OPINIÃO

Ter sucesso escolar não é assim tão difícil

Jorge Rio Cardoso, autor de livros sobre educação, dá algumas dicas no arranque de mais um ano letivo. Fala em sucesso, em métodos de estudo, e numa nova disciplina para ensinar a estudar. O professor universitário do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa, acaba de publicar o livro «Do Secundário à Universidade com Sucesso» depois de «Este Ano Vais Ser o Melhor Aluno», em 2016.

Entrevista de Sara Dias Oliveira

Há alguma fórmula mágica para ter sucesso na escola?
Bom… «fórmula mágica» propriamente dita, não há. Mas na componente dessa fórmula estará certamente um bom método de estudo e sobretudo a persistência, ou seja, nunca desistir às primeiras contrariedades. A motivação com que estamos irá ditar também o sucesso. Se virmos a escola como um grande aborrecimento, ele tornar-se-á, de facto, muito «secante»…

Os melhores alunos são os que têm melhores notas? O sistema diz que sim.
Pois… o sistema diz que sim, mas eu digo que não. No limite aquilo que distingue um bom aluno é sua forma de estar na escola, o seu interesse pelo conhecimento e a sua interação com os outros. Um bom aluno terá que ter, para além de boas notas, boas atitudes (solidárias, por exemplo). Dentro das suas competências estarão certamente o respeito pelos outros, sejam professores ou colegas, o saber trabalhar em equipa ou a criação de empatia com toda a comunidade escolar.

Organizar apontamentos, fazer resumos, memorizar? Basta isto para ser um aluno exemplar?
De facto, não basta. E não basta porque precisamos de fazer aprendizagem em que o conhecimento não seja apenas uma reposição daquilo que ouvimos/lemos, mas antes aprendizagens profundas que nos possam responder ao essencial: para que é que aquele conhecimento serve? Onde se aplica? Como posso transpô-lo para outra realidade?

Já relacionar matérias e fazer uma autoavaliação são processos mais complexos e com menos adeptos…
Sim, é verdade! Esse menor número de adeptos será certamente aquele que terá melhores resultados, até porque são esses que farão aprendizagens mais consequentes e significativas. Serão também esses que consolidarão as aprendizagens e com mais facilidade as aplicarão ao longo da sua vida.

Uma vez que os alunos não são todos iguais, cada um deverá ver como se sente melhor: se estudar de manhã, à tarde ou à noite. Todavia, aconselho sempre o estudo contínuo. Ou seja, nunca estudar na véspera.

Estudar todos os dias? Estudar na véspera dos testes para levar a matéria fresca? Estudar de manhã, à tarde, à noite? O que é melhor?
Uma vez que os alunos não são todos iguais, cada um deverá ver como se sente melhor: se estudar de manhã, à tarde ou à noite. Todavia, aconselho sempre o estudo contínuo. Ou seja, nunca estudar na véspera.

Estudar sozinho, estudar em grupo, inscrever-se em explicações, pedir ajuda aos pais. O que fazer?
Eu aconselho que as fases iniciais de estudo (elaboração de apontamentos, por exemplo) sejam feitas individualmente. Estudar em grupo pode ser eficiente para alguns alunos, mas só em fases mais adiantadas do estudo em que a partilha de conhecimento e o aprofundamento da matéria possam ser conseguidos através de um trabalho de grupo. Cada elemento do grupo pode, por exemplo, imaginar questões sobre o que aprenderam e todos são chamados a responder a essa questão. No entanto, é preciso notar que nem todos se dão bem com o trabalho em grupo. Depois temos que ver se o grupo funciona bem, isto é, se produz resultados ou se o intuito é falarem de tudo menos de estudo…

Defende uma nova disciplina para ensinar a estudar. Qual seria o plano dessa unidade curricular?
Sim, defendo. O plano seria composto por métodos de estudo: como faço um resumo de um livro? Quais as técnicas de estudo que tenho ao meu dispor? Como elaboro um trabalho? Como faço um relatório? Como crio hábitos de trabalho? Como consigo programar o estudo? Como aprofundar a matéria?

Há alunos que têm más notas porque não sabem estudar, outros porque estão desmotivados, outros ainda porque não são resilientes e desistem com facilidade.

Por que razão há alunos que não têm métodos de estudo?
Provavelmente porque ninguém lhes falou sobre métodos de estudo. É claro que há alunos cujos pais lhes ensinam a estudar, mas há outros em que isso não acontece. É precisamente por isso que defendo a tal disciplina sobre como estudar e como organizar o estudo.

Ter más notas abala a autoestima. O que fazer para dar a volta por cima?
Sim, abala a autoestima com toda a certeza sobretudo se as más notas forem persistentes. Para dar a volta por cima é necessário responder à pergunta: porque tenho más notas?
Há alunos que têm más notas porque não sabem estudar, outros porque estão desmotivados, outros ainda porque não são resilientes e desistem com facilidade.
Identificada a causa mais facilmente podemos arranjar uma solução para o problema.

As novas tecnologias são um problema ou um aliado nas aprendizagens dos alunos?
Terão que ser necessariamente um aliado. As novas tecnologias fazem parte do mundo real e, nessa medida, a escola não as pode ignorar. Não nos podemos esquecer que a Escola é uma preparação para a vida e, se a escola não as integrar no seu quotidiano não estará a prestar um bom serviço. Em relação às tecnologias mais «distrativas», ou seja, videojogos, por exemplo, a sua utilização pode ter benefícios, embora defenda regras na sua utilização, sobretudo para os alunos mais novos.

O professor universitário Jorge Rio Cardoso é autor de livros como «Do Secundário à Universidade com Sucesso» e «Este Ano Vais Ser o Melhor Aluno».