois de outro planeta. Um tem quase 1,90 m, outro tem pouco mais de 1,50 m. Só por aqui, as caraterísticas já são diferentes. Em termos de rendimento estão os dois ao mesmo nível, são os dois os melhores do mundo. E, aí vão desculpar-me, tenho de defender o que é português. E tendo dois jogadores que são os melhores do mundo, tenho de escolher um português!

Ronaldo ou Eusébio?
Essa discussão foi das mais estéreis que acompanhei ao longo dos tempos. Cada um no seu tempo. Infelizmente, não cheguei a ver o Eusébio jogar. Mas sei o que me transmitiram e o que ele representou para o futebol português. Cada um na sua época foi o melhor. Tal como o Luís Figo, que foi o melhor da minha geração.

Quem é o melhor guarda-redes da atualidade?
Em todas as épocas há sempre dois ou três guarda-redes de nível altíssimo. Petr Cech, Buffon, Neuer…

E português?
O Rui Patrício. Portugal tem bons guarda-redes, estamos a trabalhar melhor do que há uns anos e estou convencido de que irão surgir novos valores com grande qualidade. Mas não temos um guarda-redes de topo mundial. Temos um bom guarda-redes que é o Rui Patrício, que tem capacidade e condições para se tornar um guarda-redes de topo. Mas ainda não o é. Se calhar, vai ter de sair de Portugal para conseguir esse feito. E, de preferência, num clube de topo que lhe permita atingir esse nível. A capacidade individual de um jogador deve ser sempre acompanhada por títulos.

[Publicado originalmente em 17 de novembro de 2013]

Filomena Martins
Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens