OPINIÃO

Quando o mundo era a feira

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A 19 de março, Dia de São José, o lugar de Santana, em Leça do Balio (Matosinhos), ainda acolhe a feira anual. Mas já não tem a animação (nem a importância) regional de outros tempos, não tão distantes assim.

Se procurarmos São José em representações medievais, na pintura e na estatuária, vemo-lo como «figura marginal», pois havia dificuldade em perceber o lugar a atribuir à figura paterna do Deus-Menino, cuja conceção havia sido imaculada. Mas o reconhecimento foi feito, a imagem passou a ter posição central nas representações do presépio católico e o seu dia de invocação foi transformado em Dia do Pai, 19 de março.

Não deixa de ser curioso também que feiras em honra de São José se realizem em locais consagrados a Santa Ana, a mãe da Virgem. Como esta que aqui mostramos, na matosinhense freguesia de Leça do Balio. O lugar de Santana, reconhecido, na região do Grande Porto pela feira semanal que ali se realiza, continua a ser palco de eventos anuais, sendo o mais famoso de todos a Feira de São José.

Esta, todavia, já não tem hoje a grandeza de outros tempos, esses de que as fotografias, publicadas em 1961 pelo Jornal de Notícias, dão testemunho.

«Animação intensa, movimento constante e muita alegria» marcavam, para os repórteres de então, o ambiente de um evento em que se juntavam os grandes lavradores da região, então eminentemente rural, e que chamava muita gente da cidade. De tal modo que o congestionamento de trânsito era merecedor de nota especial. Outro lugar chamado Santana (São Mateus de Oliveira, Vila Nova de Famalicão) era igualmente afamado por acolher uma feira dedicada a este que é também padroeiro dos trabalhadores em geral, São José Operário.

«Nada lhe faltou», lê-se na reportagem de 1961. «Até um ou outro arremedo de desordem se registou durante o dia, sem consequências nem intervenção de autoridade, para dar mais caráter, mais tipicismo e mais animação ao importante certame.»

 

Pedro Olavo Simões
Arquivo JN