OPINIÃO

«A cultura é a nossa única forma de imposição no mundo»

Grande Entrevista a Pedro Abrunhosa. Qual o segredo da longevidade do músico, que assinala vinte anos de «Viagens»?
Pedro Granadeiro/Global Imagens

Qual é o segredo da longevidade deste músico que assinala daqui a poucos meses vinte anos de Viagens, o álbum de estreia que fez dele uma referência musical e uma voz crítica? Porque continuam as suas composições a ser sucessos na rádio, percorrendo várias gerações? Nesta grande entrevista, Pedro Abrunhosa fala da pressão do sucesso sobre a vida privada, de cidadania e de política. Em Contramão, o novo disco que grava com os Comité Caviar, parte das canções para refletir sobre o que somos e o país em que vivemos. Tudo sem tirar os óculos.

É um contador de histórias que usa a canção como veículo?
Sim. Cada vez mais me preocupo com a canção. É aquela forma simples e secular da qual sou um dos herdeiros. Procuro a simplicidade dentro da canção e a canção tem por função contar histórias, ser crónica, ser arauto, espalhar a palavra, não no sentido proselitista mas naquele poético e sociológico… Essa mistura entre palavra e som, contadora de histórias urbanas e não só, nas quais me projeto em dois sentidos. Em primeiro lugar, projetando a minha vivência direta, porque qualquer obra é autobiográfica. Uso a minha voz para falar da minha existência e da existência de todos, porque amor é amor e dor é dor. Somos iguais, partilhamos um espaço comum. Por outro lado, uso a minha para dar voz aos outros, os anónimos, que estão na rua, que trazem histórias por dentro. São essas histórias que me interessa desenterrar: as personagens das cidades, que habitam o nosso plano, e que à noite regressam a casa. O Edgar Morin dizia «o verdadeiro ato sociológico é olhar para uma fachada e adivinhar quem está por dentro». As pessoas são fachadas com seres humanos por dentro.

Como em tempos fez com a história de Gisberta (o transexual assassinado no Porto em 2006), desta vez canta um retrato do lisboeta Senhor do Adeus. São as tais personagens das cidades, mas estas duas com figuras reais e muito concretas. O que o levou a elas?
São personagens do nosso universo cheias de poesia e tragédia, essa é a razão comum. A tragédia sempre teve mais valências poéticas do que o sucesso; não adianta cantar o sucesso, ele canta-se a si próprio. Portanto, falar daqueles que se perderam no caminho, alguns que se fizeram perderam, outros que perderam. Nos dois casos há uma situação comum que é a solidão. A Gisberta morre num prédio no Porto, assassinada, sozinha. E o Senhor do Adeus, ainda que na cidade de Lisboa, sendo um pouco a alma e o pulsar da cidade – eu chamo-lhe Príncipe Feliz do Saldanha –, era uma espécie de via aberta nos dois sentidos para quem entrava e saía de Lisboa. Era impossível não passar por ele. Toda a gente sabe quem é o Senhor do Adeus e toda a gente lhe disse adeus, uma vez ou outra, e acendeu os faróis. O Senhor do Adeus tinha aquela particularidade de estar ali àquela hora, às 00h00, num ato claramente solitário, mas que projetava uma luz. Não direi luz obscura sobre a cidade. Por um lado, dizia adeus com um sorriso, mas por outro com tristeza. Nunca o conheci pessoalmente, mas achei-o das personagens mais poéticas que encontrei no decurso das minhas muitas viagens… E encontrei algumas. Encontrei uma em Nova Iorque sobre a qual, um dia, escreverei. Mas pelo Senhor do Adeus passava todos os dias e acenava. De alguma forma devo ter contribuído para que ele se sentisse menos só. A solidão é um dos flagelos deste fim de ciclo.

 

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As viagens que fez antes do álbum a que chamou Viagens formaram o homem que faz esse disco?
Elas existiram, por isso é que o disco tinha esse nome. Houve esse percurso antes do disco, o de fazer mesmo estradas, de estar nos sítios, de correr o mundo (eu corri o mundo de mochila), depois e até durante o meu curso. Há uma complementaridade entre a minha carreira académica e a minha carreira na estrada. Essa complementaridade, que acho que não me deixou tornar num intelectual, puxou-me sempre para a terra. Eu era um estudante de música clássica-contemporânea e estava muito encaminhado para ser um músico clássico, mas ainda bem que o estar na terra me permitiu olhar para o lado e ver Robert Cray e Lou Reed, James Brown, os ciganos… Depois, a fusão desses dois universos é que dá. Mais a literatura, muito importante na minha vida desde cedo… Eu fazia viagens por terra, não havia low costs, portanto, chegava aos sítios mais remotos do planeta guiando o carro, indo de cavalo, de autocarro… Em camiões, viajando com animais, etc. Ia conhecendo a realidade e isso trouxe-me uma valência muito grande. Essa textura levou-me muito próximo das pessoas. É uma coisa que espero nunca perder, a proximidade do real. Fez que chegasse a Portugal e não tivesse nenhum complexo de ser português ou da língua portuguesa, nenhum complexo de inferioridade, que é uma coisa que os portugueses infelizmente têm, uma certa subserviência, uma coisa atávica já do século xvi, em relação ao estrangeiro, cujo apogeu, na negativa, foi o ultimato inglês.

Sente que temos coletivamente um complexo até mesmo com a nossa cultura?
Temos culturalmente uma alma gigantesca que nunca utilizamos no exterior como afirmação identitária para que sejamos finalmente respeitados. Porque só se respeita um povo que tem identidade cultural. Povos que não a têm e que não se autorrespei­tam na sua própria identidade cultural jamais conquistarão o res­peito dos outros. E a identidade alemã é isso. É Wagner, Strauss, Schumann, Thomas Mann… e vamos por aí fora. E a identidade italiana é Visconti, Bertolucci, Dante. A alma portuguesa é enor­me através da cultura. É o que nós somos. Aquilo que poderia ser Lopes Graça, poderia ser Jorge Peixinho, Braga Santos… Pode­ria ser muita coisa, Lobo Antunes, Eça, Camões… É a cultura que faz o país. Mas nós continuamos a vender-nos como técnicos su­balternos da Europa. Conside­ramo-nos os desgraçados da Europa. Portanto, venha o que vier lá de fora, nós aplaudimos.

É isso que o faz querer cantar em português?
Claro. Canto na língua em que amo e em que sonho. Digo «amo-te». Não digo «I love you». Mas não me interessa o que os outros fazem, e fazem-no bem. A mim interessa-me esta coisa do enaltecimento, de per­cebermos que o que fazemos entre portas é muito, mas muito me­lhor do que a cultura da música do abdominal que vem das Rihan­nas, embora a Rihanna seja muito interessante mas por outras coisas. Ou Madonna. Interessa-me muito pouco isso. Isso interes­sa às grandes companhias para cumprir quotas. Como se fossem produtos farmacêuticos, é preciso vender Xaspirinas, por isso ve­nham lá discos de um rapper qualquer, à frente de um Porsche amarelo. É assim que funciona. Nós, a nossa música, a nossa lite­ratura, poesia, cinema, que está a atravessar uma crise profun­da… O nosso teatro está mano a mano com o que de melhor há e sempre com o que de melhor houve. O facto de continuarmos com esta subserviente genuflexão perante o estrangeiro é o que faz que não estejamos a celebrar continuamente no Metropolitan ou na Royal Opera House. Porque é que não se faz a integral do Fer­nando Lopes Graça ou o Opus Ensemble no Metropolitan? A nossa riqueza, não tanto em quantidade, que o país é menor, mas em qualidade, não é inferior.

Falta uma política cultural interna e de exportação?
Não é uma política cultural, é a política como cultura. E a cul­tura como política. É perceber como perceberam os países es­candinavos que um país desinformado, sem instrução, com bai­xo grau de acesso aos bens culturais, vai ser um país mais pobre a curto, médio e longo prazo. A cultura não serve outra coisa se­não para enriquecer o país. Um povo mais culto é um povo mais rico. A cultura produz. As indústrias culturais produzem dois a três por cento do PIB. A cultura é a nossa única forma de impo­sição no mundo, como foi com Cabo Verde: pode ter umas belas praias, mas se não fosse a música, as praias não estavam no mapa.

No novo disco, entre os vários momentos poéticos que aborda, há uma canção [A.M.O.R.] que foca a questão da intolerância religiosa. Que não é só do nosso tempo mas também da nossa história enquanto povo. Recua inclusivamente aos tempos da Inquisição. A intolerância religiosa é um dos males do mundo?
Não acho que seja a intolerância religiosa, mas sim o fanatismo, a cegueira, a estupidez e a ignorância. A fé é algo que respeito muito. As pessoas projetam-se numa identidade superior e ina­tingível. Essa fé que faz com que se construam pirâmides ou o Mosteiro da Batalha. É a fé que põe o mosteiro de pé e não a bata­lha de Aljubarrota. Aquela abóbada, claustro e nave, naquele tem­po… Isso prova a existência de Deus, mesmo que eu não acredite que ele exista. Ele existe porque as pessoas são tantas que fazem uma obra que prova a sua existência. Eu sei que é um pouco filo­sófico… Por outro lado, esta mesma capacidade telúrica, de cons­truir porque se acredita, o que faz com que Ele exista de uma for­ma filosófica, abrangente é a mesma que leva ao extremo: a lin­guagem religiosa quando é lida a palavra de uma forma ignorante… O poeta Al-Mu’tamid dizia: “Cuidado com o homem que lê de um livro só.”Aquele que só lê do Corão ou da Bíblia só co­nhecerá aquela realidade. Portanto, toda aquela realidade será afunilada… Como aquele que só vê a Casa dos Segredos. É uma realidade que fica completamente toldada e cega. É isso que pro­va o fanatismo, não a religião. Por isso é que digo nesta canção: «As coisas que unem as religiões são muito mais do que as que se­param. O meu Deus não usa balas nem explode na multidão.» Não creio que seja isso que o islão faça. Mas também não é o Deus que se esconde na Santa Inquisição, não é esse o Deus que Cristo vem pregar à Terra. Portanto, o aproveitamento externo que se faz a isso, que é político e humano, faz que os mesmos homens que constroem obras divinas também destruam o divino em si. É es­sa a discussão: a destruição do divino através da má utilização de Deus, da utilização de Deus.

E quem só ler um livro não conhece o outro…
Obviamente. Por isso, pelo menos na minha estante, o Corão e a Bíblia estão lado a lado com outros livros, com o Memorial do Con­vento e O Evangelho segundo Jesus Cristo. No caso de Saramago, um homem a quem o seu próprio país, em vida, não lhe concedeu a chave da cidade de Mafra… Estamos a falar de perseguição po­lítica e religiosa, de cegueira. No fundo, estamos a falar de igno­rância. Esta canção não é contra a religião, mas sim contra a igno­rância. E a questão da homofobia também. Deus não é uma mu­lher? Todos os deuses têm destino de mãe – porque é que tem de ser sempre um Deus masculino?

Há uma outra canção, Todos lá para trás, que é mais um retrato do Por­tugal que somos. Ali canta sobre a «Geração currículo, dez estágios no Japão, cinco cursos, doutorados, recibos verdes e pão»…
É a chamada «Polaroid».

É importante continuar a fazer estes retratos?
Sim. Porque é uma linguagem imediata, pronta e irónica. Não é preciso pensar muito para se fazer uma letra divertida sobre o que se passa no país. Apesar da tragédia em que este país se foi transfor­mando pela má gestão, incompetência, tráfico de influências e, sobretudo, pela mediocridade… Este país, enfim, foi gerido por uma massa medíocre de constantes profissionais da gestão política, não digo todos, claro. É uma generalidade, o sistema democrático exis­te e funciona, é para isso que existe, e aquele sistema político-parti­dário também. Mas os resultados estão à vista de todos. Temos de ser pragmáticos: a gestão do país desde a omnipresença salazarista tem sido uma péssima gestão. E o país, se já estava atrasado 50 anos no 25 de Abril, agora, depois de termos tido de repente um estrebu­cho de democracia, a República foi interrompida. Neste momento somos um protetorado… A Segunda República foi interrompida. A Primeira acaba em 1926, há uma ditadura, não existe República. E é restaurada a República a 25 de Abril de 1974. Portanto, a Segun­da República está agora interrompida. A meus olhos este homem que está a servir de presidente nunca foi eficaz politicamente. Mas poderia ter interrompido o ciclo das coisas se fosse suficientemente homem de cultura. Temos um governo a dizer que o país não está em crise, que está a sair dela; por outro lado, temos as filas de desem­pregados no centro de emprego, que começam à uma da manhã do dia anterior. São 48 horas de filas de desemprego. E o«Todos lá para trás» é isso. «Um homem a trabalhar, mais de vinte a dirigir.» Basi­camente, é assim. Já vi isto várias vezes. Este homem a trabalhar sustenta os outros vinte com os seus impostos e IRC. Diz a lei que as­sim se faz, até que o homem se fartou e disse: «Todos lá para trás.» Acho que chegou o momento de dizer a esses gestores, àqueles que erraram e são muitos, que voltam a repetir a mentira, que já chega –, «todos lá para trás».

O espaço das candidaturas vindas do espaço da cidadania pode ser uma resposta?
O problema é quando os independentes se tornam profissionais também… Acho que é uma das respostas. A diabolização dos par­tidos não. O respeito pelos partidos é um dos axiomas da demo­cracia. Os partidos representam as pessoas. O problema é quem é que representa os partidos, essa é a grande questão. Continuo a rever-me nos partidos. E revejo-me nos independentes também, desde que não sejam falsos independentes. Há aqueles que são in­dependentes porque estão à frente de uma câmara e depois zan­gam-se com o partido por questões pessoais.

Sente falta, no espaço político português, de mais um partido?
Não. O que existe é uma abstenção gigantesca, e essa taxa não pode ser aglutinada num bolo uniforme. Está distribuída entre a esquerda e a direita. Os de direita que não votam, que não se iden­tificam, porque acham que deviam ser ainda mais à direita; os de esquerda que acham que devia de ser mais à esquerda; e os do cen­tro que não se reveem em nenhum. E depois os descontentes e os desinteressados. Não se pode dizer que existe um partido com 53 por cento de pessoas. As pessoas não votam por muitas razões e talvez a principal seja esta: a do descrédito do sistema partidá­rio. Compete aos partidos repor este crédito. Como aconteceu em muitos países que atravessaram a mesma crise, como a Alema­nha ou a Islândia. A Dinamarca, a Noruega… Que é para não cair­mos na italianização da democracia, em que, no fundo, não inte­ressa votar. Esta importação da cultura pseudodemocrática ita­liana não serve para Portugal. Não acho que seja preciso mais um partido. É preciso uma clarificação, uma transparência do siste­ma político-partidário e a credibilização da democracia através dos partidos, de todos eles. Do PSD ao CDS, do PS ao Bloco de Es­querda e ao PCP há pessoas de imenso valor e de grande honesti­dade. E já deram provas disso. E é para esses que temos de olhar. É nesses que temos de nos referenciar.

Às vezes a presença de figuras polarizadoras (como sucedeu com Obama e os seus opositores nos EUA em 2008) pode estimular a von­tade de votar…
A liderança é uma grande lacuna em Portugal. À exceção de Paulo Portas, que é uma pessoa carismática – e não tem que ver com a mi­nha postura ideológica, mas tem um discurso muito claro, embora ínvio –, não existe um líder carismático. O Jerónimo de Sousa, tal­vez. Pelas razões opostas, porque é muito terra-a-terra, genuíno. Não quero parecer um analista, mas no centro é tudo muito asse­xuado. E esta incapacidade que os políticos têm de arriscar… E ar­riscar não é pôr um chapéu estranho na cabeça e dançar no meio da praça em eleições; arriscar é dizer coisas que são verdadeiramente desafiantes, construtivas e que perspetivem o futuro dos cida­dãos, mesmo que possa parecer que é uma quebra das regras. O mundo só avança se forem quebradas as regras. A tradição, como dizia o meu querido pro­fessor Álvaro Salazar, é mais do que uma série de erros acumu­lados; é preciso quebrar tradi­ções, porque assim continuare­mos nesta rotina marasmática. Portanto, claro que com o desa­parecimento de figuras caris­máticas como Álvaro Cunhal ou Mário Soares, que desapare­ce de cena, não é só o carisma que está em causa. É a capacida­de de gestão ideológica em fun­ção do propósito de conquista de poder. E não é o poder pelo poder, é o poder para servir e o poder com uma carga ideológi­ca. Não é o poder substantivo, é o poder adjetivo. Isso não exis­te. Eu gosto muito do António Costa, acho-o um homem com uma postura para já fortemente sábia e ponderada, ideológica. É um homem preparado. Acredito que a esquerda poderá ganhar muito com o António Costa.

Fala nele como um potencial candidato à presidência?
Espero que seja um potencial candidato a primeiro-ministro, embora os compromissos com Lisboa devam ser cumpridos. Por­que serve mais como primeiro ministro. António Costa é um ho­mem que representa isso: carismático e com um discurso muito claro. E empático.

Acha que o momento em que dá um concerto em 1994, na véspera do buzinão na Ponte 25 de Abril, amplificou a sua voz política? Tornou-o mais ouvido?
Foi uma mera coincidência. Amplificar é a palavra certa. O então primeiro-ministro ordenou aos soldados, a polícia de choque da altura, e sem haver os protestos que há agora por causa dos ataques aos direitos essenciais dos cidadãos, uma brutal carga policial na Manuel Pereira Roldão (na Marinha Grande), creio que no mês de agosto de 1993, da qual resultaram muitos feridos, alguns em esta­do grave. Passado um ano, uma nova carga policial na Ponte 25 de Abril. Curiosamente, era ministro da Administração Interna, das polícias, um senhor chamado Dias Loureiro. A história escreve-se também por estas linhas. As pessoas podem desaparecer, mas o que fizeram fica cá. E o ministro da Administração Interna dá ordem à polícia, na ponte, para disparar. E disparam e ferem. Há um indivíduo que fica tetraplégico. Hoje, isso seria impensável, o governo cairia de imediato. Estou muito satisfeito com o facto de a CGPT tomar a dianteira numa série de iniciativas de manifes­tações populares e não só (movimentos como Que Se Lixe a Troi­ca). De terem percebido que as manifestações não podem passar o dealbar da violência. Por uma razão também – é que os polícias nunca tiveram ao lado do povo como agora. Os homens que defen­dem a escadaria do Palácio de São Bento são também vítimas de 40 a 60 por cento de cortes nas suas pensões e reformas. Estão ali a cumprir um papel. A casa de nós todos, a tribuna. Felizmente que estes protestos têm sido pacíficos para todos nós. Porque chega-se mais de­pressa a propósitos políticos as­sim. E a CGTP tem um grande papel na institucionalização do processo. Mas na altura a raiva perante as injustiças que se co­metiam, e que eram muitas, nomeadamente aquele aumen­to brutal por motivos privados que vieram a descobrir-se de­pois, da Lusoponte, gerou um protesto genuíno das pessoas. Eu por acaso estava a tocar… Os meus concertos, mesmo muito antes do meu disco Viagens ser editado, tinham uma interven­ção cívica. Por acaso estavam lá as televisões. Eu não me apro­veitei da presença delas, mas as televisões aproveitaram-se da minha presença para tentar fa­zer coisas que eu não permiti que se fizessem. Um dia falaremos sobre isso. Poderia ter sido muito pior o que aconteceu na Ponte 25 de Abril, tivesse eu cedido à pressão de alguns meios de comu­nicação que gostam de sangue e de escândalo.

 

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Nesse mesmo 1994 o que é que os Bandemónio fizeram de diferente face aos seus projetos que lhe permitiram atingir o sucesso?
Na realidade, os Bandemónio são uma identidade que vai mu­dando. Eram meus alunos. Qual era a mais-valia? A Máquina do Som [com quem antes tocava] eram meus músicos, estava uma vez com eles por semana; com os meus alunos estava todos os dias. Ensaiava de facto com a Máquina de Som, mas depois, quando chegava à sala de aula, ensaiava com os Bandemónio. Primeiro soava péssimo. Passado seis meses, melhor; um ano de­pois soava melhor do que a Máquina do Som por uma questão de tempo e de método. Foi isso que os Bandemónio fizeram. Quan­do o disco é gravado, ainda não é gravado pelos Bandemónio. Quando vou para a estrada, evidentemente chamo os Bandemó­nio. Mas eles eram um grupo… Foi tudo muito giro, mas era um grupo que claramente podia ser fracionado ou dissolvido. A da­da altura: “Acabou os Bandemónio, o nome já me irrita.” E crio os Comité Caviar, que são músicos com outra escola, com outro estofo. E que servem os propósitos desta sonoridade nova que es­tou a explorar. Vou conseguir melhor ainda, chegar onde quero. Os discos nunca estão prontos, é preciso arrancá-los e entregá-los à editora. Nunca estão prontos, é como os livros. Mas no mo­mento em que começamos a corrigir o livro outra vez… Mais vale começar a escrever outro.  Let it go.

O álbum Viagens (1994) atinge vendas espantosas. Tempo (1996) ainda vai mais longe. Mas Silêncio, de repente, cai. É um disco mal compreendido?
Não. Houve uma altura, logo a seguir ao Viagens, em que tive de me retirar. Era demasiada coisa em cima de mim, muita pressão. Ninguém passa incó­lume pelo sucesso e fiquei ar­rasado. Nunca quis ser famoso. Gosto da discrição, tenho uma vida muito discreta. Gosto que me deixem em paz. Usufruí de muitas coisas e continuo a usu­fruir, mas há coisas que me aborrecem muito.

Fala do lado intrusivo da fama?
Sim. Gosto da minha reclu­são. O palco é o palco, dura três horas. Depois preciso de espa­ço interior, de ler… O Silêncio é um murro na mesa, um disco em que me chateio com tudo e com toda a gente. E no qual di­go um pouco «ponham-se lon­ge». Sabia que era um disco na vertigem. Foi o disco que quis fazer, mas nota-se que é agres­sivo, zangado. Com muitos er­ros, erros de produção mi­nha, completamente assumi­dos, mas tem coisas muito boas também. Eu era um aprendiz de produtor. Mas é um disco em que marco: «Deixem-me em paz.» Marca uma coisa muito importan­te da minha carreira, a capacidade de romper e de arriscar, apesar do sucesso todo. De pôr o pé no risco vermelho. O Silêncio conti­nua a ter as músicas mais pedidas – Como Uma Ilha, O Beijo. Cum­priu um bocado o Velvet Underground da minha carreira. Ficou assim um disco de culto, com canções emblemáticas.

A sua relação com o cinema nasce com a canção Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar para o filme Adão e Eva, de Joaquim Leitão, mas que se aprofunda quando Manoel de Oliveira o chama para ser ator em A Car­ta ou com o pequeno filme que ele mesmo faz depois para Momento
Sou um cinéfilo. Acho que as minhas músicas têm uma com­ponente cinematográfica que podiam ser muito bem aproveita­das se houvesse uma indústria cinematográfica em Portugal. Não existe, lamento. E o publishing não funciona como deveria para colocar, como o Rodrigo Leão colocou, uma música no grande mercado nacional, no mercado de Hollywood, facto de que mui­to me orgulhei, porque prova que é possível fazê-lo. Gostaria imenso de conseguir o que ele conseguiu. Sim, isso acontece com o Joa­quim Leitão, com o Manoel de Oliveira, mas sabe a muito pouco. A minha experiência com o Manoel foi, se calhar, mais profunda, porque fui ator e fiz parte da banda sonora original do filme. Com o Joaquim também, fiz a banda sonora toda do filme. Depois, o Manoel faz o meu clip, que privilégio. É o único que ele faz e está na filmografia dele. Sou um fervoroso admirador do Manoel, em­bora andemos sempre à turra e à massa. O Manoel é muito prag­mático, acutilante, completamente dionisíaco. Não é nada do que se pensa. E então temos grandes confrontos, onde aprendo imen­so. Oxalá se consiga agora com mais um disco tentar o mercado de cinema onde ele existe. Seja em Espanha, França… Vamos tentar através do publishing fazer isso. Mas como ator sou um paspa­lho. Acho que arruinei o filme do Manoel de Oliveira.

 

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Este seu novo disco, em que co­labora uma figura enorme do fla­menco, pode levá-lo a Espanha?
Não. O flamenco é como o fa­do, específico e purista. Tive o arrojo de convidar o Duquen­de e ele teve o de aceitar o con­vite. Não sei o que vai aconte­cer, mas a primeira coisa que me perguntaram foi se o dis­co ia ser editado em Espanha. Não envergonha nenhum fla­meguista e a canção só ganhou com ele, ficou sublime. Sempre comparei a soul ao flamenco. E consegui finalmente fazê-lo. O que vai acontecer, não sei. Ele dá uma respeitabilidade fatal, mas o que dirá Espanha de um português que escreve uma música que pode ser um flamenco? Não sei como fun­ciona.

Este é um disco em que aprofun­da uma cultura rock, que vem do último disco. Além disso, explora ainda mais uma maior presença da voz do piano. É o instrumento com o qual compõe…
Sim. É o rock canção, rock clássico. O rock faz parte da grande tradição da música negra. Vem daí. Do gospel, do jazz, do blues… Tudo isso faz parte da história do rock. O piano é, de facto, o meu instrumento. O piano lidera, abre caminho por ali fora. Não são muitos os grupos de rock que têm um piano a liderar. Geralmente o roqueiro toca guitarra e é por isso que este é um rock, de alguma forma, sui generis. Quer dizer, Nick Cave fá-lo. É bastante mais escuro, mas fá-lo. A mim interessa-me essa li­gação do piano com as guitarras. São dois instrumentos har­mónicos, e sempre aprendi no jazz, e não só, que dois instru­mentos harmónicos não podem falar ao mesmo tempo com a mesma intensidade porque vão conflituar. Cada um dos ins­trumentistas tem a sua conceção harmónica. Alguém tem de tomar a liderança. Neste caso, muitas vezes é o piano que o faz. Curiosamente, é um instrumento muito utilizado no gospel, nas igrejas e no rock’n’roll.

Nuno Galopim
Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens