OPINIÃO

Bom argumento para um romance

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Tiago R. Santos é um dos raros tipos que ganham a vida a escrever guiões para filmes e séries de televisão em Portugal. Esteve em Conta-me como Foi e Call Girl, por exemplo. Agora estreou-se no romance para falar das dores de crescimento que marcam a passagem da puberdade para a vida adulta em A Velocidade dos Objectos Metálicos.

As pessoas não são pessoas, são números. Há o Três Nove Oito, o Quatro Vinte e Três, o Cinquenta e Sete e o Pai do 93, por exemplo. No romance de estreia de Tiago R. Santos, cada personagem preserva o número de aluno do colégio, mesmo que há muito tenha crescido. Aliás, as personagens deste livro experimentam toda a rigidez do mundo dos adultos, ainda que algumas sejam crianças. A Velocidade dos Objectos Metálicos [ed. Clube do Autor] podia contar a história de qualquer um de nós: das injustiças a que fomos sujeitos, do medo que sentimos, das cumplicidades que criámos no meio dos jogos de força. Aqui está, sem filtros, tudo o que a memória dos humanos prefere não preservar.

Tiago é uma daquelas pessoas que, apesar de não serem de muitas palavras, dão excelentes entrevistas. «Talvez seja cruel o meu livro», diz. «Muita gente, pessoas por quem tenho consideração, disse-me exatamente isso.» Mas não é isso, não é bem crueldade. É só cru, o livro, e cru é uma palavra de três letras. Em língua portuguesa, todas as palavras de três letras são totais: mãe, pai, mau, bom, ser, dar, rir, sim, não. Cru é aquela palavra que mistura a crença com a nudez, é aguçada que se farta. O livro de Tiago R. Santos é isso, cru.

O autor em 37 anos, já não é um rapaz. No colégio onde cresceu, o Manuel Bernardes, em Lisboa, os alunos também tinham números. «Fui a alguns jantares de antigos alunos, no primeiro não conhecia ninguém.» Nada estranho, se tomarmos em conta que Tiago R. Santos não guarda amigos a sério dos tempos do colégio. O que lhe haveria de valer para sempre foram os tempos seguintes, quando trocou a educação privada pela pública. «Cresci na Portela de Sacavém, nos limites da capital, e esse era um universo particular.» Viu os anos da heroína darem-lhe cabo de alguns comparsas, mas também experimentou a vivência da rua – e esse foi um tempo já extinto de proximidade social, dos vizinhos que se conhecem e, em certa medida, se protegem. Também foi disso que quis falar no seu livro.

«A Portela haveria de dar um grande filme», suspira, e dá cabo de um café num só trago. Tiago sabe do que fala, quando fala de filmes. Ele é um dos poucos tipos em Portugal a conseguir fazer carreira com a escrita de guiões, para cinema e televisão. «A menos, claro, que se queira fazer novelas.» Escreveu os argumentos de Call Girl e A Bela e o Paparazzo, duas fitas que António-Pedro Vasconcelos realizou e Soraia Chaves protagonizou, e de Os Gatos Não têm Vertigens (do mesmo realizador, com saída prevista para 2014) Também assinou duas séries bem referenciadas: Liberdade 21 e Conta-me Como Foi. Agora está a escrever outro projeto para a RTP, Os Filhos do Rock, sobre uma banda fictícia da cena musical lisboeta dos anos oitenta. Também faz crítica de cinema na revista Sábado.

Ele até começou a trabalhar como jornalista, primeiro num semanário do bairro (estreou-se com um texto sobre saídas à noite) e depois na extinta revista Focus. «Sofro de uma timidez patológica, por isso não gostei assim tanto de ser jornalista. Mas valeu-me de muito: estimulou-me a curiosidade, deu-me técnica de escrita, ajudou-me a ultrapassar os receios.»

Um dia demitiu-se e decidiu embarcar para Nova Iorque. Ficou «dois anos e pouco», trabalhando em restaurantes e bares para pagar um curso de guionismo na New York University. Assinou dois argumentos em inglês, ainda não perdeu a esperança de os ver materializados em filme. «Servir às mesas também é bom para perder a timidez, mesmo quando não se tem muito jeito.» E depois a revelação: houve um emprego que perdeu logo no primeiro dia. «Confundi alcachofras com anchovas, fui posto a andar.»

Em A Velocidade dos Objetos Metálicos, os diálogos são fortes e certeiros, tal como num filme. Isso não é propriamente uma surpresa, tendo em conta que Tiago R. Santos está habituado a explorar as conversas, a construir a narrativa toda por aí. Mas a estrutura que invocou neste livro dificilmente poderia aparecer em tela, porque há uma profundeza nas descrições e nas sensações que não é nada fácil de imaginar em formato audiovisual. «Ao início pensei fazer um livro de contos, um romance era obra demais.» Depois o livro foi nascendo, cada capítulo é uma história inteira, e todas elas se unem no fim.

Mesmo antes de a história começar, Tiago R. Santos invoca duas citações, uma de Walt Whitman e outra de Ricky Jay, o narrador de Magnólia (filme de Paul Thomas Anderson). E essa última é capaz de explicar o enredo deste livro. «Isto foi apenas uma questão de sorte ou de azar. Estas coisas estranhas acontecem a toda a hora.» Ou seja, bem vistas as coisas, não há explicação nenhuma para A Velocidade dos Objectos Metálicos. As pessoas são números, apaixonam-se e sofrem e têm medo. Como na vida, portanto.

 

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Sara Matos/Global Imagens