Ferreira Fernandes Ferreira Fernandes

Rosita tão perto dos homens

Eu conheço a Rosita, e julgava conhecer a história dela. Estava muito longe disso. A Rosita, eu conheci-a pelo sorriso de bem com a vida que ela usava quando me foi apresentada. E nesse dia ela contou-me um episódio da sua história, tão extraordinário, tão cinemascópio, que era ela a contar e eu a projetar o filme na minha cabeça. Esse episódio já o contei em crónica, mas volto a ele – não se repetem filmes? – antes de passar a assuntos novos que sei dela.

A Rosita era uma portuguesa que tinha emigrado para Angola, no tempo colonial. Eram pobres, ela e o marido, viviam numa casa pobre, numa plantação de café no Cuanza Norte, região de rios e montanhas. Uma manhãzinha, o marido de Rosita chegou ao terreiro e encontrou-o vazio. Estranho, o dia na roça começa cedo para os trabalhadores… E, depois, havia zunzuns sobre chegarem os ventos da história também a Angola. O homem voltou a casa e disse à Rosita que ia à sanzala saber do atraso. Foi ao quarto buscar a pistola e partiu. Eles não tinham carro, só uma velha moto BSA.

Inquieta, Rosita veio para o meio do terreiro, esperar. Antes de o ronronar da moto voltar, ela deu-se conta de uma avioneta, por trás das montanhas verdes encimadas por grandes mubangas cujos ramos protegiam os bagos de café que estavam prestes a ser colhidos. Logo apareceu uma avioneta, tão baixo que ela viu o piloto. Estranho, este fez-lhe adeus. Mais estranho, ainda, a avioneta ao chegar às montanhas fronteiras fez meia volta, e refez a curva sobre o terreiro. E, de novo, acenos do piloto. Ela correspondeu, um pouco envergonhada, saudar estranhos, e agora que estava grávida. Pouco depois, nova avioneta, primeiro, ouvida, e depois surgindo das montanhas esmeraldas. E não é que o segundo piloto também acenou?

O marido já voltava e vinha preocupado, mesmo preocupado. Correu a buscar a espingarda de caça, passou a pistola para a mulher e disse-lhe para montar na BSA. Encontrara a sanzala vazia… Rumaram à Canhoca, a povoação mais próxima. Não havia estrada asfaltada, só picadas lamacentas, a época de chuva acabava de começar, caíram da moto algumas vezes, a lama e o medo amorteciam. Só entenderam quando chegaram à estação de comboio da Canhoca, cheia de jipes, carrinhas e camionetas, gente em fuga das fazendas vizinhas. Era março, 1961, a Guerra Colonial começava. E Rosita entendeu os acenos dos pilotos. Não diziam «olá!», diziam, angustiados: «Foge! Foge!»

Rosita e o marido haveriam de voltar para a terra, uma vila bonita, encontro de rios e montanhas à volta. Era Portugal, o de brandos costumes, suave. A casa era à beira da estrada. Prevenidíssimos, havia painéis: velocidade máxima, 50 km/hora. E, de vez em quando – porque, de vez em quando eram arrancados por mãos misteriosas –, havia semáforos que viravam imperiosamente vermelhos quando aceleras violavam a regra.

O marido de Rosita morreu num choque com outro carro, 100 metros à direita da casa. Depois, o filho de 9 anos morreu atropelado, 50 metros à esquerda da casa, do outro lado da rua. E agora, antes do passado Natal, o segundo marido de Rosita morreu atropelado, em frente a casa. Ela disse quando soube do último acontecimento: «Acho que tenho de ter uma conversa com Deus.»

Essas conversas são íntimas. E, no entanto, há qualquer coisa de público a discutir. Eu tenho e até já concluí o meu remate de conversa que terei, no outono próximo, quando for votar nas autárquicas. Votarei como quem acena a alguém em extremo perigo. Votarei pelos candidatos que garantam ao bicho homem mais respeito do que ao automóvel (com gente ou só bestas lá dentro).