OPINIÃO

Uma casa de dois quartos onde moram 43 pessoas

Aquele apartamento de dois quartos onde vive oficialmente uma aldeia inteira é o sítio onde 43 pessoas podem receber correspondência e construir a vida com que sonharam quando partiram.

 

Há uma mercearia asiática no cimo da minha rua onde costumo ir comprar tabaco e trocar uns dedos de conversa com o Tommy. Apesar de ele ser do Bangladesh, onde o desporto nacional é o críquete, é um apaixonado por futebol em geral e pelo Benfica em particular.

Uma vez apanhou‑me a caminho do estádio com cachecol vermelho na mão e desde então discutimos bola. Há qualquer coisa de gratificante em falar de futebol com alguém que só depois de adulto começou a perceber o desporto. Mesmo que não sejamos nenhuma enciclopédia ambulante, levamos de vantagem umas centenas de jogos vistos. Também falamos da família que ele deixou em Daca, da sua crença no islão, dos planos que tem para se legalizar e abrir o seu próprio negócio.

Há uns dias perguntei‑lhe se ele vivia ali, na mercearia. Atrás das estantes há uma divisão onde nunca entrei mas que sempre calculei servir de quarto aos três rapazes que ali trabalham. «Oficialmente não», respondeu‑me ele. «Como é que eu podia legalizar‑me se vivesse numa mercearia?»

E então começou a contar‑me esta história que é dele e é de uns quantos milhares de estrangeiros que vivem em Portugal.
Para efeitos formais, Tommy vive numa casa com mais 42 pessoas. Mostrou‑me o endereço e passados uns dias verifiquei que conheço o prédio, em tempos fiz ali uma reportagem.

O edifício é composto exclusivamente por casas com dois quartos e, apesar de haver vários grupos do Bangladesh em clara sobrelotação, é fisicamente impossível albergar mais de uma dezena de almas em cada residência. Naquele lugar, explicou‑me ele, vive apenas uma família. Estão legalizados no país, têm emprego e têm um dos mais preciosos bens a que um imigrante pode aspirar: um contrato de arrendamento.

Tommy nunca viveu ali, mas só dorme na mercearia há umas semanas. É provisório, insiste. O que aconteceu é que a casa que partilhava com mais cinco rapazes do seu país foi posta a alugar a outros estrangeiros, os que pagam mais por uma semana do que eles num mês. Não tinham contrato e receberam ordem de despejo. Acontece muito, disse‑me ele, acontece cada vez mais. E é por isso que a sua morada não é morada nenhuma.

Tommy e os outros são imigrantes que querem obter vistos de residência ou nacionalidade portuguesa. Todos trabalham, a maioria até tem contrato, fazem descontos, tudo certo. Mas a casa é um martírio. Poucos são os senhorios que alugam a casa a imigrantes – nas mais das vezes com o argumento de que não querem as suas propriedades transformadas em dormitórios a rebentar pelas costuras, onde não cabe nem uma cana de pesca.

Segundo os últimos Censos, a taxa de sobrelotação das casas onde vivem imigrantes asiáticos e africanos é de 56,1 e 60,9 por cento, respetivamente. Nos alojamentos portugueses, a percentagem é de 22,3. Quase todos os Tommys alugam propriedades sem contrato, informalmente, pagando renda mas sem receber qualquer comprovativo. O problema é que, se não tiverem casa, não podem legalizar‑se.

Então aquele apartamento de dois quartos onde vive oficialmente uma aldeia inteira é o sítio onde 43 pessoas podem receber correspondência e construir a vida com que sonharam quando partiram. Quando me despedi do meu amigo do Bangladesh pus‑me a conversar com os meus botões e fiquei a pensar que se calhar aquela casa é mesmo a casa de Tommy, ainda que ele nunca lá tenha dormido uma noite. Os nossos abrigos, em boa verdade, são muito mais do que paredes e teto.

 

[Publicado originalmente na Notícias Magazine de 03/09/2017]