Por que é que há cada vez mais gente a querer viver sozinha?

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Em Portugal, há cada vez mais pessoas que escolhem viver sozinhas. Quem, onde, quando, como e porquê foi o que tentámos perceber.

É cada vez menos um constrangimento e cada vez mais uma escolha. Está em crescimento nos países mais desenvolvidos e ligado à melhoria das condições socioeconómicas e à emancipação das mulheres. Em Portugal, em duas décadas, o fenómeno, que tem vindo a crescer desde os anos 1960, quase duplicou. Se é boa ou má notícia, o futuro dirá. Uma coisa é certa: quem escolhe viver sozinho não quer outra coisa, como testemunham, na semana dos namorados, Rita Ferro, Júlio Machado Vaz, Ana Zanatti, João Tordo e Isabela Figueiredo – leia aqui as suas histórias.

Nunca como hoje, tanta gente viveu sozinha. A revolução – como o fenómeno é encarado por alguns sociólogos – iniciou-se em meados do século XX, de forma silenciosa, e tem vindo a crescer, sobretudo nos países mais desenvolvidos e nas grandes cidades. Os recenseamentos demográficos, vulgo censos, evidenciaram a tendência e os sociólogos encontraram nela terreno fértil de análise. Trata-se, sem dúvida, de uma mudança civilizacional com alto potencial de transformação social, sobretudo quando a variável escolha – que implica independência, autonomia e poder económico – assume uma importância indissociável do crescimento do fenómeno.

Não é por acaso que o Euromonitor tem dedicado especial atenção a este «perfil de consumidor» que, segundo as previsões da empresa internacional de estudos de mercado, é o que terá um crescimento mais acelerado nas próximas décadas em todo mundo desenvolvido, criando oportunidades de negócio nas mais diversas áreas, da alimentação ao lazer, das tecnologias ao turismo, do mobiliário ao imobiliário.

E também não é por acaso que os países nórdicos lideram esta tendência, com a Suécia bem à frente, onde 59,4% dos agregados domésticos são ocupados por uma só pessoa. (Será por isso que a sueca IKEA tem tantas soluções de arrumação para casas single?). Na Dinamarca, esta percentagem é de 43,9, enquanto a Noruega, a Finlândia e a Alemanha andam pelos 40%, quase dez pontos percentuais acima da média da União Europeia (UE), que é de 31,7% (ver fotogaleria).

Estes são os países mais ricos e mais avançados no que respeita a igualdade de género e a proteção social a cidadãos e trabalhadores. Uma relação de causa-efeito confirmada pelo sociólogo Eric Klinenberg, autor do livro Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone (2012) em entrevista eletrónica: «Onde encontrar abundância e direitos das mulheres, encontrará pessoas a escolher viver sozinhas. A segurança económica, proporcionada tanto pelo mercado como pelo Estado providência, é fundamental, mas a crescente emancipação das mulheres é crucial. É quando estas ganham acesso ao mercado de trabalho e o controlo dos seus corpos e das suas vidas que sobe a percentagem de pessoas que vivem sozinhas.»

Onde encontrar abundância e direitos das mulheres, encontrará pessoas a escolher viver sozinha», Eric Klinenberg

Se olhássemos só para os números, sem os interpretar e sem os cruzar com outros, que os esclarecem, estaríamos neste momento a exultar com o facto de, em Portugal, 62,9% das pessoas que vivem sozinhas serem mulheres (se isso representasse uma escolha, claro). Quereria dizer que podiam. Mas não abra já a garrafa de champagne. Até porque a análise estatística dá pistas, mas não revela motivações.

O que dizem então os números sobre quem vive sozinho em Portugal?

VEJA O VÍDEO:

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Há números de várias fontes, não variam muito, mas para evitar baralhações socorremo-nos dos apresentados na publicação do INE Famílias nos Censos 2011 – Diversidade e Mudança, capítulo «Pessoas sós em Portugal: evolução e perfis sociais», de Maria das Dores Guerreiro e Ana Caetano.

Em números absolutos, são 866 827 as pessoas que vivem sozinhas no nosso país (8,2% da população residente). Destes 62,9% são mulheres e 37,1% são homens. A maioria tem mais de 65 anos (46,9%), mais mulheres (36,1%) do que homens (10,8%). Esta maioria perdeu peso, relativamente a 1991, para a faixa dos 30 aos 49 anos (24%), em que o racio homem/mulher (13,8%/10,2%) é mais equilibrado, mas ainda assim representa quase metade da população que vive sozinha em Portugal.
Entre os 50 e os 64 anos são 21,6% e entre os 15 e os 29 são 7,4%.

O estado civil desta fatia da população não surpreende por aí além, a não ser talvez na percentagem de casados, que pode explicar-se tanto pela migração de um dos cônjuges como pelo chamado living apart together – pessoas casadas que vivem em casas separadas. Relevante é dizer que, entre as mulheres que vivem sozinhas, predominam as viúvas, depois as solteiras, logo seguidas das divorciadas, sendo residual o número de casadas, enquanto nos homens os solteiros estão em larga maioria, seguidos dos divorciados e dos viúdos, sendo 8,4% os casados.

Não querendo aborrecer de morte o leitor, mas não podendo deixar de referir mais dois ou três números que ajudam a perceber o perfil de quem vive sozinho em Portugal, se 54,1% têm apenas o ensino básico, 20,3% já têm o ensino superior, havendo nesta última percentagem um grande equilíbrio entre homens e mulheres; relativamente ao trabalho, metade será de reformados enquanto 36,4% estão empregados (de salientar que 60,8% das mulheres estão reformadas, enquanto 49,7% dos homens estão empregados); pessoal administrativo e similares (25,6 %) e especialistas de profissões intelectuais e científicas (20,8 %) são os grupos profissionais da população ativa em que estão inseridas mais pessoas que vivem sozinhas.

Quanto à comparação com o resto da Europa, Portugal está dez pontos percentuais abaixo da média da União Europeia, vizinho de tabela, pouco mais acima ou mais abaixo, de países como Espanha, Irlanda, Chipre, Polónia, Croácia, Eslováquia e Malta.

De acordo com o Censos de 2011, as pessoas que viviam sozinhas em Portugal representavam 21,4% do total dos agregados domésticos – um valor que, tal como nos números absolutos, é quase o dobro do verificado em 1991, quando a percentagem era de 13,8%.

Da análise estatística, Maria das Dores Guerreiro e Ana Caetano destacam nas suas conclusões o aumento continuado e significativo nas últimas décadas das pessoas que vivem sozinhas, em mulheres, homens e em todos os grupos etários acima dos 15 anos, evidenciando a diversidade que está associada ao fenómeno. «Os dados censitários permitem perceber que o aumento das pessoas sós resulta de três grupos de fatores:
1) composição sociodemográfica da população, com a mudança nas estruturas etárias (aumento da esperança média de vida, sobretudo para as mulheres, e envelhecimento) e nas estruturas familiares (mais divórcios, menos casamentos e filhos);
2) propensão para viver só como garante de autonomia individual (sobretudo entre os mais jovens, mas também entre os mais velhos);
3) e capacidade económica para viabilizar a mono-residência.»

Com base na articulação destes fatores identificaram três perfis sociais distintos do viver só:
os mais jovens, entre os 15 e os 29 anos, com escolaridades mais elevadas, forte participação no mercado de trabalho e inserções profissionais mais qualificadas, representam sobretudo processos de transição para a vida adulta, nos quais a opção de residirem sozinhas pode ser temporária ou mais prolongada, consoante dependa do adiamento de projetos conjugais e familiares ou de uma opção de autonomia individual;
os adultos, com idades entre os 30 e os 64 anos, que vivem sós como resultado quer de ruturas conjugais quer também como escolha de estilo de vida;
os idosos, com mais de 65 anos, pouco escolarizados e sobretudo reformados, que vivem sozinhos em muitos casos devido a viuvez, sendo as mulheres maioritárias neste perfil.

Se viver sozinho resulta sobretudo de constrangimento, de escolha, de constrangimento que se tornou escolha ou de escolha que acabou em constrangimento, os números não dizem. Mas a socióloga e investigadora do ISCTE-UL Rosário Mauritti, autora do livro Viver Só – Mudança Social e Estilos de Vida [ed. Mundos Sociais, 2011], que estudou o fenómeno no âmbito da sua tese de doutoramento, diz que são cada vez mais os portugueses que vivem sozinhos por escolha e que este número só não é maior porque esta é uma opção de vida dispendiosa: «Viver sozinho implica capacidade financeira e não está acessível a todos. É um luxo. Mas, se pudessem, mais portugueses, sobretudo os mais jovens, dar-se-iam a esse luxo.»

Na minha geração, era impensável sair de casa dos pais para ir viver sozinho. Saía-se para casar. Hoje, é normal sair para ir viver sozinho ou mesmo ir viver com o parceiro ou parceira, para experimentar a vida a dois antes de casar», Júlio Machado Vaz

O psiquiatra Júlio Machado Vaz, que vive sozinho, nota a mudança de paradigma que se operou nas últimas décadas. «Na minha geração, era impensável sair de casa dos pais para ir viver sozinho. Saía-se para casar. Hoje, é normal sair para ir viver sozinho ou mesmo ir viver com o parceiro ou parceira, para experimentar a vida a dois antes de casar. E há outra coisa. O casamento já não é «até que a morte nos separe». Hoje, e vejo isso muito no consultório, muitas vezes ao primeiro abano, vai cada um para seu lado.»

Mudanças culturais que alargam o leque de possibilidades e terão tido um peso relevante no aumento para o dobro, nos últimos vinte anos, do número de pessoas que vivem sozinhas, sobretudo nas faixas etárias mais jovens e em idade ativa. Rosário Mauritti vislumbra neste fenómeno aquilo que em linguagem sociológica se designa por microtendência de mudança social e que encerra uma «mudança radical da forma como concebemos viver a intimidade e as relações familiares. Grande parte das pessoas que vivem sozinhas não estão sós ou isoladas. Muitos falam na família de escolha, os amigos. E a maioria tem uma vida muito intensa em várias esferas da vida e a sua escolha facilita a conciliação dessas esferas. Não rejeitam a intimidade ou a família, apenas querem poder decidir o tempo e o espaço desses momentos de partilha.»

Entre as pessoas que Rosário Mauritti entrevistou para a sua tese de doutoramento, a investigadora verificou que o perfil workaholic era comum entre os que escolhem viver sozinhos. O investimento no trabalho e na carreira é mais fácil a solo.

Mas houve uma entrevista que a marcou. Uma senhora, viúva, toda a vida «presa» primeiro ao pai, depois ao marido, que quando deu por si sozinha viu nesse constrangimento uma libertação e foi dar uma volta ao mundo. Nem pensar em voltar a casar. As conquistas no domínio da igualdade de género, o maior nível de escolarização, qualificação e independência financeira das mulheres, concorrem, também de acordo com Mauritti, para a escolha de uma vida a solo. «A autonomia que conquistaram na esfera pública muitas vezes é subvertida na esfera privada, no contexto de uma relação, formal ou informal, porque é sobre a mulher que continua a pesar o trabalho doméstico. Muitas já não estão para aturar isso.»

Eric Klinenberg, que encara o crescimento em todo o mundo do número de pessoas que vivem sozinhas como uma revolução, sobretudo porque advém cada vez mais de uma escolha individual e implica cada vez menos solidão e isolamento, chama no entanto a atenção para o reverso da medalha. «Por vezes, a experiência é excitante, por vezes é difícil e angustiante. Viver sozinho enquanto jovem profissional bem-sucedido é diferente de fazê-lo quando se é uma viúva idosa ou um divorciado recente. O contexto importa. A minha preocupação prende-se com aqueles para quem viver sozinho é um constrangimento. As sociedades, em todo o mundo desenvolvido, estão a envelhecer rapidamente e não temos alojamentos adequados nem sistemas de cuidados e apoio para os milhões de pessoas que envelhecem sozinhas.»

Há que redesenhar as políticas sociais e os lugares onde vivemos – tanto as cidades como os edifícios – para dar resposta às necessidades desta sociedade secreta de pessoas que vivem e morrem sozinhas.», Eric Klinenberg

A preocupação é partilhada deste lado do Atlântico por Rosário Mauritti. Não é para menos. Em Portugal, metade das pessoas que vivem sozinhas têm mais de 65 anos. A outra metade para lá caminha. A esperança de vida é maior. Os nascimentos estão em queda há anos. «A longo prazo, o que vai ser destas pessoas que vivem sozinhas, seja por escolha seja pelas circunstâncias da vida? Como vão viver a velhice? Este é o grande desafio societal. É preciso pensar a cidade pensando nas pessoas.»
Pensar a cidade pensando nas pessoas mais velhas atravessa a tese de doutoramento do arquiteto António Carvalho. E para ele é claro que o envelhecimento da população e o facto de em idades mais avançadas existir maior probabilidade de as pessoas viverem sozinhas, e, podendo, quererem fazê-lo, tem de ser sempre equacionado em todos os projetos de arquitetura, seja ao nível da habitação seja ao nível do espaço público e das acessibilidades. «A ONU lançou o desafio das cidades amigas dos idosos. Uma cidade amiga dos idosos é mais fácil de usar e, portanto, é amiga de todos. É nesse sentido que devemos construir o futuro.»

Um futuro em que viver só seja uma escolha cada vez mais acessível a quem quer fazê-la e cada vez menos significado de solidão, isolamento e olhares oblíquos, porque é apenas isso: uma escolha.

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