OPINIÃO

Cinco escritores que vivem sozinhos escrevem sobre isso

Rita Ferro, João Tordo, Isabela Figueiredo, Júlio Machado Vaz e Ana Zanatti falam sobre a experiência de viver sozinho.

RITA FERRO, 61 ANOS, ESCRITORA
Divorciada, dois filhos, oito netos, um rafeiro chamado Beef, vive no Estoril, proibida de pôr número de assoalhadas da casa.

Foram poucos os anos em que vivi sozinha, mas os que senti mais foram os últimos sete, depois de um divórcio e da morte da minha mãe. Nessa altura, já sem filhos em casa, o silêncio era ensurdecedor e tive uma depressão: lembro-me de uma coisa inédita em mim, que sempre fui arrumada: despia-me para o chão e, quando atravessava o quarto, pisava a roupa.

Continuo sozinha, mas agora em regime de meia-pensão. Passo a semana sozinha e os fins de semana acompanhada – recomendo a qualquer casal.

Durante toda a vida tive medo da solidão. Sempre soube que o silêncio de uma casa, a falta de eco e de partilha, a gripe não assistida, carregar com pesos impróprios para as minhas forças, guiar à noite sozinha ou partir para um casamento com a chave do carro na pochette, enfim, tudo isso, conduziria a uma das mais onerosas provas por que um ser humano pode passar: o confronto com as nossas limitações e preconceitos. Adiei enquanto pude, enchendo a vida de ruído e movimento, mas como não vivo acompanhada a qualquer preço e, na minha idade, as coabitações conjugais não se compatibilizam com as logísticas, tive mesmo de me sujeitar à bruxa.

Ao princípio dramatizei – cobrando visitas aos filhos, por exemplo –, mas quando tomei consciência de que começava a culpar os outros pela minha falta de preparação para o meu novo estado, a transição foi rápida: comecei a apaixonar-me por ela. Foi um milagre recente. Há um momento de suprema felicidade quando, ao fim do dia, fecho a porta do quarto e espalho na cama livros, revistas, telefone, comandos de televisão, botija, chocolates e até cigarros, sem que nenhum protesto me incomode. Sobretudo quando o dia de trabalho me corre bem, consegui escrever duas ou três páginas aproveitáveis, não discuti com ninguém nem nenhuma circunstância me beliscou o orgulho, essa ferida sempre aberta que certas pessoas se lembram, por vezes, de regar com álcool.

Outro dos luxos é o livre-arbítrio: posso ver dois filmes seguidos, não ouvir notícias – oh, felicidade! –, passar duas horas numa loja a vasculhar trapos e a comprar mais umas botas para juntar à coleção, sem críticas, ou, ainda, abocanhar uma sandes de queijo ao jantar sem sentir a compulsão de refogar para terceiros.

Pouco a pouco, a ideia de solidão foi-se misturando com a de desamparo na velhice, o cenário da dependência a curto prazo e a falta de uma outra coisa que muitos confundem com posse e nada tem que ver: o sentimento de pertença. Órfã de pai e mãe – não é para troçar, a orfandade adulta é a mais lancinante, exatamente por não comover ninguém –, vivo com esse fantasma em permanência, escondido entre a glote e a aorta.

Para que fique claro: não sou das que doiram nem a solidão nem a velhice. A vida sempre teve e terá um unhappy end, salvo exceções com perfis diferentes do meu. É mais suave naqueles que passaram privações do que em quem, como eu, efetivamente nunca as experimentou. Mas, ao mesmo tempo – e isso é fascinante – serve para nos pôr, pela primeira vez, à prova, e medir a extensão da nossa sabedoria, cultura, Fé, resistência.

João Tordo
[Fotografia de Steven Governo/Global Imagens]

JOÃO TORDO, 41 ANOS, ESCRITOR
Solteiro, vive em Lisboa, numa casa com duas assoalhadas.

Vivo sozinho desde que saí da casa dos meus pais. Tinha 22 anos. Fui para fora, primeiro Inglaterra, depois os Estados Unidos, voltei, pelo caminho partilhei casas, mas ainda assim era sozinho que vivia. Desde 2005, moro em Lisboa. Não sei se escolhi. Aconteceu.

Tem vantagens mais do que desvantagens, do meu ponto de vista. És dono do teu tempo, do teu espaço. Pões e dispões sem ter de dar satisfações, sem ter alguém a refilar porque fizeste isto ou não fizeste aquilo, sem conflito. Viver sozinho promove a autossuficiência, que te torna menos carente e dependente dos outros, mas também promove a contradependência, que pode ser problemática.

A partilha é um exercício essencial e que torna a vida mais saudável. Eu vivo sozinho, mas não estou sozinho, não sou um solitário. Tenho os outros, a família, os amigos, com quem partilho imensa coisa.

Embora seja normal dizer-se, hoje em dia, que as pessoas andam muito sozinhas, não acho nada normal que nos sintamos tão sozinhos. Isso acontece quando não conseguimos fazer companhia a nós próprios; a solidão, nesse caso, pode enlouquecer-nos. Escrevi um livro acerca deste tema. Chama-se O Luto de Elias Gro. Não estar sozinho não é estar rodeado de pessoas. É um erro pensar que os outros é que nos vão salvar da solidão. Um erro enorme, que estraga muitas relações – familiares, românticas, de amizade.

Se vivemos com outra pessoa para não estarmos sozinhos acabamos por sentir ainda mais esse vazio dentro de nós. Ele «rosna» mais alto. Claro que já se pôs a possibilidade de deixar de viver sozinho e quando isso aconteceu percebi que tenho medo. Quando uma pessoa passa muito tempo só cria hábitos e rotinas, e há o medo de que o outro venha invadir o nosso espaço, mexer com o que se encontra estável – o que é mais do que natural que aconteça. A questão é se estamos preparados para deixar isso acontecer. Mas partilhar a vida com alguém não tem de ser assim. Não temos de enfiar as coisas em caixinhas. Não temos de, a partir do momento em que nos relacionamos, passar a fazer tudo juntos. Isso, de facto, não é para mim. Não tenho essa vontade, preciso do meu tempo e espaço. O que não significa que não possas ter uma relação. Há uma diferença entre ter medo de viver com alguém e não ter vontade de o fazer.

Se o facto de ser escritor teve influência na circunstância de viver sozinho? Não sei, mas foi importante para ter feito o percurso que fiz na escrita. Para mim seria impossível ter conciliado esse percurso, até agora, com uma vida de casal com filhos. Os escritores são sempre criaturas um bocado egoístas. Mas, para que fique claro, não acho que é o facto de viver sozinho que me ajuda a ser escritor, é o facto de ser escritor que me ajuda a viver sozinho. Porque quando estou a escrever sinto-me acompanhado, não me abandono, e isso ajuda-me a alinhar-me comigo. Faço companhia à pessoa que mais precisa de mim.

Isabela Figueiredo
[Fotografia de Global Imagens]
ISABELA FIGUEIREDO, 54 ANOS, ESCRITORA
Solteira, uma cadela chamada Ninah, vive em Almada, numa casa com quatro assoalhadas.

Saí de casa dos pais pelos 30, quando comecei a trabalhar. Fui secretária de administração, jornalista e professora, quase tudo ao mesmo tempo. O escritora veio depois. Viver sozinha aconteceu-me. Sempre achei que mais valia só do que mal acompanhada. A minha observação levou-me a perceber que a vida em família raramente é pacífica, que as relações sentimentais dão muito azo a conflitos e discussões, e eu tenho uma tendência natural para me afastar disso. Gosto de viver em paz. A possibilidade de partilhar casa com amigos nunca se pôs porque estimo muito a questão da privacidade. Viver com alguém que amasse nunca resultou. A vida encaminhou-me, pois, para esta circunstância de viver sozinha, a que me fui adaptando.

Como? Garantindo que nunca me sinto só; criando um ambiente íntimo, caloroso e confortável, uma casa onde tenho tudo aquilo de que preciso e onde me sinto como na barriga da mãe; ocupando o tempo a fazer coisas de que gosto, com a preocupação de que não são só as mãos que têm de estar ocupadas, mas também o pensamento, a cabeça, que ocupo com o trabalho, com o mundo, com os livros que leio, com os filmes que vejo, com o que escrevo.

A solidão torna-se um espaço de liberdade, sabes? De enorme liberdade. E a liberdade é viciante. Acho que este crescente número de pessoas a viver sozinhas tem muito que ver com o desenvolvimento civilizacional e com as conquistas enormes no plano dos direitos das mulheres. Já não dependemos de uma família, ou dos homens, para existir. Podemos existir no singular.
A família é um lugar de apoio, mas também é uma prisão. Há que escolher. Eu acabei por escolher a liberdade. Só noto que estou sozinha quando estou doente (aí, maldigo a solidão, praguejo «não tens ninguém que te faça uma sopa, que te traga os remédios») ou quando viajo para fora da Europa (quando fui a Moçambique senti imenso isso, às tantas tive de contratar um motorista, que fazia de guarda-costas, para me sentir segura). Há um preço a pagar pela liberdade nestas circunstâncias.

Sim, queria ter tido filhos, mas vivo relativamente bem com o facto de não ter um relacionamento sentimental. Sou uma máquina de arranjar soluções. Quando não tenho uma coisa que quero, arranjo maneira de a substituir. Sou professora. Não me desmotivo facilmente. Não deixo que a vida ou os outros me deitem abaixo. Há vagos momentos em que gostaria de ter a casa mais habitada, alguém na sala ao lado, até chateio um amigo ou amiga para passar uns dias comigo cá em casa, mas depressa sinto o meu espaço invadido, sinto-me obrigada a fazer companhia, e isso, para mim, é prisão.

Talvez quisesse uma companhia que me deixasse sozinha. Como os vizinhos. Gosto dos ruídos da vida à volta. Deixam-me sozinha, mas garantem que, se eu precisar, há ali alguém.

Júlio Machado Vaz
[Fotografia de Artur Machado/Global Imagens]
JÚLIO MACHADO VAZ, 67 ANOS, PSIQUIATRA E ESCRITOR
Divorciado, dois filhos, dois netos, vive no Porto, numa casa com três assoalhadas

A minha geração casou-se cedo, até por influência da Guerra Colonial. Saía-se de casa dos pais para constituir família. Qualquer outra coisa estava fora de questão. Eu casei-me aos 24 anos, acabado o curso. Com 33, divorciei-me, apesar de, ao casar, estar convencido de que assim morreria. Os rapazes tinham 9 e 7 anos e eu e a minha ex-mulher estabelecemos um acordo cordialíssimo. Eles passavam muito tempo comigo e eu não tinha a sensação de viver sozinho. Existia uma cumplicidade deliciosa.

A fase de adaptação teve momentos hilariantes. O meu filho mais novo num jantar em casa de amigos, felicíssimo diante de um prato de bife, a fazer-me passar vergonhas: «Em casa do pai só se come cereais e filetes Capitão Iglo.» Confesso que a cozinha foi a minha maior derrota. A certa altura entreguei os pontos e tornei-me cliente da loja de comida feita que, oh sorte, tenho no prédio. Nesse capítulo, a ajuda de meus pais foi valiosa no início. Hoje, cereais, iogurtes e atum em água, quando quero armar-me em saudável, continuam a ser essenciais na despensa.

Mas também havia de ter a casa aceitável, para os rapazes e para mim, e isso foi uma aprendizagem. Eu, filho único, que não sabia fazer nada, estragado por minha mãe e pela minha ex-mulher.

Na verdade, viver sozinho fez-me bem, tornou-me autónomo, nas coisas mais prosaicas da vida, para as quais não tinha jeito ou treino. Mas desenrasquei-me. De tal forma que uma vez minha mãe disse-me: «Surpreendeste-me, sabes?» Respondi-lhe, com ternura, que aquilo não era bem um elogio, mas a verdade é que me surpreendi a mim próprio quando de repente me descobri a viver sozinho e a sentir-me muito bem com isso.

Entretanto, já éramos três homens que se cruzavam lá em casa e com o Sexo dos Anjos, na rádio, em 1989, e depois os programas de TV, a minha vida tornou-se demasiado pública e senti ainda mais a necessidade de ter o meu canto, os meus livros, a minha música.

Viver sozinho é diferente de viver só, e eu nunca vivi só. Além dos filhos e de meus pais, os amigos, verdadeiros portos de abrigo, e os amores. Mas somos animais de hábitos, habituamo-nos a viver sozinhos e depois é difícil despir esse fato. Às tantas, a opção também passa pelo respeito pelo outro: que teria de se adaptar às nossas manias, aos nossos horários, às nossas rotinas, à nossa necessidade de tempo e espaço e silêncio. E, feita essa opção, ou desenvolvemos relações amorosas com alguém para quem isso é aceitável ou as relações não duram.

(Agora é o psi a falar e numa análise a posteriori) Terão existido na minha vida um ou dois relacionamentos que terminaram oficialmente por isto ou por aquilo e que, muitos anos volvidos, percebo que o fim se deveu ao facto de a outra pessoa ter um projeto de vida em comum, com filhos, e eu não pôr a hipótese de deixar de viver sozinho. Numa situação destas, o outro dificilmente escapa a um pensamento: «Não gostas de mim o suficiente para…»

Olho o espelho com muita paz. De tal forma que não só vivo sozinho, como faço um período de férias completamente sozinho, para fazer reset, como se diz agora, nunca é muito tempo, mas se pudesse nem a mim me levava!

Ana Zanatti
[Fotografia de Paulo Spranger/Global Imagens]
ANA ZANATTI, 67 ANOS, ATRIZ E ESCRITORA
Solteira, tem dois gatos chamados Pessoa e Papaia, vive em Cascais, numa casa com cinco assoalhadas.

Viver só foi talvez das maiores descobertas que fiz, já tarde na vida, e que me trouxe um conhecimento de mim muito mais amplo, um grande passo em frente para a minha autonomia, a perceção de ser uma excelente companheira de mim mesma e, simultaneamente, a aprendizagem de que uma vida a dois deve ser vivida não por carência mas por abundância.

Levou tempo até desfrutar da verdadeira experiência de viver só. Desde que saí de casa dos meus pais, a vida foi-se desenrolando de relação em relação com pausas relativamente breves. Mas podiam ser breves e eu tirar partido dessa experiência. Não era o caso.

Fiz parte, durante muitos anos, daquele grupo de pessoas para quem a vida só faz verdadeiramente sentido se a vivermos a dois. No meu entender era apenas pelo prazer de trocar afetos, ideias, partilhar experiências, dividir os prazeres do lado lúdico da vida, ter um projeto comum, construir algo de sólido em parceria. Mas percebi, com o tempo, que algo mais se atravessava neste caminho que idealizava em comum com alguém, algo que por vezes minava as relações como uma discreta grilheta que, silenciosa, nos vai apertando e retirando autonomia, liberdade, espaço, ar. Essa perceção de algo que não sabia definir tinha um nome: carência.

E foi apenas ao passar pela experiência de viver só durante uns anos que descobri que enquanto não estivesse apta a dar a mim mesma o que tantas vezes procurei numa relação não poderia viver uma relação de forma livre, equilibrada, paritária, adulta. Continuo a ser defensora da ideia de que a vida inteligentemente partilhada pode ser não só um grande conforto afetivo e espiritual como um enorme estímulo e fonte de alegria, mas, a meu ver, essa dimensão só se cumpre se ambas as pessoas não precisarem de ir buscar à relação aquilo que não são capazes de dar a si mesmas. Atenção, amor, cuidados. Parece-me pouco saudável ficarmos na dependência de outros para que preencham os nossos vazios.

É dentro de cada um de nós que se encontram os recursos para sermos adultos autónomos e livres, para criarmos dimensão interior que nos enriquece e nos torna capazes de dar, sem ansiar receber, de amar em liberdade, sem nos deixarmos aprisionar ou aprisionar alguém.

Nas sociedades menos sexistas, temos vindo a assistir gradualmente a relações de menor dependência económica por parte das mulheres, o que lhes garante maior liberdade e autonomia. No entanto, pergunto-me se demasiadas relações não assentam ainda na dependência emocional quer de um quer de outro, sendo certo que a autonomia financeira apenas facilita mais os rompimentos para uma rápida busca de novas relações dependentes onde se procura apenas o preenchimento de um vazio qualquer.

Se viver só é uma aprendizagem, a vida a dois não o é menos, e quando já estamos capazes de o conseguir, pode ser uma experiência maravilhosa e não o pesadelo que é a vida de muitos casais.

Porque é que viver sozinho é uma revolução? Leia aqui.