OPINIÃO

Sim, o cor-de-rosa interessa. E os tutus também.

Azul ou cor-de-rosa? Princesas ou astronautas? Donas de casa ou cientistas? Quando o futuro começa afunilado é sempre mais difícil de alargar.

Algo me diz que havemos de viver ainda muitos anos antes de haver alguma espécie de igualdade entre homens e mulheres. Não, não comecem a interpretar-me mal: falo da igualdade que interessa, entre funções, estatutos, profissões e pagamentos.

Falo da igualdade que é a minha bandeira – a de não ter de ser sempre ela a apanhar as meias sujas do chão e de não ser sempre ele a não se lembrar de as apanhar, ou a adiar de tal forma esse ato que acaba por ser ela a fazê-lo. Da igualdade mais básica, tão básica que roça os direitos humanos: a de inteligência, capacidade, trabalho igual, salário igual.

Ainda teremos de esperar anos, e o clima não é o mais favorável E a razão menos importante para isso acontecer não é o facto de nos estarmos a perder em pormenores. E sim, o cor-de-rosa e o azul são pormenores. E não, que haja atividades diferentes para meninos e meninas não são pormenores. E sim, são pormenores que as meninas liguem mais do que os meninos a coisas como roupa, cabelos. E não, a maneira como o fazem não é um pormenor: se dão a essa aparência a importância das coisas importantes ou as tratam como acessórios.

Dei por mim recentemente a saudar uma menina pequena com um: ah, estás tão linda, toda de cor-de-rosa. Ela sorriu, fez um menear de cabeça que só as meninas fazem, rodopiou… e eu arrepiei-me. O que estás a fazer?, perguntou a minha consciência. (A minha consciência é feminista, depois de ter levado anos a perceber que era importante sê-lo, anos em que a minha perceção se deixava enganar pela minha ideologia.)

A questão que se me colocou foi: nada disto terá importância? Como será uma menina que cresce envolvida numa teia social em que o que é valorizado são as aparências, roupas, cabelos e bonequinhas, em que as lojas lhe oferecem brilhantes, coroas e tutus – acreditam que a H&M tem um fato de Mulher-Maravilha com um tutu?

Se as ficções «para elas» retratam histórias de princesas e os brinquedos as levam para cenas domésticas ou outras atividades com pouca complexidade, nada disso tem influência no futuro delas? (Mais um parêntesis: desculpem os que apelam a outro tipo de igualdade, nomeadamente nas questões de sexualidade, mas a igualdade que me preocupa prioritariamente é esta.)

Ninguém me convence de que será assim. Não acredito que nada não molde, senão o pensamento, pelo menos o lugar no mundo. Depois virá o resto: a noção que ela terá de si própria, os exemplos, a personalidade e características sociais. Não há nada que indique que uma menina que gosta de cor-de-rosa e tutus não possa ser tudo o que lhe apetecer. Nem que terá de lidar com a casa apenas porque gosta de brincar com panelas. Mas quando o futuro começa afunilado não é sempre mais difícil de alargar?

O que parece estar a acontecer às mulheres é que a igualdade lhes está a ser colocada em cima como mais uma exigência social. A elas não basta serem giras, fixes, competentes, espertas e estarem em forma, têm também agora de lutar por serem iguais. Ora, isto é exatamente o contrário da igualdade. Que é elas serem tratadas da mesma forma, com defeitos e virtudes, com complacência e exigência. Enfim, como seres humanos.