OPINIÃO

Paulinho, o campeão que ultrapassou o síndrome de Down

Paulo Henriques é campeão e recordista do mundo de atletismo para pessoas com síndrome de Down. Finta prognósticos, não era suposto ter tamanha resistência, correr longas distâncias. Tem 36 anos, bom coração, e sonhos. Gostava de ter a braçadeira de capitão de Cristiano Ronaldo ao serviço da seleção, conhecer Marco Paulo e dar um abraço a Marcelo Rebelo de Sousa. A população juntou­‑se e deu­‑lhe uma praça com o seu nome na praia da Barra, em Ílhavo.

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografias de Maria João Gala/Global Imagens

Naquele verão de 2010, dizia a toda a gente que ia ser campeão do mundo. De vez em quando, durante os treinos, quando passava a correr à porta da casa do então presidente da Câmara de Ílhavo, Ribau Esteves, tocava à campainha para dizer ao autarca que ia ser campeão do mundo e que voltaria para lhe mostrar a medalha.

Assim foi. A 9 de setembro de 2010, Paulo Henriques, mais conhecido por Paulinho, bateu os recordes dos 800 e 1500 metros em Puerto Vallarta, no México, e foi campeão do mundo de atletismo para pessoas com síndrome de Down. No ano seguinte foi campeão da Europa dos 1500 metros em Cagliari, Itália, título que revalidou em 2013 em Roma. Há dois anos, mais recordes como atleta com síndrome de Down.

O recorde do mundo da meia­‑maratona em Peso da Régua com duas horas e nove minutos e o recorde mundial dos dez quilómetros de estrada na Costa Nova com 52 minutos e 13 segundos. Em 2015, voltou a ser campeão do mundo dos 1500 metros em Bloemfontein, na África do Sul. Estas são as suas maiores conquistas, mas há mais medalhas e troféus arrumados num armário do quarto.

Paulinho tem 36 anos e não para, não desiste. Quando corta a meta, põe os braços no ar, benze­‑se e envia um beijo para o céu. Às vezes, imita os gestos de braços do jamaicano Usain Bolt nas vitórias. «Correr dá­‑me energia, correr dá­‑me força para ganhar.» E explica o percurso habitual do treino com gestos a ajudar as palavras: «Vou à rotunda do boi, ao restaurante, tem uma estradinha pequena, um lago por dentro.» São dez a catorze quilómetros, sozinho ou acompanhado, em percursos que memorizou.

Recordista dos 800 e 1500 metros no México em 2010, foi campeão do mundo de atletismo para pessoas com síndrome de Down. No ano seguinte sagrou­‑se campeão da Europa dos 1500 metros, título que revalidou em 2013.

Começou a correr há vinte anos em Ílhavo, onde vive. José Manuel, o irmão, atleta, levava­‑o aos treinos e Paulinho, enquanto esperava, corria com as outras crianças. A vontade e o jeito chamaram a atenção dos preparadores de educação física. Havia ali qualquer coisa.

Havia vontade e determinação. «Começou a fazer umas corridas e gerou­‑se uma tempestade perfeita à volta dele», conta o irmão. «Nunca ninguém imaginaria onde ele chegou.» Chegou longe, contrariou prognósticos. «É a única pessoa com síndrome de Down no mundo capaz de correr longas distâncias», garante José Henriques.

Repetiram­‑se eletrocardiogramas e nada de problemas cardíacos, o que não era expetável. «O Paulinho reverteu uma situa­ção, é um ponto de viragem, e os médicos não conseguem explicar. Não é um milagre, como já ouvi dizer, é força de vontade», comenta o irmão. Paulinho dá um abanão na ciência e dá outra perspetiva à vida. «Não tem de estar enclausurado numa instituição. A deficiência não é um bicho­‑de­‑sete­‑cabeças como há uns anos e o Paulinho derrubou um pouco esse preconceito.»

Desde os 14 anos que vive com José Manuel em Ílhavo. Há pouco tempo mudou­‑se com o irmão e a cunhada, Raquel Páscoa, para um apartamento perto da Vista Alegre. Paulinho tem um quarto novo nas águas-furtadas. Cama feita, roupa dobrada, medalhas e troféus dentro de um armário, secretária arrumada. Raquel garante que é sempre assim. A mãe ensinou­‑o
a ser independente, a vestir­‑se, a tratar da higiene pessoal, a fazer a cama, a limpar o pó, a aspirar.

Deixou­‑lhe um legado forte e partiu no dia em que Paulinho chegou do México com o título de campeão mundial. Sem dizer nada a ninguém, colocou a medalha na cama da mãe. Uma semana depois, teve direito a uma festa simples para comemorar a conquista, um momento em memória da mãe. Até Rosa Mota apareceu lá em casa.

É verão e Paulinho está de férias do Centro de Ação Social do Concelho de Ílhavo (CASCI), onde passa os dias ocupado em várias atividades. «Faço tapetes, corto tiras, lavo carros, faço peças de teatro, danço. Às terças, toco instrumentos, toco tambor. Adoro.» E faz os gestos como se estivesse a tocar. É canhoto e isso não atrapalha o gosto pelos ritmos. Há outras paixões na sua vida. A música popular portuguesa é uma das mais fortes.

Música no leitor de CD, microfone na mão e imita os seus cantores preferidos com ou sem guitarra. Sabe as músicas de cor e Marco Paulo tem direito à mítica passagem de microfone de uma mão para a outra. Quim Barreiros, Roberto Leal, Tony Carreira, Ágata, Anselmo Ralph e Andrea Bocelli fazem parte da discografia e dos espetáculos que vai fazendo lá por casa. Sushi, a cadela que leva a passear todos os dias, vem espreitar as cantorias. Sobe as escadas, assiste a mais um momento musical e pede mimos ao Paulinho.

Depois das férias, mais treinos. Joana Agostinho treina Paulinho no CASCI há sete anos. Em maio de 2015 acompanhou­‑o à meia­‑maratona do Douro, 21 quilómetros que o atleta fez a correr, não a caminhar. Joa­na esperava­‑o na meta, pelas suas contas duas horas depois da partida, quando uma ambulância chegou à zona da chegada. «Entrei em pânico, para ver se era ele.» Não era. Paulinho chegava pouco depois. «Foi extremamente emocionante. Ele vinha com um grupo de pessoas que o rodea­vam e acompanhavam e meia hora depois estava completamente recuperado e já andava a tirar fotografias.»

José Henriques também não esquece o dia em que lhe ligaram para dizer que o irmão estava estendido numa rotunda. Foi o tempo de se meter no carro e chegar ao local. Paulinho tinha acabado de beber água, tratado da sua própria desidratação, e seguiu com o treino antes de a ambulância chegar. «É persistente e resistente e tem uma grande paixão pela corrida. Não é velocidade, é resistência», diz Joana Agostinho.

Com tanta energia e boa disposição, é bem conhecido na zona. Uma ida à praia da Barra, um percurso curto, pode demorar três horas. Paulinho dá abraços, espalha boa disposição por onde passa. No café, na rua, nas lojas, ele entra para cumprimentar ou saem para lhe dizer olá. «Ei, atleta, está tudo bem?» Sai um aperto de mão ou um abraço. «Ó Paulinho, estás como o vinho do porto.» Mais sorrisos, novo aperto de mão, mais uma rodada de abraços. Paulinho é homem de muitos abraços.

Toca guitarra, canta ao microfone,
conhece de cor os temas dos cantores preferidos. De Marco Paulo a Quim Barreiros, de Tony Carreira a Anselmo Ralph ou Andrea Bocelli.

O irmão guarda uma imagem que não lhe sai da memória. «Foi na praia da Barra. Passou por uma mulher idosa e abraçou­‑a, o que é normal. O Paulinho continuou, mas eu vi que ela estava a chorar e perguntei­‑lhe o que se passava. Contou­‑me que o Paulinho era a única pessoa que lhe dava abraços, nem os filhos o faziam.» E há ainda a história do casamento em que Paulinho pediu uma máquina fotográfica e chamou os funcionários do restaurante para as fotografias da praxe com o casal. Algumas das suas imagens foram para o álbum do casório.

De abraço em abraço, de sorriso em sorriso, Paulinho tem sonhos. Assistiu aos jogos do último Europeu e gostava de ter a braçadeira do capitão Cristiano Ronaldo. Mas também gostava de tirar uma selfie com o Presidente. «Gostava de estar com o Marcelo, dar­‑lhe abraços, adoro ele, adoro.»

José e Raquel estão a seu lado todos os dias. «Tem uma capacidade de resiliência enorme, uma grande força de vontade. Quando começou a correr, a dedicação com que encarava o treino era mesmo muito forte, tinha essa caraterística», lembra José. Raquel tem um brilho especial nos olhos. «Tenho muito orgulho. Tenho aprendido mais com ele do que ele aprende comigo.» E não há paninhos quentes.

«Somos exigentes, se não faz bem, ensinamos para fazer melhor.» Uma família nos bons e nos maus momentos. «O que nós queremos, enquanto família, é ele que seja feliz», diz o irmão. Paulinho, és feliz? «Sim, sou feliz, a música alegre faz­‑me feliz. Correr também.»

«Paulinho, és o nosso Ronaldo»

A frase entrou no ouvido de José Henriques e não mais saiu. Foi apanhada no ar no batismo do novo parque urbano na praia da Barra, em Ílhavo, em julho. Paulinho deu o seu nome a esse espaço. A iniciativa partiu da população da Barra, que numa petição pediu à câmara que fosse feita uma homenagem a um atleta da terra, campeão mundial de atletismo para pessoas com síndrome de Down. Recolheram cerca de 900 assinaturas e foram bater à porta da autarquia. Na reunião de câmara, a vontade da população foi aprovada por unanimidade. Além da medalha de mérito desportivo do concelho, Paulinho tem agora o seu nome gravado numa praça da sua praia.

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