OPINIÃO

Urban Sketchers: mostrar o mundo, um desenho de cada vez

Os Urban Sketchers são um movimento mundial que junta gente cuja paixão é ilustrar aquilo com que se cruza no caminho. Existem há dez anos e o grupo português, um dos primeiros a ser criado, junta mais de 500 elementos. Uma grande família que vai desenhando o mundo.

Texto Sofia Teixeira

Quando rumou a Seattle, EUA, em 2006, o jornalista e ilustrador catalão Gabriel Campanário sentiu-se perdido naquela imensidão, tão diferente da Barcelona natal. Desenhar a cidade foi a forma que encontrou de a sentir como sua à medida que edifícios, parques e cenas do quotidiano ganhavam forma através das linhas.

Gabriel acabou por convencer o editor do The Seattle Times a fazer acompanhar os seus artigos com ilustrações em vez de fotografias – afinal, antes da fotografia, era com desenhos que se ilustravam as notícias. Este aparente passo atrás foi um gigante passo em frente que tornou a sua coluna a mais lida do jornal e fê-lo começar a receber contactos de todo o mundo.

Atualmente, há mais de 120 mil membros do movimento Urban Sketchers, com grupos nacionais em dezenas de países. Respeitam um manifesto que estipula que todos os desenhos devem ser feitos no local, a observar a realidade.

Criou uma conta no Flickr para partilhar o trabalho, começou a receber contribuições dos quatro cantos do globo, criou um blogue e um manifesto sobre o desenho de observação. E o que começou com um expatriado a mostrar a sua visão da nova cidade tornou-se um grupo com mais de 120 mil membros, movimentos nacionais em dezenas de países e mais de 170 grupos regionais.

O grupo português foi um dos primeiros a ser criado, em 2009 – pela mão de Eduardo Salavisa e Mário Linhares – e tem cerca de 500 elementos ativos. Grupo, coletivo, movimento, tribo urbana, família, um conjunto de pessoas que gostam desenhar a vida nos seus diários gráficos – e que, seguindo as regras do manifesto, desenha in situ, registando fielmente o que observa para publicar no blogue do movimento. Oue se pode partilhar é quase infinito, mas a cada novo post estão mais perto do grande desafio: «Mostrar o mundo, um desenho de cada vez.»

Mário Linhares

Mário tem 37 anos e a sua história com o desenho começou em criança, mal soube agarrar num lápis. «Lembro-me de estar em casa e abrir livros para tentar copiar as ilustrações.» Estudou em Belas-Artes e fez Design de Equipamento, sendo hoje professor das disciplinas de Desenho e Educação Visual num colégio privado.

É ferozmente contra a ideia de «não se ter jeito» para o desenho. «Gosto de fazer a analogia com o aprender a escrever. Todos aprendemos. Depois, com as mesmas palavras há quem faça coisas de exceção, como poesia, e quem as use pouco ou com menos habilidade. Com o desenho acontece o mesmo. O problema nunca é aprender a desenhar, tal como com a escrita o problema nunca é aprender a escrever palavras.»

Mário foi cofundador do movimento dos Urban Sketchers em Portugal e coordenou-o até 2014. Ligado ao grupo internacional desde 2011, assumiu, a convite de Gabriel Campanário, as funções de diretor de educação em 2013. A job descrition do cargo é ambiciosa: pôr as pessoas mundo fora a desenhar. Tem à sua responsabilidade a organização do simpósio anual e dos muitos workshops com a chancela do grupo por todo o mundo, uns por iniciativa do movimento, outros em resposta a propostas que chegam semanalmente. «A última veio de Riga e pretende levar até à Letónia um instrutor de desenho indonésio.» São muitas horas semanais de trabalho feitas por amor à camisola ou, neste caso, por amor ao desenho, uma vez que o cargo é exercido em regime de voluntariado.

Um urban sketcher não é um artista, é um autor. «Autointitularmo-nos artistas faria cair por terra o lado despreocupado caraterístico da atividade», diz Mário Linhares.

Um urban sketcher não é um artista, alerta, é um autor. «Não há a pretensão de estar a fazer arte. Isso não quer dizer que o que fazemos não venha depois a ser considerado arte pelos outros, mas autointitularmo-nos artistas faria cair por terra o lado despreocupado caraterístico da atividade.» De resto, desenhar é sobretudo um vício que nem sempre se controla. «Às vezes acontece-me ir no metro ao final do dia, cansado e sem vontade de desenhar, mas senta-se alguém no banco em frente ao meu que torna impossível não tirar o caderno da pasta.»

Desenhos preferidos não tem, mas há alguns com os quais há uma relação emocional diferente. É disso exemplo o caderno em que durante quase nove meses desenhou todas as semanas, aos domingos, a evolução da gravidez da mulher, Ketta Cabral Linhares – também ela urban sketcher. «Há coisas que se não desenhamos na altura, já não desenhamos.»

Depois há outras experiências marcantes, pela história que encerram. Na Costa do Marfim, em 2013, durante uma viagem de um mês que fez ao país com a mulher – e que deu origem ao livro Diário de Viagem – Costa do Marfim – pediu a um homem que fazia prospeção de ouro numa mina a céu aberto para o desenhar e começou o trabalho. Quando deu por isso, todos os outros homens tinham parado de trabalhar e estavam agrupados a olhá-lo. E assim ficaram meia hora porque nunca tinham visto nascer um desenho de uma folha de papel em branco. «Foi um momento em que o desenho era mais raro do que o ouro.»

Cláudia Mestre

Já em criança era a miúda do grupo que andava sempre com um caderno atrás. Nessa altura não para desenhar, mas para escrever, fazer colagens, guardar os bilhetes de sítios onde ia. «Houve desde cedo esta vontade de ter um sítio onde estavam reunidas memórias e vivências.» Hoje com 43 anos, esta professora de Educação Visual e de Educação Tecnológica do Seixal garante que o desenho faz de tal forma parte da sua vida que não contabiliza o tempo que lhe dedica. «Da mesma forma que também não contabilizo o tempo que passo a comer ou a tomar banho.»

Adora a profissão porque junta duas das coisas que lhe são mais queridas: as artes e o trabalho com crianças. «As crianças são inseguras no desenho e eu gosto – e acho que consigo – ajudá-las a terem autoestima. A largarem a ideia de que “não têm jeito” para desenhar.» Acredita que enquanto desenham, os miúdos estão a reunir uma série de competências importantes: a aprender a ser mais observadores, treinar a concentração, a adquirir mais uma forma de expressão, a reunir registos do que fazem, a melhorar a autoconfiança.

«Além disso, os diários gráficos podem ser um amigo», defende. E são uma forma de transformar tempos mortos numa fonte de prazer. «Ainda hoje de manhã estava na sala de espera de uma clínica para fazer uns exames, comecei a desenhar e, em vez de me aborrecer por estar à espera, dei por mim a pensar: “Tomara que não me chamem, para ter tempo de acabar.”»

«Temos tendência para reparar na beleza das coisas só quando elas são fora do comum ou estamos de férias. O desenho por observação é uma porta para perceber que todos os dias são especiais, basta estar atenta», diz Cláudia Mestre.

Sempre desenhou, mas foi quando se cruzou com o movimento dos Urban Sketchers, em 2009, que começou a fazer mais desenho de observação, uma atividade que fez toda a diferença na forma como olha a vida. «Temos tendência para reparar na beleza das coisas só quando elas são fora do comum, quando estamos de férias ou em ocasiões especiais. O desenho por observação é uma porta para perceber que todos os dias são especiais, basta estar atenta.» A mudança das estações do ano, uma árvore no Príncipe Real, a avó no lar, o marido no sofá, a filha a desenhar no chão, os alunos no final do ano ou a zona ribeirinha do Seixal são alguns dos momentos quotidianos especiais que regista nos seus cadernos.

Os desenhos saltam dos diários gráficos para outras peças. Cláudia é beachcomber – recolhe na praia objetos para reciclar ou reutilizar – e apanha muitas vezes tábuas e pedaços de madeira que reaproveita para desenhar e pintar. A reciclagem é tão importante que também «recicla» os próprios desenhos. «Gosto de pegar nos diários e gostar de tudo. Por isso, respeito as normas do manifesto (nomeadamente desenhar no local), mas se há um desenho de que não gosto, faço uma pequena batota: reciclo, fazendo por cima um novo desenho que esconda o que estava por baixo.»

Filipe Pinto

O desenho preferido de Filipe é sempre o último. «Terminar um desenho está associado a alguma excitação, a alegria e depois a uma certa análise crítica – que pode trazer desapontamento. Por isso, o último desenho é sempre aquele que está mais presente na memória», conta Filipe Pinto, técnico superior de informática, de 56 anos. Desde cedo teve interesse pelo desenho e pelas artes. Ao mesmo tempo que começava a carreira na área da informática fez formação na área do desenho gráfico e digital. Anos mais tarde interessou-se também por pintura a óleo. «Mas ia-me sempre interessando pelas coisas e largando passado pouco tempo, até, mais recentemente, ter chegado ao desenho de observação.»

Desde que descobriu os Urban Sketchers, há cinco anos, desenha praticamente todos os dias e todos os momentos são aproveitados para puxar do caderno e da caneta. «Desenhar no local é muito mais absorvente. É uma representação de como nós olhamos e interpretamos o espaço, o movimento e a passagem do tempo. Talvez por isso, quando se está a desenhar, entra-se numa bolha e esquece-se de tudo.»

Esta possibilidade de esquecimento que o desenho lhe oferece contribuiu para ter investido tanto nele. Foi – também – uma reação às infelicidades da vida. «Surgiu na altura em que fiquei viúvo e foi uma forma de ajudar a atenuar a dor. Funcionou como uma terapia, uma forma de me abstrair e de achar momentos de relativa paz.»

«Desenhar no local é muito mais absorvente. É uma representação de como nós olhamos e interpretamos o espaço, o movimento e a passagem do tempo. Talvez por isso, quando se está a desenhar, entra-se numa bolha e esquece-se de tudo», diz Filipe Pinto.

Como todos os outros Urban Sketchers, anda sempre preparado para desenhar. Carrega consigo para todo o lado o caderno, as canetas e aguarelas – os materiais que usa com mais frequência – porque nunca se sabe onde e quando vai surgir uma coisa que prende o olhar. «Às vezes, saio de casa ou do trabalho com um destino definido, por exemplo, em resposta a algum desafio que tenha sido lançado no nosso blogue. Outras vezes vou sem destino, à espera de ser surpreendido.» Mas, mesmo quando não está a desenhar, confessa que está constantemente a fazer desenhos mentalmente, à procura de enquadramentos, de pontos de interesse.

Não há nenhum sítio que ainda não tenha desenhado que fizesse especial questão de desenhar, mas há um projeto que ainda não surgiu e do qual gostaria muito: desenhar retratos de pessoas. «Por norma, as pessoas que surgem nos meus desenhos são figuras que estão de passagem. Gostava de me sentar a conversar com pessoas e ouvir a história delas ao mesmo tempo que as desenho. Também para tentar perceber de que forma posso, através do desenho, representar aquilo que as pessoas são.»

O grupo é uma família. «Aqui não há política, não há raça, não há idade, não há uma agenda escondida, não se tenta vender uma mensagem a ninguém. É um campo neutro onde somos apenas o nosso gosto pelo desenho e, por isso, todos iguais.»

Celeste Vaz Ferreira

Para Celeste, os desenhos não são só desenhos, são histórias. Mostra um pequeno bloco onde se veem uns percebes à esquerda e uns camarões à direita, com data de 12 em setembro de 2015. Mas onde nós vemos apenas o desenho hiper-realista de percebes e camarões, ela vê o último almoço com a prima Midu que morreu inesperadamente poucos dias depois.

No hall de entrada de casa tem pendurados alguns trabalhos a carvão datados de 1917 feitos pela avó Berta, que tinha formação artística e foi uma das figuras centrais na sua vida. Foi a avó que a ensinou a desenhar? «A avó ensinou-me mais a ver do que a desenhar.»
Com 5 ou 6 anos, já via mundo numérico por cores: zero é branco, um é preto, dois é amarelo. Chama-se sinestesia e consiste em estabelecer uma relação entre planos sensoriais diferentes. «Era apanhada a fazer contas de cores: somava os números e dizia qual era a cor que dava ou juntava as cores e punha o resultado em números. Lembro-me de que havia nos lápis da Viarco um rosa-velho, e aquela cor para mim era o número 13.» Ainda hoje, com 56 anos, faz estas associações sempre que olha para números ou cores e demorou muito tempo a perceber que a maioria das pessoas não a faz.

«O desenho é, sempre foi, uma extensão de mim. Uso o desenho para explicar ideias, para fazer presentes e as minhas listas de supermercado não são escritas, são desenhadas porque é mais rápido para mim desenhar do que escrever», diz Celeste Vaz Ferreira.

Licenciou-se em Design, depois estudou Arquitetura. Trabalha em reabilitação de casas e edifícios, mas não gosta de ser definida pela profissão e gosta menos ainda que insinuem que o «jeito» para o desenho vem daí. «O desenho é, sempre foi, uma extensão de mim. Uso o desenho para explicar ideias, para fazer presentes e as minhas listas de supermercado não são escritas, são desenhadas porque é mais rápido para mim desenhar do que escrever.»

Garante que não é o desenho profissional que a ajuda a fazer melhor o desenho de observação, mas antes o contrário, e define o urban sketching como o seu recreio. «Sketch pode ser traduzido como esboço, estudo ou esquisso e é transversal a qualquer tipo de desenho. Tudo parte deste estudo inicial, que depois pode servir para fazer um quadro a óleo, um vestido, uma casa. Para mim, o brilhante do urban sketching é não fazer nada com esse estudo a seguir. Sou só eu a lutar comigo mesma para fazer o meu registo o melhor possível.»

Começou a fazer diários gráficos em 2008, inspirada pelos carnet de voyage (cadernos de viagem) que sempre adorou. «Acho fantástico como as imagens dos carnet de voyage retêm a emoção de um local e de um momento, uma forma única daquela pessoa ver, diferente da minha.» Em 2013, quando se juntou aos Urban Sktechers, o grupo tornou-se para ela uma família e desenhar em grupo é um dos maiores prazeres. Mas se tivesse de resumir de alguma forma a relação com o desenho, fazia-o assim: «Porque é que desenho? Porque gosto de celebrar a vida.»

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