OPINIÃO

Viajar e trabalhar: a combinação perfeita

Há cada vez mais pessoas a viajar sem deixar o trabalho de parte.

Um computador, uma boa ligação wi-fi, trabalho freelancer e espírito de aventura. Este é o kit de sobrevivência dos nómadas digitais, uma geração que trabalha e viaja ao mesmo tempo.

Este texto poderia ter sido escrito num espaço de cowork em Bali, num café em Copenhaga, numa praia das ilhas Fiji, no Brasil, na floresta da Amazónia. Na verdade, em qualquer lugar onde existisse ligação wi-fi e um computador. Não foi, mas poderia ter sido. Este desprendimento com o local onde se trabalha, aliado à vontade de conhecer o mundo, é o que move uma geração de pessoas que trabalham remotamente.

Com o desenvolvimento da internet, a obrigatoriedade de os elementos de uma empresa estarem confinados ao mesmo espaço deixou de existir e já há negócios que são geridos inteiramente via online. Ferramentas como o Skype ou o Facetime permitem reuniões, que duram horas, com pessoas em diferentes pontos do mundo, e o Google Docs ou a Cloud acabam por ser a forma mais usada para organizar a informação.

Parece irresistível a ideia de acordar numa praia fantástica, poder trabalhar e não ter horário fixo das 09h00 às 17h00. Mas, na prática, como se consegue? «Com espírito empreendedor e não tendo medo do risco e de novos desafios constantes», diz Joana Casaca Lemos, 32 anos, designer de comunicação que trabalha remotamente desde 2012. Sempre trabalhou por conta própria e com clientes internacionais, por isso não foi uma decisão difícil deixar o apartamento em Londres, guardar todos os pertences num armazém e viver a tempo inteiro como nómada.

Sérgio Fernandes, 36 anos, informático, concorda que é preciso espírito empreendedor para abraçar este estilo de vida, mas não acredita que haja um perfil definido para viajar e trabalhar ao mesmo tempo. Realça apenas que a profissão influencia bastante esta escolha: «É preciso ter a possibilidade de estar ligado a uma ocupação da era digital.»

Em 2012, Sérgio trocou o fato e gravata por chinelos e calções e mudou-se para a praia, tornando-se freelancer. Tal como Joana, Sérgio trabalha apenas com empresas internacionais (Estados Unidos, Reino Unido e Austrália) já que, em Portugal, encontra alguns obstáculos porque «as empresas portuguesas ainda acreditam que quem trabalha de um espaço de coworking ou em casa não trabalha».

Vão-se notando, no entanto, algumas mudanças (pequenas) neste paradigma e Sérgio é otimista em relação ao futuro: «Acredito que no espaço de dois ou três anos as empresas consigam abrir os olhos para este tipo de trabalho e comecem a considerar as equipas de trabalho virtuais com todas as mais-valias que isso engloba, quer para a entidade patronal quer para o empregado.» Para Joana, a ideia de que quem não está num escritório não trabalha está «longe de ser verdade» e defende que, «a nível pessoal, é preciso muita disciplina e rigor. E, sobretudo, é preciso manter uma boa relação com os clientes».

Inspirado em plataformas existentes noutros países, Sérgio decidiu fundar a Digital Nomads Portugal (DNP), uma comunidade e rede social para nómadas digitais baseados em Portugal, freelancers, trabalhadores remotos e empreendedores online.

«Esta tendência está a crescer mundialmente» e a ideia é «o DNP funcionar como um hub de informação entre o que acontece no mundo inteiro com os digital nomads e remote workers. É incrível a quantidade de nómadas digitais e empreendedores digitais que estão neste momento na Tailândia (Chiang Mai e Ko Lanta), em Bali (Ubud), na Gran Canária (Las Palmas), etc.».

Pieter Levels, 28 anos, programador e empreendedor que já lançou mais de uma dezena de apps, vai mais além ao afirmar que «em 2035 vão existir mil milhões de nómadas digitais», num estudo apresentado na conferência Digital Nomad Global Conference, em 2015 (em setembro deste ano, o encontro vai realizar-se em Lisboa).

Um dos argumentos para sustentar este crescimento baseia-se na mudança de objetivos a longo prazo: «Em 2035, menos de quarenta por cento das pessoas serão casadas (Pew Research Center, 2015). É estranho pensar nisso, porque costumava ser uma coisa natural casar, comprar casa, ter filhos. Com o declínio do casamento, há também uma diminuição na compra de imóveis e nos empréstimos que te limitam por 30 ou 40 anos.» Além disso, há também a questão de que viajar pelo mundo tornou-se mais fácil e barato. «Se ganhas 2000 dólares por mês, podes viajar muito com este dinheiro. Podes ir a Xangai, Tóquio, de volta a Lisboa segues para Nova Iorque. No futuro, poderás viajar pelo mundo em apenas um mês», prevê Pieter.

O programa Remote Year não demora um mês. Trata-se, em vez disso, de um ano a viajar pelo mundo e trabalhar em várias cidades. Esta empresa sediada em Chicago criou o projeto, em 2015, que agrega profissionais dos cinco continentes e que fornece as condições (alojamento e local para trabalhar) para que estes se tornem nómadas digitais. Cerca de cinquenta pessoas, um ano, 12 lugares, um mês em cada cidade. A premissa é aliciante.

O americano Mike Stevens, 28, a escocesa Kirsty Kirkhope, 31, ou os australianos Emily Ryan e Rob Weston estão de momento em Lisboa ao abrigo do programa, e não poderiam estar mais satisfeitos. «O Remote Year era a opção ideal. Eu não queria deixar a minha carreira. Os meus clientes estão em Singapura e em Londres, por isso posso fazer o meu trabalho através da internet sem problema», conta Emily, produtora sénior de Melbourne que identifica a capital portuguesa e Praga como «as cidades onde me imaginava a viver».

Com um percurso semelhante, Kirsty e Mike também mantiveram os postos de trabalho, mas tiveram de se adaptar: «Estive mais de seis meses para conseguir convencer a minha empresa a deixar-me vir nesta aventura. Tive de me comprometer a arranjar novos clientes/contactos nos países por onde passava», conta Kirsty, digital marketeer com clientes na Ásia e na Europa que se tornou «muito mais confiante» nas suas capacidades com esta experiência.

Para Mike, programador e fundador da startup SEVO, as saudades de casa ainda não são um problema. «Estou habituado a viajar. O mais difícil é criar laços nos locais e ter de me despedir ao fim de 30 dias. Já houve cidades onde queria ter ficado mais uns tempos», diz.

Rob, que se despediu de um dos maiores bancos da Austrália para fazer o Remote Year, diz que o maior desafio «é tentar balançar a vontade de ver tudo, viajar pelo país e trabalhar ao mesmo tempo».

No total, o ano em viagem custa 27 mil dólares (cinco mil de entrada e dois mil por mês), um valor que pode intimidar, à partida, mas que Rob considera justo já que inclui a estada e todas as viagens. «Só não incluí encontrar empresas.» A verdade é que a maior parte das pessoas já vêm com trabalho garantido, aliás, essa é uma das premissas na seleção do grupo. «Temos uma preocupação grande em escolher pessoas que tenham já alguma experiência profissional e que estejam à vontade com a distância», explica Rob, que entretanto se tornou community manager para o Remote Year.

Sem estar restringida a prazos, Joana está prestes a viajar para o Senegal, onde vai ficar uma temporada a trabalhar num projeto e, na segunda metade do ano, em Doha, Qatar. É o que sabe, para já, e isso chega-lhe. O resto vai descobrindo pelo caminho porque, afinal, é aí que está o segredo.

 

VIVER REMOTAMENTE: OS NÚMEROS
Em 2015, o site Welance realizou um estudo sobre a tendência do nomadismo digital, com plataformas do meio como a ShareDesk, Coconat, Teleport, Kumbayja e Sun&Co, entre outras. Ao todo, falaram com 500 pessoas de diferentes nacionalidades. Os resultados apontam para que 64 por cento dos nómadas digitais sejam do sexo masculino e mais de metade serem comprometidos (55 por cento dos inquiridos afirmaram estar numa relação, na altura). Nas profissões, os programadores estão em primeiro lugar (33 por cento), seguidos pelos marketeers (29 por cento) e designers (18 por cento). Em relação à média de idades, 33 por cento estão entre os 31 e 36 anos, 29 por cento têm entre 26 e 30 e, surpreendentemente, 18 por cento ultrapassavam os 35 anos (37-45). O estilo de vida nómada parece ser altamente compensador com 85 por cento a admitir estarem muito felizes com a decisão.

Ana Patrícia Cardoso
Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens