OPINIÃO

O que a vida me ensinou: Raquel Ochoa

«A viagem é boa quando não alteramos o silêncio natural de um lugar.»

Texto de Ricardo J. Rodrigues | Fotografia de Vitorino Coragem

Depois de vinte anos de mochila às costas, importante é manter o espanto da primeira viagem. «Uma viagem é boa quando destruímos o mínimo possível, não alterámos a silêncio natural de um lugar e começámos uma amizade, às vezes um amor», diz a escritora Raquel Ochoa, 37 anos, que fez do nomadismo inspiração para a literatura – e de certo modo filosofia de vida. Se há ensinamentos a retirar de tantas léguas, é este: «É preciso ter paciência. Há viagens que demoram anos a dizerem-nos o que nos queriam dizer.»

«A Índia cilindra as pessoas, ninguém lá vai e consegue voltar à sua cultura com os mesmos olhos. Eu sou muito diferente da menina de 21 anos que lá aterrou»

Começou a viajar com 16 anos e entrou na vida adulta assim, a andar de um lado para o outro. Desceu o sul da América, cruzou a Ásia de uma ponta à outra, foi à Austrália e à Nova Zelândia. «Gosto de pensar que sei muito mais coisas por ter partido tanto e, por isso, sou bastante capaz de lidar com um largo leque de experiências e as mais díspares emoções.»
À Índia regressou uma e outra vez. E foi lá que escrever A Casa-Comboio, o romance que lhe valeu o Prémio Agustina Bessa-Luís.

«A Índia cilindra as pessoas, ninguém lá vai e consegue voltar à sua cultura com os mesmos olhos. Eu sou muito diferente da menina de 21 anos que lá aterrou à espera de encontrar os exóticos e as iluminações místicas. Hoje vejo a Índia com um enorme respeito terra-à terra, um mundo complexo, impossível de compreender na plenitude. Por isso, cada vez que lá vou, deixo-me afundar naquele enigma – e às vezes as respostas vêm à tona.»

Uma vida em números

8 – Livros
Fez biografias de Bana, da Infanta Maria Adelaide e do arquiteto Manuel Vicente. Escreveu um livro de crónicas de viagem e quatro romances históricos.

1980 – Nascimento
Tem 37 anos e cresceu em Sintra, com os olhos postos na serra. Do alto das montanhas ganhou sede para descobrir o mudo que ia além do cabo da Roca.

54 – Países
Não lhe falta nenhum continente, mas ainda tem países para explorar. A alguns, como a Índia e Cabo Verde, regressa uma e outra vez.

21 – Índia
Na primeira viagem à antiga Índia portuguesa esteve em Damão – e aí bebeu a inspiração para escrever o premiado A Casa-Comboio.

16 – Início
Começou a viajar com amigos pelo sul de França e aí conheceu gente do mundo inteiro. A curiosidade tornou-se vocação