OPINIÃO

Uma análise ao sangue para o diagnóstico de depressão?

Uma equipa do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto está a criar um kit que deteta a depressão através de uma análise ao sangue. A subjetividade das entrevistas clínicas pode ser colocada de lado. Os resultados são analisados por um algoritmo e fornecidos em dois dias, no máximo. Mudanças à vista no diagnóstico de uma doença que mói a cabeça.
análise sangue

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografia de Shutterstock

É um teste biológico quantificável, que não depende das capacidades cognitivas dos doentes nem das perguntas dos médicos, que é feito a partir de uma análise ao sangue e os resultados, analisados por um algoritmo, são revelados entre 24 a 48 horas após essa colheita.

Detetar a depressão com uma pequena amostra de sangue é a ideia de uma equipa de três investigadoras, Maria Inês Almeida, Susana Santos e Inês Alencastre, do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, e de Sofia Esteves e Bárbara Macedo da Unidade de Transferência de Tecnologia do Instituto.

Esta ideia que melhora a precisão do diagnóstico e permite a monitorização da doença, levando à diminuição da prescrição de antidepressivos, foi selecionada para participar no programa COHiTEC, iniciativa da COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação, que apoia os participantes escolhidos na avaliação do potencial comercial dos produtos ou serviços resultantes das tecnologias desenvolvidas.

A equipa do i3S acredita que é possível retirar subjetividade ao diagnóstico da depressão que atinge mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo.

A equipa MyRNA Diagnostics – Biomarcadores Moleculares em Diagnóstico de Doenças acredita que é possível retirar subjetividade ao diagnóstico da depressão que atinge mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo.

«O diagnóstico da depressão é atualmente baseado em entrevistas clínicas que são subjetivas e dependem de um bom relacionamento entre médico e doente. Os prestadores de cuidados de saúde mental sentem necessidade de utilização de métodos sensíveis e específicos para melhorar a percentagem de pacientes com depressão que recebem tratamento eficaz», adianta Inês Almeida, em declarações ao site da Notícias UP da Universidade do Porto.

Susana Santos, por seu turno, explica que se trata de um kit «para detetar e quantificar um painel específico de biomarcadores moleculares numa amostra de sangue, o que permite um diagnóstico quantitativo e uma melhor monitorização da doença».

A solução permite aos clínicos basear a suas decisões terapêuticas num teste biológico quantificável, diminuindo a prescrição excessiva e melhorando a precisão do diagnóstico.

Trata-se de um outro método, inovador para a depressão, e diferente das entrevistas clínicas que acabam por ter uma dose de subjetividade inerente a esse processo. «O nosso produto não depende do operador nem das capacidades cognitivas do doente. Os resultados são analisados por um algoritmo e são fornecidos dentro de 24 a 48 horas após a colheita de sangue. A solução permite aos clínicos basear a suas decisões terapêuticas num teste biológico quantificável, diminuindo a prescrição excessiva, melhorando a precisão do diagnóstico e permitindo a monitorização da doença durante a terapêutica», acrescenta Inês Alencastre.

O kit para diagnosticar a depressão através de uma análise ao sangue tem muitas hipóteses de chegar ao mercado, aos pacientes. No programa COHiTEC, as cinco investigadoras adquiriram conhecimentos em marketing, finanças, propriedade intelectual, bem como a elaborar um plano de negócios e a comunicar ciência para fora da comunidade científica. Agora é tempo de concretizar o que está no papel e ajudar a comunidade científica a detetar a depressão de uma forma mais objetiva e rápida.