OPINIÃO

Tito Paris: «Antes de alguém falar de Lusofonia, já a música juntava o mundo que fala português»

O dia de Portugal também é de Camões - e se é de Camões então também é da língua portuguesa. O lançamento de um novo álbum do cantor cabo-verdiano Tito Paris é uma boa desculpa para perceber toda a lusofonia que há na música. E é muita.

Texto de Ricardo J. Rodrigues | Fotografia de Jorge Simão

Tito Paris demorou 15 anos a editar um álbum de originais e, agora que Mim ê Bô está prestes a sair (a data oficial do lançamento é 23 de junho), o cantor cabo-verdiano diz que tem pressa de avançar para o próximo disco. A conversa acontece na esplanada do Rio Maravilha, um café no quarto piso da LX Factory, com vista para o Tejo. Dali, consegue-se adivinhar um oceano que se fez língua – e uma língua que se fez música. Não fosse hoje Dia de Camões.

Como é que um autor de cantigas fica 15 anos sem lançar um disco?
Eu estive 15 anos sem lançar um disco, é verdade, mas isso não quer dizer que tenha estado parado. Fartei-me de fazer boas coisas. São 15 anos a fazer concertos, são 15 anos a conhecer o mundo. Ainda agora cheguei do Brasil e correu muito bem. Não tive qualquer pressão da minha editora, o que me permitiu fazer fazer este álbum com tempo. Quando vinha a Portugal, gravava um bocadinho, depois voltava a Cabo Verde, mas ia intercalando isto entre as tournées e o descanso. Estive na verdade 15 anos a promover a minha música e a fazer uma ponte entre a música cabo-verdiana e o mundo.

A verdade é que não é na venda de discos que um músico ganha dinheiro.
Pois não, é nos concertos. Hoje não podemos dar-nos ao luxo de ser só músicos de estúdio, temos de ir para o palco se queremos sobreviver. O que também traz um lado positivo: as parcerias que fazemos com outros músicos – uns mais novos, outros menos novos, mas ganhas imenso com essa experiência.

«Gravámos Resposta de Segredo co’ Marna sua última saída do hospital. Uns dias depois, voltou à clínica e já não saiu. Foi a última música que ele cantou. Isso é uma coisa especial para mim. O Bana cantava morna como ninguém, era o Nat King Cole cabo-verdiano.»

Neste disco há uma colaboração com o Bana, que morreu em 2013. Quando é que gravaram essa faixa?
O Bana é uma pessoa muito importante para mim, foi ele que me trouxe para Portugal aos 19 anos. Em 2012, convidei-o para cantar comigo uma morna que ele já tinha gravado há muitos anos, chamada Resposta de Segredo co’ Mar, e que era uma composição original do B.Leza de 1932. O Bana não gostava de fazer colaborações, mas aceitou esta – porque era muito difícil. Então gravámos isto na sua última saída do hospital. Uns dias depois, voltou à clínica e já não saiu. Foi a última música que ele cantou. Isso é uma coisa especial para mim. O Bana cantava morna como ninguém, era o Nat King Cole cabo-verdiano.

Também há trabalhos com o português Boss AC e o brasileiro Zeca Baleiro.
O Boss AC é como se fosse um irmão mais novo. Eu frequentava a casa dele em São Vicente, ia almoçar muitas vezes com a Ana e o Toy, os pais dele, e para mim é como se eles fossem família. O Toy, aliás, ensinou-me a tocar violão. Então esta música foi mesmo pensada para o Boss AC, eu criei-a a pensar no ritmo e na voz dele. O Zeca Baleiro, conheci em São Vicente e tocámos muitas noites juntos, fora dos palcos. Ficámos amigos, mandei-lhe a música e ele cantou em crioulo. Um brasileiro a cantar em crioulo, imagine-se. Tinha de entrar.

Como é que se alimenta isso de de tocar fora dos palcos, com amigos e só pelo prazer da música, quando se tem uma agenda cheia de concertos?
Muitas vezes, no fim dos concertos, ficamos ali no camarim a tocar violão. É muito bom, é mais íntimo, mais chegado. Tens de tocar para ti porque esse é o prazer da música. Se tens inspiração, tens de a deixar voar. Este álbum tem muito dessa inspiração, cavaquinho em vez de violino, baixo no lugar da guitarra, e a voz no início de tudo.

Vamos falar um bocadinho da cena musical que está a acontecer em Cabo Verde. Nestes 15 anos as coisas mudaram muito?
Muito. Em primeiro lugar, há uma internacionalização da nossa música. Devemos muito disso à Cesária, claro, mas também apareceram novos nomes que se afirmaram, como a Mayra Andrade ou o Tcheka…

… ou o Tito Paris.
Eu fiz os arranjos para o primeiro disco da Cesária, tenho 53 anos e já aqui estou há muito tempo. O que é interessante em nomes como a Mayra e o Tcheka é que eles não foram mexer muito na raiz da música cabo-verdiana. E está certo que assim seja, porque se mexemos muito naquilo que é autêntico, se começamos a alterar e criar uma onda muito eletrónica, vamos perder aquilo que é único.

«No final dos anos oitenta fiz parte de uma banda chamada Sons da Fala. Tínhamos músicos de Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Brasil, Angola, Portugal e São Tomé. A verdadeira bandeira da CPLP é a música.»

Em Portugal há muitos cabo-verdianos de segunda e terceira geração que estão a criar uma vaga eletrónica de grande alcance. E a vender no mundo inteiro.
Não conheço bem porque não é o meu tipo de música, mas acredito que sim. Agora também vemos jovens talentos a saírem dos subúrbios portugueses e cantarem a música cabo-verdiana de raiz, o que é um fenómeno muito interessante. Acho que isto se explica pelo fascínio que as comunidades que estão fora têm sempre pelas suas origens. A música cabo-verdiana é às vezes melhor tratada por quem vive mais longe do arquipélago.

Mas acha que a música cabo-verdiana está sob ameaça?
Em alguns casos, poucos. Às vezes vejo músicas minhas remisturadas e isso não me chateia nada. O que me chateia é quando vejo alguns jovens tentarem imitar o que se faz lá fora sem estabelecerem nenhuma ligação à cultura cabo-verdiana. Devíamos seguir o exemplo da música cubana, que sempre soube preservar-se. Na minha opinião, aliás, devia ser obrigatório o ensino da literatura e da música cabo-verdianas nas escolas.

Nota-se que há mais gente em Portugal a ouvir música africana, seja cabo-verdiana, angolana ou moçambicana. Também se ouve mais música portuguesa em Cabo Verde, por exemplo?
Sempre houve no mundo lusófono um grande interesse pela música que se faz no mundo lusófono. Há muito tempo que é assim, antes de alguém falar de Lusofonia já a música juntava o mundo que fala português. No final dos anos oitenta fiz parte de uma banda chamada Sons da Fala. Tínhamos músicos de Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Brasil, Angola, Portugal e São Tomé. A verdadeira bandeira da CPLP é a música.

 

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