OPINIÃO

Shonda Rhimes: A mulher que deu poder às mulheres na TV

Shonda Rhimes escreve séries para mulheres.

Nas séries que escreve e produz há sempre uma mulher no centro. Em alguns casos, é negra-afro-americana, para usar a linguagem politicamente correta. Já são demasiados casos para se poder pensar em coincidência. Em vem ai mais uma.

Cresce a expetativa, depois de o canal norte‑americano ABC ter dado luz verde ao episódio-piloto de mais uma série produzida pela Shondaland, a empresa dirigida por Shonda Rhimes, construtora de êxitos mundiais para TV. Por um lado, há o tema, que vai valer um mergulho no sempre aliciante universo dos tribunais, concentrando‑se num dos mais famosos, na zona sul de Nova Iorque, conhecido como «The Mother Court». Neste caso, a série – a concretizar‑se, depois do «julgamento» pelas audiências – vai seguir os primeiros passos de jovens advogados que, naturalmente, hão-de combater‑se, pela acusação ou pela defesa. Por outro, falta perceber quem será a protagonista, a mulher forte, que invariavelmente Shonda coloca no centro dos enredos que escreve e das produções que assina. Até agora, a regra nunca falhou: a mais recente é a Alice Vaughan (a atriz Mireille Enos, que se celebrizou em The Killing) de The Catch (que pode ser vista em Portugal no canal AXN).

Antes dela surgiram Annalise Keating (Viola Davis, nomeada duas vezes para os Óscares), em Como Defender Um Assassino (AXN), Olivia Pope (Kerry Washington) em Scandal (Fox Life) Addison Montgomery (Kate Walsh) em Clínica Privada (que passou na Fox e na RTP), a única que já terminou, e, claro está, Meredith Grey (Ellen Pompeo), que nos acompanha há mais de uma dúzia de anos em Anatomia de Grey (Fox e RTP) e que já levou a atriz a confessar que há de ser enorme o vazio quando, um dia, se libertar da sua «segunda pele».

Percebe‑se bem essa ansiedade em Ellen Pompeo, que trocou uma promissora carreira no cinema (bastará lembrar as suas participações em Sonhos Desfeitos, de Brad Silberling, ou em Apanha‑me Se Puderes, de Steven Spielberg) pela dedicação exclusiva à personagem da médica que inicia a sua carreira profissional num hospital de Seattle. Quando a série se estreou – a 27 de março de 2005, valendo o primeiro passo para o império Shondaland –, Ellen tinha 35 anos. Hoje, vai a caminho dos 48. Embora Anatomia de Grey seja a mais prolongada das criações de Shonda Rhimes, começando a ameaçar uma presença nos ecrãs muito próxima da impressionante marca de 15 temporadas da mítica Serviço de Urgência, em que se revelaram nomes como George Clooney ou Julianna Margulies, quem assina contrato com esta produtora sabe que está a assumir um compromisso de longa duração.

Mesmo no caso de uma «série derivada» (spin-off, dizem os americanos) como Clínica Privada, em que a Kate Walsh saltou do elenco de Anatomia de Grey para assumir o papel de protagonista, a história ultrapassou os cem episódios e durou de 2007 a 2013. A fidelidade – ou o estímulo – às mulheres, que se estende às episódicas passagens de Shonda Rhimes pelo cinema, em que assinou os guiões de Destinos, filme feito para fazer brilhar a estrelinha de Britney Spears, e de O Diário da Princesa: Noivado Real, que partiu das personagens da escritora Meg Cabot e que deixou ainda com duas figuras femininas em destaque, Anne Hathaway e Julie Andrews, não é a única caraterística dos trabalhos desta alma poderosa que continua a marcar pontos num universo tão competitivo como é o da TV norte‑americana.

Ainda que não queira «puxar» demasiado pelo assunto, ou que pelo menos evite apresentá‑lo como um ponto de honra, Shonda não se limita a criar papéis marcantes para o seu género, numa fase em que Hollywood renova ciclicamente as queixas sobre a falta de personagens femininas fortes, maduras e que possam bater‑se de igual para igual com os homens.

Vai mais longe: em paralelo com os protestos contra a discriminação racial nas indústrias da imagem, que já levou inclusivamente a boicotes às cerimónias dos Óscares e de outros prémios do cinema e da televisão, Rhimes estende a passadeira a duas atrizes negras, os dois verdadeiros dínamos de Como Defender Um Assassino, que agora reinicia a terceira temporada, depois das férias natalícias, e de Scandal, que nos últimos dias viu arrancar a sua sexta estação (nos EUA). Tanto Viola Davis, uma veterana de 51 anos, como Kerry Washington, que (na próxima terça‑feira, 31) completa 40, alteraram substancialmente os seus modos de vida, repartindo‑se agora pela TV e pelo cinema, que lhes ocupava a maior parte da atividade profissional. Em qualquer dos casos, no da mestra de leis que vai orientando os seus alunos em casos criminais que revelam sempre grandes surpresas e desfechos inesperados, como no da ex‑assessora da Casa Branca que cria uma empresa de imagem e de comunicação, não conseguindo escapar a um envolvimento pessoal num escândalo amoroso (figura inspirada em Judy Smith, que trabalhou para a administração Bush), há uma evidente valorização das atrizes – tanto Viola como Kerry já viram os seus desempenhos recompensados com nomeações para os Globos de Ouro e para os Emmys.

De resto, a «linha de montagem» de Shonda Rhimes apresenta números impressionantes, neste domínio: entre Anatomia de Grey, Scandal e Como Defender Um Assassino (The Catch ainda não chegou lá e Clínica Privada não conseguiu esse destaque), a soma aponta para onze nomeações com duas vitórias nos Globos de Ouro e para cinquenta nomeações com sete triunfos nos Emmys, salientando‑se o facto de a maioria caber à área da representação.

Quem olhar para as criações de Shonda, tanto como autora e guionista como no papel de produtora executiva, facilmente descobrirá outros pontos comuns. Por exemplo, o de todas as suas criações serem contemporâneas e urbanas. Não há aventuras «de época» nem grandes viagens à «América profunda». Provavelmente, essas opções prendem‑se com o tempo e com o modo desta executiva, nascida em Chicago há 47 anos, a mais nova de um núcleo de seis irmãos. Uma mulher que, quando sentiu apertarem‑se as malhas da rede profissional, não hesitou em procurar vias tidas como menos ortodoxas para constituir o seu núcleo familiar: mantendo‑se solteira, adotou duas meninas e acolheu uma terceira gerada numa barriga de aluguer. Talvez esta predileção pelos caminhos menos óbvios radique numa escolha de há 25 anos: quando leu num jornal uma reportagem em que se garantia que era mais difícil entrar na universidade californiana onde se ensina cinema e televisão do que entrar no curso de Direito em Harvard, optou imediatamente pelo primeiro desafio. Pelos vistos – e pelo mais que há de ver‑se – fez bem.

João Gobern