OPINIÃO

Quando a pornografia é o segundo emprego

Mudam os nomes, constroem personagens, fazem filmes para adultos nas horas vagas.

São quatro histórias pouco comuns. Scarlet Johnson trabalha numa multinacional de implantes dentários e é atriz de filmes para adultos. Richard Latino é personal trainer, Lilly Dole é massagista, são um casal e entram em filmes com bolinha vermelha. Ricardo é estratega na área do marketing e fundou uma produtora de filmes para maiores de 18 anos. A curiosidade arrastou-os para a indústria do sexo. Experimentaram, gostaram, ficaram.

«Não gosto de uma vida monótona, não gosto de estar parada, tenho sido feliz desta maneira». Scarlet Johnson, como é conhecida no mundo dos filmes para adultos, tem 26 anos, trabalha numa multinacional de implantes dentários, trata da marcação de consultas por telefone, gere contactos via Facebook. A sua chefe e as colegas mais próximas sabem da sua segunda ocupação. Não é coisa que esconda, mas também não é assunto de conversa com quem conhece ao de leve. «Isso não influencia o meu trabalho na empresa», diz. Estudou Relações Públicas e Comunicação Empresarial, mas não acabou o curso. Chegou a ter dois empregos. Trabalhou com crianças num ATL, aos 20 anos tinha o seu próprio salão de cabeleireira e de estética, que geriu durante dois anos. Por vezes, pensa voltar à universidade. «Talvez um dia volte a estudar».

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Há quatro anos entrou na indústria do sexo. É atriz em filmes para adultos, participou em «algumas dezenas». «Assistia a filme pornográficos com 14, 15 anos que me despertavam imensa curiosidade», recorda. Recebeu um convite para experimentar, pensou que não tinha nada a perder. Foi e ficou. «Tenho um fascínio muito grande pela área do cinema, pelas luzes, maquilhagem, e pela parte de representação». Participou no filme São Jorge, terceira longa-metragem do realizador Marco Martins, com Nuno Lopes no papel principal, que estreia na quinta-feira. «Gosto muito de cinema.»

Nos filmes para adultos, é desinibida como convém. «A sexualidade faz parte de todos nós. Em frente às câmaras, a Scarlet é uma pessoa que gosta de sexo, que gosta de se mostrar».

Estará no Eros Porto – Salão Erótico do Porto, que começa na quinta-feira, na Exponor, em Matosinhos, em shows de sexo ao vivo. Um evento que, na sua opinião, tem desmontado este meio. «Tem ajudado a abrir mentalidades. Se não houvesse atores para filmes de adultos não havia filmes de adultos. Se não houvesse atores para filmes de Hollywood, não havia filmes de Hollywood», diz. E o nome Scarlet surgiu quando um produtor francês olhou para si e lhe disse que tinha de se chamar assim, como a atriz de Lost in Translation. O batismo ficou.

Richard e Lilly

Richard Latino é personal trainer. Lilly Dole é massagista por conta própria. Ele tem 37 anos, ela 27. São casados, fazem filmes para adultos, e também estarão no Eros Porto em vários espetáculos. Lilly entrou primeiro no meio e disse aos pais o que andava a fazer. «Reagiram bem, disseram-me que ninguém tinha nada a ver com isso, que ninguém ia pagar as minhas contas», lembra. Abriu logo o jogo e admite que se ouvisse um não dos pais teria ficado quieta. «Os meus pais sabem e isso é que é o mais importante.» Há dois anos que concilia a atividade como massagista com as gravações de filmes. Já entrou em mais de 15, tem mais três gravações agendadas para este mês, e em abril partirá com Richard para o Brasil para um reality show de sexo.

«Tem mesmo de se gostar disso, trabalhamos com uma equipa enorme, é tudo preparado», diz Richard Latino.

Richard concorda. «Entrei por curiosidade, gostei e não pretendo sair tão cedo», confessa. Há sempre muitas perguntas à volta do assunto. Richard é bombardeado com questões quando sabem o que faz quando não está na pele de PT. «Perguntam-me muitas coisas, querem saber como se faz tudo». E Richard responde. «Não faço questão de esconder, nunca fui discriminado no meu trabalho, aceitam na boa e não fazem comentários», revela. No entanto, na sua perspetiva, o tema ainda é tratado com uma certa leviandade. «Ainda há muita hipocrisia, aqueles que criticam os que fazem os filmes são os mesmos que consomem o porno.» As mentalidades não se mudam de um dia para o outro.

«Vai demorar um tempo para promover esta indústria como uma coisa natural».

Ricardo, que prefere não dar a cara, tem uma agência de comunicação, desenha estratégias de marketing há 17 anos. Em 2013, criou uma produtora de filmes para adultos no Porto. «Estamos nesta indústria de uma forma séria, legal, não enganamos ninguém, e estamos a fazer uma coisa diferente do que se faz em Portugal. Não fazemos colagens de cenas para adultos e montamos um filme, fazemos um filme com cenas de sexo», explica. Foi o gosto pela produção audiovisual que lhe abriu o apetite. Começou com um site com conteúdos para adultos que acabaria por transformar-se na produtora. No primeiro filme, escreveu o guião, escolheu as personagens, foi o realizador.

Pesquisou sobre a indústria e percebeu que tinha potencial para ir longe. Insiste na ideia de que está a marcar a diferença nesta indústria a nível nacional. «Fazemos castings de forma intensa, lançamos caras novas». «Não é ainda um negócio, é uma marca comercial forte. Temos um produto único, genuíno, mais caro, mais dispendioso», sublinha. Antes do casting, Ricardo faz um briefing e explica tudo sem rodeios. Tudo às claras. Tem de ter a certeza que tem à sua frente alguém que quer muito entrar nesse mundo. Alguns ficam pelo caminho.

«Em cada 20, quatro ou cinco vão ao casting», revela. Há mais homens do que mulheres a bater-lhe à porta. «Mas as mulheres são mais seguras», comenta.

Neste momento, a produtora tem seis filmes, mais três a lançar em breve, e exporta para os Estados Unidos, Canadá, Brasil, Espanha, França. Ricardo, que percebe de marketing, tem os olhos postos no mercado externo. «Os portugueses não gostam de pagar pela pornografia», adianta. E, além disso, sente um «falso moralismo em Portugal». «Quem aponta o dedo é quem telhados de vidro.»

Sara Dias Oliveira
Fotografia de Leonardo Negrão/Global Imagens e Shutterstock