OPINIÃO

Um fenómeno do Entroncamento no Festival de Cinema de Locarno

Por estes dias, o Festival de Cinema de Locarno recebe o mais novo realizador português de sempre em eventos internacionais do género. Pedro Cabeleira começou a preparar a primeira longa-metragem, «Verão Danado», aos 21 anos. Sem dinheiro, com a ajuda de um coletivo da zona central do país, o jovem cineas­ta do Entroncamento contou uma história de perdição lisboeta na noite e nas drogas.

Texto Rui Pedro Tendinha Fotografia Diana Quintela/Global Imagens

Um aspirante a futebolista que um dia se tornou autor de cinema é o único cineasta português com uma longa-metragem presente no Festival de Locarno, que começou este fim de semana na cidade suíça. Curiosamente, aos 25 anos, é também o mais jovem
realizador do país num evento destes.

O guarda-redes da equipa de juvenis do CADE, o clube de futebol do Entroncamento, queria seguir os passos de Bento, o seu ídolo, e chegar à baliza do Benfica. Mas, aos 17 anos, uma lesão no joelho traiu-lhe o sonho. Foi nessa altura que pensou noutras saídas. Pedro Cabeleira foi entretanto estudar para a Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Oito anos depois, chega a um dos mais importantes festivais de cinema europeu. Perdeu-se uma esperança dos relvados, ganhou-se uma forte esperança da sétima arte.

Só por isto, a história já valeria a pena. Mas ainda fica melhor. Para fazer a primeira longa-metragem, Cabeleira tinha apenas mil euros, que os pais, professores do ensino básico, lhe deram. O orçamento não era curto. Era mínimo. Mas isso não o impediu de fazer Verão Danado, um estrondo ruidoso em modo de cinema de guerrilha e com a ajuda dos colegas de curso e outros amigos do cinema que entretanto se tornaram num coletivo, a Videolotion, uma produtora que arrancou a fazer filmes sobre esta contemporaneidade e a revelar cineastas novíssimos em folha.

Verão Danado é uma das melhores primeiras obras do cinema português em muitos anos. Um relato de um jovem vindo de uma aldeia perto do Entroncamento, que se perde pela noite de Lisboa depois de terminar o curso.

Verão Danado é uma das melhores primeiras obras do cinema português em muitos anos. Um relato de um jovem vindo de uma aldeia perto do Entroncamento, o Xico, estudante de Filosofia, que se perde pela noite de Lisboa depois de terminar o curso. O filme foi feito em 2014, ano em que os jovens recém-licenciados sofriam mais na pele a falta de emprego. Mas esta é uma história sobre o presente, sobre corpos que se entregam à batida da música, do álcool e das drogas. Jovens que não pensam no futuro e que preferem escapar-se para o presente. Trata-se de um retrato real e cru sobre os estados de alheamento de uma geração que, no submundo de Lisboa, tece uma teia de afetos entre romances casuais e experiências de transe.

Xico e os amigos vão pela noite adentro. Perdem-se em festas até à tarde do dia seguinte. Consomem a Lisboa das ressacas potentes e da música desta era, da pop da editora Catrefa aos beats de Nigga Fox, passando pela Canção do Engate, de Variações. São as vivências que Pedro Cabeleira viveu quando chegou do Entroncamento e se debateu de repente com a pujança urbana de Lisboa. Ficou deslumbrado.

«Não me interessa falar de uma geração, mas sei que Verão Danado é um filme sobre pessoal da minha idade que não olha para as coisas com preconceito», diz o rea­lizador. «Se estamos a beijar uma rapariga ou um rapaz, isso são coisas que nem se pensam, sobretudo no contexto das festas que são reproduzidas. É um filme sobre jovens que estão perdidos mas que não estão mal com isso. Não é um retrato miserabilista de uma geração sem saídas profissionais. É pessoal que vive o presente, que se agarra às festas, às suas paixões e que continua a ser feliz! Na Escola de Cinema havia aquela ideia de que retratar o contemporâneo é sempre feio. Eu quis ir contra isso e retratar uma cidade cheia de ruído visual e tornar tudo isso bonito.»

«Se o filme tem algum gesto político é de ter sido feito com atores que sabiam que estavam a entrar num projeto sem dinheiro. O pessoal juntou-se, mexeu-se e criou este filme», diz Pedro Cabeleira.

Ao passar pelas ruas da cidade que o viu crescer – e pelo campo de futebol onde começou a pensar no futuro –, Pedro Cabeleira fala com alguma emoção. Gosta mesmo do seu Entroncamento, mas também admite que, agora, sete anos de Lisboa o transformaram em lisboeta. Tinha 21 anos quando escreveu o filme. Como não havia meios, Verão Danado demorou tempo a ser montado. «Sinto que fiz um filme de época: Lisboa agora tem os tuk-tuks, os putos já não consome MDMA, mas sim pastilhas, preferem o Instagram ao Facebook, temos um outro governo, etc.»

Cabeleira teve colegas que foram amigos e o ajudaram. Dois do seu curso e outros dois de outros cursos que se juntaram e fizeram a Videolotion, produtora de criativos, sediada em Lisboa, que fazem um pouco de tudo. Desta vez, uniram-se em torno da visão do realizador, para a próxima será a visão de Marta Ribeiro.

Nos atores, conseguiu ir buscar aqueles que eram colegas do Curso de Teatro da mesma escola e apanhou nomes que entretanto singraram, como João Pedro Mamede, do coletivo Os Possessos, Maria Leite, que tem feito cinema e telenovelas, ou Filipa Areosa, que há não muito tempo brilhava em A Mãe É Que Sabe, comédia de Nuno Rocha. Daqui a uns anos, ficará como um retrato também de um momento de uma geração de atores.

«Se o filme tem algum gesto político é de ter sido feito com atores que sabiam que estavam a entrar num projeto sem dinheiro. Os atores todos da minha idade foram incríveis. O pessoal juntou-se, mexeu-se e criou este filme. Nem comida consegui oferecer-lhes!» Leonor Teles, também ribatejana, vencedora do Urso de Ouro em Berlim, no ano passado, foi a diretora de fotografia e captou com firmeza as luzes alucinantes da discoteca Jamaica quando a música de dança é um caso sensual (ou sexual).

Mas Verão Danado só foi possível porque esta nova geração aprendeu a fazer filmes em modo «vamos lá fazer» unindo esforços coletivos. Cabeleira teve colegas que foram amigos e o ajudaram. Dois do seu curso e outros dois de outros cursos que se juntaram e fizeram a Videolotion, produtora de criativos que fazem um pouco de tudo. Desta vez, uniram-se em torno da visão do realizador, para a próxima será a visão de Marta Ribeiro, com a longa atualmente em rodagem, Crês Ser.

Na Videolotion são todos cineas­tas, cada um deles tem projetos em andamento, com ou sem subsídios. A ideia é acreditar que o cinema que lhes está no sangue tem de sair, com mais ou menos técnicas de guerrilha.

Porque na Videolotion são todos cineas­tas, cada um deles tem projetos em andamento, com ou sem subsídios. A ideia é acreditar que o cinema que lhes está no sangue tem de sair, com mais ou menos técnicas de guerrilha. Nas instalações do Centro Criativo da Mouraria, estão os cinco juntos a procurar soluções. São um exemplo de um espírito dessa novíssima geração que está a entrar no cinema português sem permissão nem subsídios.

Garantem também que querem fazer um cinema que não seja fiel àquilo que ouviram na Escola de Cinema, querem novidade. Graças às novas possibilidades tecnológicas e às câmaras que fazem cinema em modo low cost, mexeram-se, não ficaram à espera de padrinhos. A Videolotion quer ter esse espírito irrequieto de guerrilha criativa. Sentem que é algo comum a todos os alunos que saíram recentemente das escolas de cinema (portuguesas ou estrangeiras) e onde o nome com maior notoriedade talvez seja de uma das cúmplices: Leonor Teles.

«Tivemos de nos tornar sustentáveis para conseguir fazer todos estes projetos», diz Tiago Simões, o mais novo do coletivo. «Todos fazemos um pouco de tudo, até para não estarmos muito dependentes de outras pessoas.» Alguém um dia tem de fazer um filme documental sobre este sangue jovem…

O Homem de Trás‑os-Montes, curta-metragem de Miguel Moraes Cabral, é o outro filme português que vai a Locarno.

Locarno também terá Trás-os‑Montes

Cannes, Berlim, Veneza e Locarno. Esta é a ordem de importância dos festivais de cinema europeus. Na cidade suíça, além de Verão Danado, há outro filme português, fora de competição. O Homem de Trás-os-Montes, uma curta metragem de Miguel Moraes Cabral produzido pela Garden Films, conta a história de uma equipa de cinema que viaja para o Norte do país para fazer um documentário sobre as tradições locais. «Descobri Trás-os-Montes durante as pesquisas que fiz para a minha primeira longa-metragem documental [Os Caminhos de Jorge]. Queria perder-me em paisagens que fizessem viajar no tempo. Este filme é uma forma de continuar o outro e de contar a alegoria de uma procura numa zona do país longínqua.»

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