OPINIÃO

Pelos olhos de quem viu a morte

O mar de fogo que afogou mais de sessenta pessoas no sábado passado levou àquelas terras agora feitas de cinza os jornalistas que foram os nossos olhos e ouvidos nos últimos dias. Estas são as histórias, as fotografias e as lembranças de morte dos repórteres da Global Imagens, do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias e da TSF. Aconteceu há uma semana, vai ficar-lhes gravado na memória para sempre.

Tanto morriam ali como noutro lado

Nuno Abreu, fotógrafo, Global Imagens

A fotografar, quase consigo iludir o medo, esquecer que o sinto, mas ele acompanha-me sempre, misturado com o medo desesperado de quem viu a vida transformada de verde em preto naquele inferno de chamas. Tenho andado por Pedrógão, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera, sem nunca perceber bem onde uma terra termina e começa a outra.

Os lugares vão ficando para trás, mas nada se apaga da memória: um senhor a defender o terreno com uma mangueira em Sobreiro, a apagar as fagulhas trazidas pelo fogo. Um bombeiro a ver chegar o apoio aéreo que terá acabado por salvar aquela mesma aldeia. Três idosos de bengala sentados nos degraus da capela de Fato depois de o filho de uma delas os ter levado para ali. Não queriam ir, tanto morriam num lado como noutro, mas lá se resignaram a ficar a ver tudo arder à volta. E no meio deste medo, os bombeiros. Vêm de longe, determinados, e sente-se que estão ali para dar a vida. É a coisa mais bonita neste inferno.

Parecia uma guerra

Rui Oliveira, fotógrafo, Global Imagens

Maximiano Lopes tem 62 anos, mas nos olhos e nos ombros caídos parece mais velho. Não pregou olho a noite toda. Continua à espera. Às nove e meia da noite de sábado encontrou os pais, mortos, em casa, na aldeia da Moita. Arrastou-os para o terraço e ligou o 112. INEM, GNR, Proteção Civil. Alguém. Ninguém. São quatro da tarde de domingo e continua à espera. Estou a fotografar desde as nove da manhã. Ia com o José Miguel Gaspar direto a Pedrógão Grande mas o aparato fez-nos parar na estrada da Morte. Chamavam-lhe EN236-1. Nada nos preparou para aquilo. Sou fotógrafo há dez anos, já vi corpos esfaqueados, baleados, mortos por acidente. Se não era o excesso de velocidade era a rixa, se não era o ajuste de contas era o fogo posto. Quando estou a trabalhar, tenho de entender o que aconteceu, mas ali, naquele inferno escuro e quente, enquanto disparava, não encontrava razão. Aquelas pessoas esbarraram na morte. Queimadas vivas. Podia ter sido eu. Os meus pais. Nunca me senti tão impotente.

«Não me queria enganar, mas aqui há ainda tantas pessoas que viram a morte, mãe, que lhes ardeu o coração, mãe, são tantas e precisam tanto de falar, não as podemos deixar sozinhas, mãe, nunca mais, isto nunca mais pode acontecer.» José Miguel Gaspar

Não consigo tirar da cabeça uma imagem que nunca vi

José Miguel Gaspar, jornalista, Jornal de Notícias

É uma serpente preta e veloz, é ofensiva, é pior que a muçurana, a cobra que come cobras, não tem olhos, e é toda feita de alcatrão. Estou em cima dela sozinho, parado, é de noite, é madrugada, é o terceiro dia inteiro que cá estou, não ouço senão os meus passos, os grilos no pasto pretos, não os vejo mas estridulam, ouço um cão latir lá longe, apuro e sustenho a respiração, fecho os olhos para ouvir melhor, e mais nada, é estranho, já é hora de cantarem os canoros, abro os olhos, vejo esquissos escritos tortos, não vejo nenhumas linhas direitas, vejo aquela parede de árvores torturadas, torturadas até à morte, muitas não morreram de pé. Varro os olhos, no céu há estrelas, há poucas, olho em frente até ao fundo e vejo a parede encruzilhada de árvores que tenho dos dois lados, estou no vértice de um V, no meio da estrada EN236-1, a matrícula da morte. É uma faixa de 500 metros, um cruzamento em cada ponta, Vila Facaia de um lado, Pobrais do outro. Fecho os olhos durante cinco segundos e depois abro-os de repente. Aquilo que vi dentro da cabeça, trinta pessoas em carros, o fogo tornado demente, 600 graus de velocidade, não vou contar à minha mãe, só lhe vou falar da escuridão.
Queria cá voltar desde que cheguei do Porto domingo, passo aqui várias vezes ao dia, a perseguir as placas dos nomes das terras, as placas estão quase todas torradas, os nomes deixaram de existir (mas reaparecem se lhes passarmos a mão), e passo sempre sem parar, sim, vim a voar, agora a minha mãe já sabe, claro que já choramos os dois ao mesmo tempo (mas devidamente ainda não), acho que regresso na quinta, mãe, não me queria enganar, mas aqui há ainda tantas pessoas que viram a morte, mãe, que lhes ardeu o coração, mãe, são tantas e precisam tanto de falar, não as podemos deixar sozinhas, mãe, nunca mais, isto nunca mais pode acontecer, mãe, mas ninguém lhes explica, elas precisam de saber porquê, porquê, mãe, porquê, eu também preciso, tu sabes, eu faço notícias, não devia poder sair daqui até saber de todos, deles todos, como morreram e porquê, é a minha obrigação, mas eles são tantos, mãe, estou tão cansado, deito-me e já estou a acordar, já estou na rua, não percebo, não durmo, não sonho, há três dias que deixei de sonhar, mãe, reparei nisso, será para sempre?, sinto isto, sinto que se sonhar os desrespeito, isso existe, mãe, perdermos para sempre esse poder?

Um manjerico no meio do fogo

Carlos Ferro, jornalista, Diário de Notícias

Andar por estes dias no triângulo Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera não foi tarefa fácil. Não pela falta de estradas, mesmo que a maior parte dos dias sejam passados em carreiros onde quase só circulam veículos dos bombeiros, nem pelos 40 graus que se sentiam na pele.
A dificuldade de passar nestas terras é a de olhar para quilómetros de floresta e só ver paisagens negras. De cheirar fumo por todo o lado, de passar numa estrada onde morreram três dezenas de pessoas e ver tudo queimado, o alcatrão irregular de tão forte que foi o fogo. E isso arrepia. Muito.
Foi o ver as pessoas a encher pavilhões de bombeiros ou de clubes desportivos com tudo o que acham que pode ajudar a minorar a dor e as necessidades de quem ficou sem casa.
E, ao mesmo tempo, ver a despreocupação de duas crianças na aldeia de Sobreiro que brincavam junto à casa onde moram sem ligar ao facto de ser uma das duas áreas que não tinham ardido. A outra foi uma área pequena que teimou em ficar verde. Verde no meio do negro. Nessa aldeia uma voluntária que ia levar comida aos bombeiros já tinha batizado esse fenómeno: «É um manjerico no meio do fogo». Não sei se é a descrição mais correta, mas deu algum alento a quem durante uma hora só tinha visto destruição e negro. Muito negro, com fumo a sair do chão, casas destruídas. E aldeias vazias, mesmo que as casas estivessem intactas.
Nestes dias ouvimos histórias de arrepiar: pessoas encontradas mortas em habitações onde os bombeiros só puderam chegar na segunda-feira, um estudante desaparecido e o passa-palavra para que alguém o pudesse encontrar. Mas também há histórias felizes – como a de uma criança que no sábado, quando o fogo chegou perto de onde morava, saiu de casa sem os pais verem. Uma vizinha
viu-a na estrada e não sabendo dos pais dela, pegou na miúda e levou-a para o centro de Avelar e até domingo à noite este foi um dos dramas deste incêndio infernal: os pais desesperados sem saber da filha, os vizinhos desesperados sem conseguirem falar com os pais da criança. Esta história acabou bem. Ouvi-la foi um momento de «descanso» no meio da desgraça. E não a vamos esquecer. Tal como será difícil não recordar a passagem pela estrada onde tanta gente morreu no sábado. Um dos bombeiros com quem falei dizia: «Temos de seguir em frente.» Eu acrescento: seguir talvez, mas durante muitos anos estas encostas negras e despidas de vegetação não vão deixar.

«Quando percorro a floresta e campos ardidos, também pelos espaços que resistem e continuam verdes, não consigo conter as lágrimas. Muitas vezes em silêncio, como os olhares que se cruzam nos sítios onde as chamas tudo levaram.» Céu Neves

Estas são as minhas raízes

Céu Neves, jornalista, Diário de Notícias

As minhas raízes estão aqui no centro do país. Campo, serra, mar, rio, vales e montes, mantos verdes cortados e delimitados por águas. Uma paisagem deslumbrante e variada. E, sobretudo, um meio rural, de gente que vive a terra que habita de uma forma talvez incompreensível para quem é da cidade. Um terreno não é apenas um terreno, é uma propriedade, que conta a história de gerações, passando de pais para filhos. Pode ser uma vinha, uma horta, um pinhal, um animal, uma casa. Lembro o orgulho do meu pai: «Este pinhal é teu. Viste a vinha? Estas terras são vossas, as minhas filhas.» E de quando repetia: «Não se vende o que herdámos dos nossos pais. Não deixes cair estas paredes.»
Quando percorro a floresta e campos ardidos, também pelos espaços que resistem e continuam verdes, não consigo conter as lágrimas. Muitas vezes em silêncio, como os olhares que se cruzam nos sítios onde as chamas tudo levaram. Não dizemos, mas pensamos: «Não há nada a fazer!»
Quando o meu dever é entrevistar as pessoas em vez de chorar com elas. Escrever em vez de passar a mão pelo ombro, reportar o que aconteceu. Não esquecer
o caderno quando alguém está caído à beira da estrada, desorientado, que se lembrou de ir até à horta, mas cujas incapacidades físicas, e talvez mentais, já não o permitam.
Percebo os apelos dos operacionais para que as pessoas pensem mais nas vidas do que nos bens. Mas também percebo quem persiste em ficar, julgando poder socorrer a casa que construiu com o esforço de uma vida, mantendo recordações de pais e avós. Percebo quem resista a deixar cabras, ovelhas, patos e cães. Percebo a imensa tristeza perante uma árvore ardida, um animal que não se consegue socorrer.
Dias tristes estes, com uma ou outra alegria. Um abraço de um familiar que se julgava perdido, as ajudas que vêm de todo o lado. Regressar a casa e encontrá-la intacta. E um episódio que ainda me surpreende e que talvez não devesse, que demonstra como Portugal evoluiu. Um rapaz de Castanheira de Pêra leva-nos ao ponto mais alto onde há rede de telemóvel. Demonstra conhecer o sítio. Pergunto-lhe: «Mora aqui?» Responde: «Quem mora aqui é o meu namorado. E os meus sogros moram do outro lado da serra. Não consigo comunicar com eles.»

«O fumo pesa, arde nos olhos, mas não é o ar denso, o soco de calor de hoje que nos sufoca. São as palavras, entrecortadas por suspiros, como se finalmente conseguissem respirar.» Carla Sofia Luz

O cinza que nos rouba o ar

Carla Sofia Luz, jornalista, Jornal de Notícias

Cinza. Quilómetros e quilómetros a preto e branco. Uma terra de frescura verde a quem, subitamente, arrancaram a cor. As aldeias, encolhidas entre milhares de eucaliptos e de pinheiros sem vida onde restaram os velhos e os oásis de férias, emergem, bicolores, pelos caminhos estreitos que o fogo cercou. Sucede-se a toponímia entre sinais tingidos de negro. Nodeirinho, Vila Facaia, Várzea, Pobrais, Sarzedas… O fumo pesa, arde nos olhos, mas não é o ar denso, o soco de calor de hoje que nos sufoca. São as palavras, entrecortadas por suspiros, como se finalmente conseguissem respirar, ora aceleradas pela memória ainda – e certamente para sempre – dolorosa, ora travadas a fundo por um nó que cresce, que aperta a garganta, com o despertar lento da consciência de que tudo mudou. E da maneira que mais amedronta: sem aviso prévio, sem indício, num piscar de olhos. Consumiram-se projetos de centenas de vidas, ficou o fumo, as carcaças de carros e, pior, os corpos negros, irreconhecíveis, salpicados na terra, na estrada. Tantos.
Por tudo isto, o ar pesa em nós, recém-chegados. Sufoca-nos, forasteiros que carregamos a dor alheia para compor o puzzle inimaginável das nove horas de fornalha. O «vento em redemoinho», o barulho, ai o barulho que assombra, as labaredas no negrume noturno que os encurralou, a noite sem sol tão quente que descose a pele, o pânico ao volante numa fuga cega com o pé no acelerador que guiou dezenas de famílias para a morte, encurraladas pelo fogo e por acidentes em cadeia. Restam os carros aos molhos, encavalitados uns nos outros. E ficam os ses… E se…
Fátima do Nodeirinho, de mão a esmagar o peito, é um dos rostos generosos do cansaço que nos emprestou a sua memória. Olhos vermelhos de chorar.
A reviver a dor, junto ao tanque comunitário que a salvou, a ela e a mais onze, incluindo a mãe inválida que só pedia para que a deixassem morrer no chão onde tem raízes, e a suplicante Gina que clamava pela salvação da filha Bianca. E eu, com um filho em casa a quilómetros de distância, sinto o coração a travar a marcha, a tal falta de ar, as lágrimas na borda dos olhos. Nada me diferencia desta mãe, a não ser que eu não estava lá.

A dor de quem fica

Carlos Manuel Martins, fotógrafo, Global Imagens

Carros retorcidos. Corpos calcinados. Metal fundido. Olhamos para esta destruição, tanto fumo e fogo e desespero, e uma pessoa só consegue pensar que a natureza é uma força que nos ultrapassa. Em Nodeirinho, onde morreram dez pessoas, dava para sentir a dor dos que ficaram, muitos deles queimados. Houve gente que só se salvou porque a água nos tanques da roupa a protegeu das chamas. E depois em Figueira, outra aldeia, tirei a foto que mais me marcou: a de uma mãe e um filho exaustos, angustiados, sem saberem como puderam sobreviver quando todos os anexos da casa ficaram queimados, incluindo a capoeira com os animais. A senhora falava comigo e chorava, falava e chorava, e eu a tentar não ser intruso no sofrimento dela. Das trinta pessoas que tinha a aldeia, metade morreu num isolamento de casas misturadas com eucaliptos e pinheiros. Em Derreada de Cima, onde fui à procura de sinal no telemóvel, o dia parecia noite devido à cinza e a GNR evacuava a população. É gente simples, sem recursos para limpar a floresta. E agora ficaram quase sem nada.

A sorte que os salvou e o azar que os matou

Artur Machado, fotógrafo, Global Imagens

Cheguei aqui segunda-feira de manhã, vim para fotografar os sobreviventes e conhecer as histórias. De tudo o que ouvi, de tudo o que vi, fico com uma certeza: foi a sorte que os salvou. Não o engenho. Não foi saberem o que fazer numa situação daquelas – acho que ninguém sabe ao certo o que fazer numa situação daquelas. Algumas pessoas fugiram à morte porque fugiram ao fogo. Outras porque se fecharam em casa e esperaram que passasse. Algumas correram e salvaram-se, outras correram e morreram. É isso que me impressiona mais. Olhar para aquela gente, para aquelas casas que se aguentaram, e pensar que foi uma questão de sorte. E que somos impotentes com um monstro daqueles à solta. Hoje [terça-feira], em Sarzedas de São Pedro, fotografei um dos funerais e o cemitério onde os corpos foram sepultados. À volta está tudo negro. A morte passou pelos mortos e atirou mais seis para aqui. Amanhã vou fotografar mais sobreviventes. E funerais. A vida e a morte de quem teve sorte e de quem bateu no azar a escaldar.

«Começamos a projetar o futuro e a olhar para lá da árvore queimada que deu origem a tudo isto. Pensamos na floresta negra e o que dela sobrará para os que ficam. Como vão eles sobreviver depois de serem considerados sobreviventes?» João Alexandre

Os que ficam

João Alexandre, jornalista, TSF

Quando acorremos a um incêndio da dimensão daquele que ceifou dezenas de vidas humanas, o primeiro impulso é o de correr para junto da linha de fogo. Ali, é maior a probabilidade de contar as histórias dos familiares das vítimas da forma mais rápida e certeira, conseguir um exclusivo ou recolher o melhor som.
Porém, se são os holofotes que nos cegam e nos deixam à mercê do sensacionalismo e da lágrima fácil de captar, com o passar das horas, outras são as sensações e dúvidas que nos conduzem por entre um cenário que, por estes dias – mesmo para os que vestem a gabardina da insensibilidade – é verdadeiramente demolidor. Se, ao chegar, é o imediatismo que nos tolda, aos poucos começamos a projetar o futuro e a olhar para lá da árvore queimada que deu origem a tudo isto. Pensamos antes na floresta negra e o que dela sobrará para os que ficam. Como vão eles sobreviver depois de serem considerados sobreviventes?
No meio da torrente, outras notas nos assaltam. Choramos com as histórias de vida, de azar e de sorte de cada um dos habitantes? Sim. Somos confrontados por realidades e dramas humanos com as quais temos alguma dificuldade em lidar? Também. Mas, no corre-corre da busca pelo sound bite, há detalhes que, ainda que pertencendo ao mundo dos humanos, não são prioritários. E que nos escapam. Gritaram por socorro, viram-se encurralados pelas chamas, morreram queimados nas matas, nas casas, nos currais, nas estradas, acorrentados a uma casota num qualquer sítio ermo ou, até, à porta de casa. Passamos por eles, olhamos horrorizados, sentimos o cheiro e pensamos sempre por que razão terão ficado para trás. Sim, são animais. Os animais que, não raras vezes, são o sustento de famílias e comunidades mais isoladas, que servem de companhia a quem viu os filhos partir para outras paragens ou aqueles que, além de serem parte essencial da biodiversidade, atraem turistas a zonas cada vez mais desertificadas. Não são notícia. Mesmo que, mais tarde, sejam o principal aliado de quem fica.

Estas imagens não se enterram

Filomena Abreu, jornalista, Jornal de Notícias

Em Cadafaz, dizia quem de lá fugiu, só o falecido lá ficou, dentro do caixão, na capela. Mas deixem-me falar na primeira pessoa. Aqui não há eles. Nem elas. Nem fazer de conta que não respiro as cinzas. Sou uma coletora de retratos neste crematório a céu aberto. E tudo isto dói. Amontoo fotos de bebés. Fotos de sorrisos. Fotos de pessoas em férias. Fotos de famílias inteiras. Tenho que correr. Apanhar mais. Saber-lhes as histórias e os dias. E os porquês. E juntar nomes. Para formar memórias em forma de lápides. Mas é preciso. E as que não contamos? Temos que as contar a todas. Para não se repetirem. Para ficar registado. Para nunca nos esquecermos destas estradas que não nos levaram a lado nenhum. Não se reza por aqui. E apetece.
Onde está uma cruz salvadora? Perde-se a fé. O rosário de nomes perdidos é grande.
Fátima, nome de mulher. Rodrigo, nome de bebé. Vasco e Luísa e o filho, sem nome. Martim e Bianca, nomes de irmãos. Crianças e bebés. Encurralados. Cercados. Sufocados. Falta parança. E dizem que foi o inferno.
A mão demoníaca que nos faz estremecer.
E não é de amor. É de medo. É preciso rezar. E afastar o inferno de lume que corre agora noutras direções. Corre tanto. Correu tanto naquelas horas de cegueira. Poucos sabem o que contam. Pouco conta daquilo que se conta. Nem os mortos. Contam-se a conta-gotas e conta-se que há mais, dos isolados, dos que tomam o café da manhã a olhar o pasto e o verde a cercar os animais. Mas isso era dantes.
«Ninguém imagina o que aquilo foi.» A frase é exausta. Exaurida de sentido. E o silêncio. E as lágrimas.
Nunca me aproximei do crepitar das chamas. Nunca senti os pulmões a arder por causa do fumo intoxicante. Nunca escrevi os relatos de quem viu uma vida reduzida a cinzas. O que se escreve e o que se conta a cada quilómetro de estrada calcinada. Não depois de se saber o número, provisório, de mortos e de feridos. Provisório há três dias. Sempre a somar. Não depois de irmos descobrindo os rostos, as idades e as histórias de almas que as chamas roubaram. As perguntas são difíceis de fazer. As respostas ganham-lhes em crueldade.
Nas aldeias onde o fogo arrasou tudo há esse sossego medonho e arreganhado de crueldade. Em Cadafaz, dizia quem de lá fugiu, só o falecido lá ficou. Dentro do caixão. Na capela. Estava morto. Sabe-se. Com a certeza das certezas. Sabe-se tão pouco. Amanhã passa. Será que passa?

«Devia haver uma máquina que apagasse a memória. Pelo menos, as más memórias. Aquelas que nos vão perseguir durante muito tempo.» Carlos Rodrigues Lima

Eu estive lá

Carlos Rodrigues Lima, jornalista, Diário de Notícias

Devia haver uma máquina que apagasse a memória. Pelo menos, as más memórias. Aquelas que nos vão perseguir durante muito tempo, que saltaram automaticamente, um «pop-up» mental, para a fala quando alguém espoletar o assunto. Daqui a uns anos, perguntar-me-ão: «Lembras-te de Pedrógão?». A resposta será automática: «Eu estive lá.» A partir deste momento, tenho a certeza, começarei a desfiar um conjunto de memórias, que envolvem hectares de terra queimados, corpos tapados por um qualquer lençol, casas destruídas, pessoas em desespero, bombeiros fatigados.
Ainda por cima, por uma qualquer fatalidade divina, as tragédias só acontecem aos simples, aos pobres de espírito a quem, um dia, foi prometido o reino dos céus. É certo que é uma promessa tentadora, sair para bem longe daqui e logo para um reino, mas a forma de entrada nesse mundo que alguém escolheu para aquelas 63 pessoas provoca-me raiva, porque não lhes foi dado um direito essencial: mais uns minutos para lutar pela vida.
Das dezenas de depoimentos que recolhi, as derivações da palavra morte foram repetidas até à exaustão. O elevado número de mortes ajuda a banalidade do facto. As pessoas tendem a conformar-se com a morte. «Não havia nada a fazer», disse-se, perante o cenário de destruição da noite anterior, que só pode ter sido obra da natureza, porque nenhum deus teria coragem para semelhante ato no século xxi.
Mas também houve quem fizesse alguma coisa, como Manuel Costa, habitante de Nodeirinho. Só à sua conta, três pessoas conseguiram entrar no tal tanque que salvou vidas. No domingo estava cansado, sujo, transpirado. Ajeitou o boné até que o sono tomou-lhe conta do corpo. Deitou-se no banco a chorar.
O amigo deu-lhe uma palmada e disse-lhe: «Calma, Manel!». Pensei que apenas o queria confortar pelo cansaço, mas não. É que o Manuel salvou muita gente, mas não sabia do filho, que tentou fugir ao fogo numa carrinha. Não consegui saber se o filho de Manuel está vivo. Espero que sim. Porque, apesar de todo o bem que fez, é essa a memória que Manuel carregará.

Até onde o fogo queimou

Orlando Almeida, fotógrafo, Global Imagens

Cheguei na segunda-feira, muitos hectares ardidos após o início do incêndio. Não são as labaredas demolidoras que vejo à minha frente. Mas elas passaram por aqui. Sigo a estrada que liga a serra de Penela a Castanheira de Pera. O silêncio da devastação. Viro por um caminho de terra batida que me leva, por acaso, a um posto de observação da Guarda Florestal encerrado. É de lá que a lente capta até onde o fogo queimou. De um lado e de outro de uma estrada intacta, os terrenos queimados e as árvores que se despiram de vida. Um canal de televisão faz emissão especial em direto, durante toda a tarde, a partir do quartel de Bombeiros de Figueiró de Vinhos, mas não há, por aqui, um único televisor ligado. Ninguém quer ver imagens do incêndio, de uma destruição que lhes está nas queimaduras da pele. A evolução das frentes de fogo vai-se sabendo no «boca a boca», numa linguagem que mais parece – e é – um código entre bombeiros. No entanto, há um sentimento percetível por todos sem dizer uma palavra: o inferno é aqui.

Nós e o gigante

Nuno Pinto Fernandes, fotógrafo, Global Imagens

Os carros. Chocam-me os carros carbonizados como testemunho das vidas que ficaram pelo caminho num sábado que a trovoada amaldiçoou. Fotografo incêndios há anos, num ritual macabro de verão. Desta vez, não fui para a frente do gigante. A minha lente é testemunha do rasto que as chamas vão deixando. Pes­soas com mangueiras ou enxadas a tentar o (im)possível porque não podem parar. Protegem a terra com a vida. A terra que é delas, não do fogo. A terra que recusam deixar a morrer. Uma carrinha ardeu a cem metros de uma moradia que o fogo poupou num ato raro de misericórdia da natureza. Cruzo-me com bombeiros que chegam de outras localidades. Compram mapas da região, pedem direções para ajudar no combate. Chegam com o que têm que é tão mais do que tantos de nós – coragem. Num dos momentos, os bombeiros perdem contacto via rádio. Somos só nós e ele, o gigante. A lente não descansa, porque a luta ainda não está ganha. Mas já tanto se perdeu.

*Os depoimento dos fotógrafos (que continuavam a trabalhar no terreno) foram recolhidos por Ana Pago, Ana Patrícia Cardoso e Paulo Farinha.

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