Sabe o que é mindful eating?

Acontece-nos a todos: num momento temos o almoço à nossa frente, 15 minutos depois guardamos a caixa e mal demos por ele. Pensámos nos e-mails por enviar, na reunião da tarde, na fatura da luz, na mousse para o almoço de sábado. Os miúdos ainda não ligaram: terá sucedido alguma coisa? E o carro que está de novo a aquecer? Só faltava avariar agora que o mais novo vai ter de usar aparelho... Tudo serve para nos pôr a cabeça em todo o lado menos na salada que engolimos à pressa – exatamente o oposto de se comer com atenção o que temos no prato, saboreando pormenores, conscientes do milagre de estar presentes na vida. Mindful eating é isto: alimento também para a alma.

Texto de Ana Pago

«Andamos em piloto automático, tão acostumados a fazer tudo ao mesmo tempo que deixamos de saber parar os pensamentos e preocupações», explica o formador de mindfulness Gonçalo Pereira, fundador do Centro Upaya (em Campolide). Aqui, a hora de almoço à quarta-feira é reservada à prática do mindful eating: uma refeição com tempo para respirar, conectar consigo e levar para o resto do dia a calma que desenvolveu à mesa. Ele próprio inicia os cursos de atenção plena – é isso que significa mindfulness – dizendo às pessoas que peguem numa passa e a descubram com os cinco sentidos. Como de resto devíamos fazer com tudo nas nossas vidas.

Sejamos honestos: quantas vezes algum de nós saboreou a intenção de levar uma passa (ou o que quer que fosse) à boca, o toque nos lábios e nos dentes, o salivar, o morder, o sabor que tem antes e durante o mastigar?

«Peço-lhes sempre que vejam a passa como se fossem pintá-la: cor, brilho, arestas, forma, transparência. Que a usem como suporte para manter a atenção no presente», conta Gonçalo, que se diverte muito com o ar espantado de quem parece estar a provar um fruto exótico, em vez de algo banalíssimo que toda a gente já comeu dezenas de vezes. «Depois vem o tato: há que sentir o peso, a temperatura, a viscosidade, a consistência ao apertar. E o aroma: que nuances tem?»

Sejamos honestos: quantas vezes algum de nós saboreou a intenção de levar uma passa (ou o que quer que fosse) à boca, o toque nos lábios e nos dentes, o salivar, o morder, o sabor que tem antes e durante o mastigar? A explosão de sabores e onde são sentidos na língua, cada movimento, até não restar nada? Curiosamente, diz o formador, a maioria das pessoas nunca reparou que o gosto que fica na boca não é seco, mas húmido e doce com um travo a vinho. E quem fala em passas fala no resto que comemos: o que temos andado a perder ao longo dos anos nesta pressa constante?

Foi em 1979, que Jon Kabat-Zinn, professor de Medicina na Universidade de Massachusetts, criou o programa de Redução de Stress Baseado em Mindfulness (MBSR), considerado a primeira abordagem sistematizada a ser introduzida no ocidente. Quanto mais praticarmos – trazendo essa presença consciente para o acordar, o comer, o lavar os dentes e outras atividades do dia-a-dia –, mais hipótese temos de controlar as emoções negativas que ameaçam arrebatar-nos. Agir é útil para resolver e fazer coisas, mas mais importante é saber parar de fazer. Só assim podemos apreciar a vida sem que as preocupações nos esmaguem.

Filomena Nascimento, ex-manequim que hoje se dedica ao coaching orientado para a dietética saudável, tem justamente aliado o mindfulness à nutrição para manter elegância e autoestima. «Não fique à espera do dia certo para começar. Esse dia é hoje», diz a autora de Mindful Eating (da LX28, a nova chancela da Livros Horizontes) a quem a procura para bem emagrecer. Apesar de o livro não ensinar técnicas concretas para comer com atenção plena – é mais uma partilha de dicas úteis testadas por Filomena –, ajuda-nos a não devorar as nossas emoções, percebendo a quantidade e qualidade da comida que pomos no prato. Deixamos-lhe algumas delas (e outras da nossa autoria) para retomar o foco à mesa. Aqui e agora.

 

5. RESPIRE

 

Antes de começar a comer, faça três respirações completas trazendo a sua atenção plena para elas – e para a refeição que tem diante de si. Não acelere nem respire mais profundamente do que o habitual: apenas repare no ato e nas sensações que lhe desperta no corpo.

4. ATENTE

Veja a comida que tem no prato, note o aroma, a temperatura, as emoções que surgem, os impulsos no estômago. Mastigue cada pedaço com consciência, saboreando com qualidade e gratidão. Sempre que se lembrar, ponha a mesma atenção nas outras atividades diárias: lavar os dentes, tomar banho, secar o cabelo, apanhar um transporte, ir às compras, passear o cão, cozinhar.

3. RELAXE

Tentar controlar tudo e todos não funciona: é importante aprender deixar as coisas fluírem naturalmente. Se fizer uma pausa para café ou um bom chocolate, saboreie-a: cheiros, calor, toque, graus de sabor desde que levanta a chávena ou a tablete até depois de engolir, perceção de conforto e energia.

2. ANCORE-SE

Reeduque a mente não pegando no telemóvel para ver chamadas, e-mails ou outros conteúdos que exerçam estímulo mental enquanto come. Se der por si com a cabeça a fugir-lhe para outros assuntos, aproveite uma conversa, uma gargalhada ou qualquer outro som à sua volta para voltar de novo ao presente.

1. DESFRUTE

Sinta o prazer a cada dentada e perceba como vai ficando saciado ao comer uma maçã, uma salada, um prato de massa ou uma fatia do seu bolo preferido, sem pressas, mastigando bem de modo a apreender as diferentes texturas a cada etapa. No final da refeição, ouça o que lhe diz o seu estômago e o conforto que aquela refeição lhe trouxe.