OPINIÃO

«A morte não me assusta nada»

Grande entrevista à escritora Teolinda Gersão, que recebe, dia 1 de março, o Prémio Vergílio Ferreira.
Teolinda Gersão
Teolinda Gersão

Começou a publicar regularmente só aos 41 anos, quando a vida familiar e a profissional lhe deram as tréguas e a concentração de que precisava para escrever. A cada livro novo foram juntando-se prémios. Agora, aos 77 anos, recebe o Prémio Vergílio Ferreira 2017. Entre as qualidades de Teolinda Gersão destaca-se, diz o júri, «a independência relativamente a todas as modas ou tendências que, de alguma forma, condicionam os caminhos da literatura contemporânea». Uma independência que se revela também nesta conversa, que começa com livros mas avança rapidamente para outros temas. Sem tabus, dá-nos a sua visão sobre o país e o mundo, as questões éticas e quotidianas, o envelhecimento, a morte e a vida.

Nasceu em Coimbra, em 1940, mas escolheu Lisboa, em 1965, quando começou a dar aulas na Faculdade de Letras. À capital, casa desde então, dedicou o livro Cidade de Ulisses, um entre os muitos que tem publicados e premiados. O romance mais recente, Passagens, valeu-lhe o Prémio Fernando Namora 2015 e, o conjunto da obra, o Prémio Vergílio Ferreira, que será entregue a 1 de março. As relações humanas, por um lado, e a individualidade de cada ser humano, por outro, alimentam uma obra construída na ficção e na escrita – sempre à luz da antiga grafia, anterior ao Acordo Ortográfico. Formada em Germanística, Romanística e Anglística, defende que a perda da etimologia latina das palavras em português «não faz sentido». Assim como não o fazem a posição de Portugal em relação a Almaraz ou outras coisas que se passam atualmente no mundo e que vê com apreensão e realismo redobrado. Não costuma olhar para trás, viveu tudo o que podia e intensamente. Parte dessa vida está nos seus livros.

 

Que livros começou por ler?
O meu percurso foi, mais ou menos, os de todas as crianças e adolescentes. Contos tradicionais, em criança, depois a Condessa de Ségur de que gostava imenso, sobretudo dos livros que tinham que ver com a Rússia. Havia o General Dourakine, que era o meu preferido, bondoso, mas irascível e desequilibrado. Uma figura extraordinária que me parecia impossível que existisse na realidade, mas que se enquadrava naquele ambiente, porque era um mundo completamente diferente.

E a grande literatura, quando aparece na sua vida?
Cedo, porque havia livros lá em casa. Comecei a ler Eça de Queirós muito cedo.

Autor que às vezes a deixa irritada.
[Risos] Às vezes, um pouco, naquele aspeto em que ele viveu muito fora de Portugal e tem uma relação com o seu país que é um pouco idealizada. Ele ora o vê todo em sombra ora o vê todo luminoso. A Cidade e as Serras é o deslumbramento, mas de resto Portugal é a choldra, o país horrível, onde tudo falha. As pessoas são todas falhadas, terríveis, e a sociedade é horrível. Mas a escrita dele é que me fascinou desde sempre, porque era de uma ironia e de uma sedução imensa.

Como olha para o país hoje?
Tenho uma perspetiva de que as coisas podem mudar. No Eça há um certo fatalismo. Ele não acredita na mudança da mentalidade portuguesa, eu acredito. Penso que estamos a mudar e Portugal, nos últimos quarenta anos, mudou visivelmente, embora ainda haja muitos preconceitos, que acabarão por passar. Temos de chegar à maturidade em todos os aspetos. Ainda temos um complexo de inferioridade.

Do que é que ainda não conseguimos libertar-nos? Em A Cidade de Ulisses, o narrador fala do país e de Lisboa, nos anos 1980. Parece que está a falar-nos dos dias de hoje, não há muitas diferenças.
Pois não. Já por duas vezes, desde o 25 de Abril, estivemos à beira da bancarrota. Porquê? Uma revolução tem custos brutais e, hoje, olhando para trás, penso no «romantismo» da Revolução, acreditávamos que tudo ia mudar de repente e que entrávamos noutro mundo. De facto não é assim, hoje vejo isso com mais nitidez. E houve, depois, muitos erros. No fim da ditadura, tínhamos os cofres cheios e não sabemos para onde isso foi. Desapareceu tudo. Houve ali uma época de grande caos e de muitas coisas mal feitas. Uma descolonização apressada que não acautelou os direitos dos portugueses. É outra das nossas falhas, não acautelamos os interesses do país suficientemente.

Em que sentido?
Por exemplo, agora em relação à questão de Almaraz. Portugal fez papel de morto durante décadas. Essa questão tem décadas, quando Espanha começou a fazer a central nuclear perto da fronteira. Deixámos as coisas acontecerem até que de repente somos confrontados com uma realidade que é inaceitável. Depois o povo paga, mas há responsáveis. Por outro lado, a Justiça é lentíssima. Mas a mentalidade está a mudar, estamos a ter consciência desses problemas e a exigir que eles não se repitam, porque não queremos continuar sempre à beira da desgraça. Queremos transformar-nos num país normal, onde há regras, responsabilizando quem prevarica, sobretudo os grandes. A grande influência na sociedade não vem dos pequeninos, vem sempre dos grandes – esses é que têm poder, força e dinheiro.

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O seu romance Passagens reflete o tema da velhice. Como é escrever sobre o envelhecimento enquanto se está a viver esse processo?
Eu escrevi, sobretudo, vendo desaparecer pessoas muito próximas. Quando perdi o meu pai, tinha 42 anos. A minha mãe morreu há cinco anos, com 100 anos, e eu acompanhei o declínio dela e o processo de envelhecimento. Assumo essa realidade, vivo-a, sofro-a, partilho-a com todos os outros. Também penso que não estamos a proteger os idosos como eles precisam. Há muitas pessoas a viverem sozinhas, a não terem os cuidados médicos que precisam, a serem pressionadas para saírem das suas casas porque alguém quer fazer dali um hostel ou um negócio à custa da fragilidade. Os lares não funcionam, levam preços exorbitantes e o que fornecem são os cuidados mínimos. Quanto ao meu próprio envelhecimento, ainda não o sinto e faço os possíveis por não pensar muito nele. Quando desaparecer, desapareci. Espero que seja de uma maneira rápida e indolor, uma coisa fulminante como foi o caso do meu pai, que tinha problemas cardíacos.

Também sofreu um enfarte, aos 66 anos.
Sim, mas fiquei ótima, sem sequelas. Fui eu que diagnostiquei, porque tinha assistido ao primeiro enfarte do meu pai.

Pensa na morte?
Não. Tenho medo do sofrimento, da degradação física, da dor, mas da morte em si não. Não me assusta nada, mesmo que do outro lado não exista nada, existe, pelo menos, o ciclo da natureza. Voltamos à terra, à água, ao fogo, ao vento, aos elementos. Fazemos parte de um ciclo, não somos nada nem ninguém neste universo enorme, em que não sabemos se somos os únicos seres inteligentes ou se haverá outros além de nós.

Falou na solidão dos velhos. Teme-a nesta fase da sua vida?
Pessoalmente não, porque gosto muito de pessoas e tenho facilidade em estabelecer contacto e em relacionar-me. Mas sei que é um problema que existe e que não tenho tempo para estar com toda a gente com quem gostaria de estar. Encontro muitas vezes pessoas a precisar de ajuda e pessoas que leram os meus livros e de repente me escrevem como se eu pudesse resolver as suas vidas. Obviamente que não posso, mas sou solidária e compreendo.

É a favor da eutanásia.
Sim, embora seja um tema muito sensível, que tem de ser tratado com pinças, porque pode dar origem a muitos abusos. Há muita violência na nossa sociedade, degradação das relações humanas. Acredito que poderá haver facilmente abusos, pessoas que têm idosos a seu cargo querem ver-se livres deles e os convencem de que se calhar é essa a melhor solução, e pessoas que se tornam muito frágeis e que são influenciáveis, a tal solidão dos idosos, que pode levar a uma grande violência contra eles. Tem de se estabelecer uma linha em que prevaleça a vontade do próprio e não dos familiares. Em relação a mim, sei o que vou escolher quando chegar a hora.

À medida que se envelhece, como é que se lida com os erros que não já se pode corrigir ou remediar?
Não me preocupo. Não me culpabilizo, não estou em luta comigo própria, nem com o mundo, nem com nada. Nunca olho para trás. O que não se pode remediar, remediado está. O melhor é não pensar e andar para a frente.

Tem algum tipo de fé?
Acredito que existe algum princípio criador por detrás disto. Mas se não existir, pelo menos há essa ideia de que somos seres morais, sabemos o que é o bem e o mal. Em toda esta evolução das espécies – podíamos não ter evoluído mais do que as baratas – chegámos à consciência que temos hoje e que é também uma consciência ética. O único progresso que interessa é o progresso ético. Infelizmente, estamos a regredir para uma época de barbárie.

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Na sua página do Facebook pôs um texto que escreveu no dia seguinte à eleição de Donald Trump, e que leu na entrega do Prémio Fernando Namora, onde diz que encarou o brexit como «um fortíssimo voto de censura à União Europeia» e que assistiu «com entusiasmo à candidatura de Bernie Sanders». Mas depois acrescenta que não consegue falar do que está a acontecer, por ser «demasiado vasto e imprevisível». Porquê?
Eu vi, de facto, o brexit como uma grande crítica à União Europeia [UE], porque ela foi uma deceção imensa. Não era nada disto que nós queríamos nem nada disto que nos tinham falado. Aderimos a uma coisa que não sabíamos o que era e que se está a revelar completamente dececionante. Mas agora vamos passar tempos difíceis e vamos ver o que se passa com a Inglaterra. Não penso que o caminho para Portugal fosse também sair da UE porque somos muito frágeis e não podemos bater com a porta assim. Esperamos que a Europa mostre algum bom senso e ganhe um rumo. Em relação à eleição de Trump, nos EUA, é absolutamente assustadora. Ele disse que aceitava a tortura como meio eficaz para vencer o inimigo, aquele muro contra o México, que vão ser os mexicanos a pagar, o protecionismo… O presidente Trump está completamente fora da realidade.

Ele, por sua vez, acusa outros de estarem fora da realidade dos americanos. Há este confronto, pela desilusão com as instituições, e um sentimento de distanciamento em grande parte da população, que se sente esquecida.
As pessoas sentem-se esquecidas, sim. Eu fui professora convidada na Universidade de Berkeley, na Califórnia, em 2004. A Califórnia é o estado americano mais rico e o que mais me chocou foi a pobreza que encontrei. Havia uma percentagem enorme de sem-abrigo, embora seja verdade que, como o clima é melhor, a maioria dos sem-abrigo deseja ir para lá e sempre que pode vai. Isso chocou-me. E o facto de não haver cuidados de saúde como nós temos.

Também viveu na Alemanha e no Brasil. Que memórias guarda?
Foram muito importantes. Comecei por ir para a Alemanha, tinha terminado o curso e ganhei uma bolsa de pós-graduação. E foi a partir da Alemanha que vi Portugal com outros olhos, mais positivos. Comecei a ver o nosso lado bom quando comecei a ver os defeitos dos alemães, que são muitos. É um país de que eu gosto, admiro, mas onde nunca gostaria de viver. Aquela sociedade não me diz nada. Prefiro a nossa. Aliás, eles também [risos]. Gostam da nossa espontaneidade, da abertura. São muito fechados, custa-lhes falar com desconhecidos. Nós temos um calor humano que a eles lhes falta e falamos de muitas coisas.

Também viveu no Brasil.
Calhou ser São Paulo, a megalópole, em que a vida é muito dura, as distâncias enormes, tudo muito desumanizado, muito americanizado, as diferenças sociais e económicas brutais, muito maiores do que na Europa. E isso também me chocou. Por exemplo, as relações entre patrões e empregados, a começar pelas relações com as empregadas domésticas, são muito difíceis, porque elas, à partida, têm também aquele preconceito de que vão ser exploradas e de que o patrão é sempre mau.

Diz que a literatura pode resgatar-nos para os grandes valores humanos. Mas se as pessoas leem pouco, como é que isso vai acontecer?
Nada matou a literatura. Pode ser lida online, não ser em papel, mas continua e continuará a existir. Precisamos dela e queremos histórias. O que eu acho é que o ensino é deficiente e mata o desejo de ler. É tão aborrecido e ensina-se tanta coisa inútil, tanto palavreado supostamente erudito que não serve para nada, tanto conceito vazio, tanta gramática descritiva que não tem nada que ver com a realidade quotidiana.

O facto de hoje o Plano Nacional de Leitura ter livros e autores mais atuais pode ser um incentivo para que as crianças e os jovens leiam mais?
Mas é que não têm tempo para ler quase nada porque têm tanta matéria para decorar, quando se fala tanto contra decorar. Eu acho que decorar é muito bom, aprende-se imenso. E a fazer redações. O meu neto mais velho uma vez teve de escrever uma redação que era uma carta, e ele teve uma atitude muito criativa. Foi buscar uma personagem de um livro que lia muito, pôs-se no papel dessa personagem e escreveu uma carta a um amigo. E a professora riscou tudo e disse: «Foste buscar uma personagem e não era isso que era pedido. Era uma carta tua a um amigo teu.» Isto não faz sentido nenhum.

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Começou a escrever livros de forma mais regular a partir dos 41 anos…
Sim. Sempre escrevi, mas comecei a publicar em 1981, e na altura tinha 41 anos.

Em parte, porque as suas filhas já estavam mais crescidas e também já tinha terminado o doutoramento.
Exato. Arranjei um espaço de acalmia em que me pude dedicar à concentração sem grandes interrupções.

Os seus livros também abordam a maternidade sob diferentes aspetos. É um tema que lhe diz particularmente?
Sim, mexe comigo porque também o vivi e as mulheres sentem sempre uma certa culpabilidade, que as faz sofrer, porque é muito difícil conciliar o trabalho, que é intenso e muitíssimo exigente, e as crianças, que precisam de atenção e de presença. Não se pode pagar a alguém para amar as crianças. A mulher está muito só perante este dilema que a dilacera. Sentia-me muito culpada a trabalhar e também a escrever. Se se diz a uma criança, «deixa-me um bocadinho porque estou a trabalhar, não me podes interromper», ela traduz para «não gostas de mim».

Acontecia com as suas filhas?
Sim. E muitas vezes elas saltaram para os livros. Nos Guarda-Chuvas Cintilantes há diálogos reais com as minhas filhas. Uma delas diz: «Não gosto de gramática. Porque é que as pessoas da gramática não morrem todas?» Ou: «Se eu tivesse olhos azuis, via as coisas de outra cor? E de que cor são os olhos de Deus?» As crianças dizem coisas espetaculares.

Elas sentiram aversão pelos livros por tomarem tanto tempo à mãe?
Na adolescência, quando havia conflitos, a pior coisa que me podiam dizer, e que por vezes diziam, era: «A mãe não se rala nada comigo, só pensa nos seus livros!» [risos]. Enfurecia-me porque não era verdade, mas eu compreendo o ponto de vista delas. Se calhar uma mãe intelectual não é o ideal. Mas não há mães ideais. Talvez quanto mais simples a relação, mais direta e baseada no exemplo, melhor. Sem grandes filosofias ou sem filosofias nenhumas. [Leia também a entrevista de Teolinda Gersão ao Delas.pt: «Hoje aparece quase como um feito heróico uma mulher ter um filho»]

Quando surgiu o interesse pelo ensino?
É uma coisa um pouco da minha família. O meu avô era professor primário, o meu pai era médico mas tinha duas irmãs que eram professoras. Havia um certo jeito, talvez, para ensinar.

No outro dia, no Facebook partilhou uma fotografia de infância, com a sua prima, na praia. Duas crianças, na década de 1940, felizes na praia, num país, à época, já bastante cinzento. Além do momento, ela retrata também uma infância feliz?
Foi em 1949, na Figueira da Foz, o último ano em que esteve a nossa avó. Eu estava com a minha prima. Foi uma infância feliz. Nós não tínhamos consciência de que estávamos a viver numa ditadura, nem em casa o ambiente era politizado, nem se falava propriamente de política. Adorei a escola primária, tinha uma família muito numerosa, em que havia muitos afetos, que se juntava, e tudo isso era um ambiente alegre.

Quando é que se começou a aperceber da realidade do país?
No liceu. Havia pessoas que vinham de outros meios sociais e que tinham muitas dificuldades económicas, menos acesso à cultura. Aí percebi que havia uma grande diferença e que muita coisa estava mal.

Isso despertou-a para a política, para algum tipo de ativismo?
Sim, mas sobretudo na universidade. Aí sim. E depois na Alemanha. Porque nos anos de grande ebulição estudantil eu estava na Alemanha, em 1963. Na universidade havia uma grande consciência política e todo o tipo de reuniões.

Nessa mesma fotografia, há um comentário de um dos seus amigos, fala da sua expressão um pouco altiva, o sobrolho erguido. Em criança questionava muito?
Fazia muitas perguntas, mas os meus pais davam-me sempre respostas e eu sentia-me livre para falar do que quisesse. E era muito curiosa.

O que é que lhe despertava mais interesse nessa altura? Lembra-se?
Adorava as histórias de bruxas e de almas do outro mundo que as empregadas domésticas contavam, sobretudo as da aldeia. As tradições e as festas religiosas, a religião em si, tudo isso me despertava curiosidade e marcou-me bastante. Gosto muito da cultura tradicional. Conheci-a muito diretamente, também pelo facto de conhecer muito bem a vida do campo, que me influenciou, tendo eu vivido sempre na cidade.

Diz que é também a curiosidade pela vida que a mantém ativa. O que é que hoje lhe suscita particular interesse?
Acho que tudo [risos]. Sempre adorei cinema, teatro. De viajar. Interessa-me a investigação científica. Saber mais sobre a origem do mundo, das espécies, os avanços da medicina. Tudo isso me interessa muito e o espaço que as novas tecnologias conquistaram. Depois há também as questões éticas que tudo isso levanta. E a prioridade é a Terra. Resolvam primeiro a fome no mundo, o problema dos refugiados e das pessoas desalojadas, etc. O espaço pode esperar. Já lá está há milhões de anos. As pessoas não, estão a morrer. Portanto, a prioridade é a Terra.

E para si o que é não pode esperar?
Não posso esperar parar no tempo. Sei que vou ter um número de anos pela frente – não sei quantos – de vida útil. Porque quando a vida deixar de ser útil e deixar de ser eu própria, deixa de me interessar. Mas sei que esse tempo é limitado e, portanto, procuro aproveitá-lo ao máximo. E não posso esperar que ele seja muito longo porque sou realista.

Preza o livre pensamento e não gosta que a condicionem. Sempre conseguiu viver de acordo com essas premissas?
Quando vim para Lisboa fiz parte da redação da Via Latina e publicámos um artigo de um leitor alemão em que a universidade portuguesa era criticada. Houve um professor que se sentiu lesado e conseguiu que o leitor alemão tivesse o contrato rescindido a meio do ano e fosse mandado embora. Eu assumi que tinha sido a pessoa que lhe pediu para escrever o artigo e a PIDE não me chateou. O professor, que era considerado um grande democrata, pregou-me uma descompostura e eu disse: «Aqui não há nenhum erro. É um artigo de opinião e não há delitos de opinião.» O Fernando Assis Pacheco fazia parte do nosso curso, lembro-me dele em pé, em cima de uma cadeira, a dizer: «Isto não se faz nem a um cão. Ele não pode ser despedido!» Mas foi e eu achei que nunca iria trabalhar com aquele professor. Não me arrependi.

Diz que para escrever é preciso ler muito e viver muito. Viveu tudo o que queria viver?
Pelo menos, vivi muito. Todos poderíamos ou gostaríamos de ter vivido mais. Talvez a literatura também funcione como universos imaginários em que vivemos de uma maneira ficcionada. A imaginação humana não tem limites e o que nós desejaríamos também não. Mas considero que não me posso queixar porque vivi muito e com muita intensidade.

Esta entrevista é reproduzida respeitando o novo Acordo Ortográfico, tal como ocorre com todos os artigos da Notícias Magazine. Teolinda Gersão escreve seguindo as regras da antiga ortografia.

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«AS PESSOAS INTERESSAM-ME»
Autora sobretudo de romances, Teolinda Gersão tem vários livros adaptados ao teatro em países como Portugal, Alemanha e Roménia, ou ao cinema, com obras a dar origem a curtas-metragens e, recentemente, a uma longa-metragem – ainda em preparação e baseada no romance Passagens.
Entre os grandes temas da sua obra, Teolinda Gersão destaca as relações humanas, que põe «sempre em primeiro lugar» e que trata tanto nas suas expressões mais íntimas, através do amor e do sexo, como numa perspetiva intergeracional e social.
«As pessoas interessam-me e é por isso que estou profundamente ligada à ficção e não à poesia», justifica. A ligação à realidade concreta, das coisas que acontecem, que viu acontecer, que viveu ou que viu outras pessoas viver, são retratadas nos seus livros, aos quais, uma vez terminados, não tem por hábito voltar. Teolinda Gersão interessa-se também pela fragilidade do ser humano, pela solidão e pelo facto de cada um de nós ser «único e irrepetível».
A isso junta a complexidade da vida e o «absurdo do mundo em que vivemos, cheio de conflitos e contradições» e que aproximam a escritora do leitor: «Estou no meio deles como toda a gente.»

OS LIVROS E OS PRÉMIOS

A CIDADE DE ULISSES
Homenagem à cidade que escolheu, Lisboa, e lançado em 2011, é um dos seus livros mais conhecidos. Ganhou os prémios Ciranda e Fundação António Quadros

A MULHER QUE PRENDEU A CHUVA
O conto é outro dos géneros presentes na obra da escritora. Este livro (de 2007) reúne 14 e recebeu os prémios Máxima de Literatura e Fundação Inês de Castro.

A ÁRVORE DAS PALAVRAS
Inspirado em Moçambique, onde a autora passou algum tempo, é lançado em 1997, fase em que já se dedica exclusivamente à escrita.

SILÊNCIO
É o primeiro romance e primeiro livro de Teolinda Gersão. Publicado em 1981, a obra conquistou a crítica, sendo distinguida com o Prémio de Ficção do PEN Clube.

Ana Tomás
Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens