OPINIÃO

Ode ao ócio

Negar o ócio deu na palavra “negócio”. Deve ser por isso que desconfio dos que se apresentam como homens e mulheres de negócio. Quem está sempre a negar o ócio deve andar muitíssimo cansado. E o cansaço nunca é aliado das boas decisões.

Sempre fui miúda caseira. Um dos maiores prazeres da vida é poder passar um dia inteiro sem sair de casa. Protegida pela minha bolha, a fazer nada, só a olhar para o vazio e a ver passar os minutos. O ócio, como diriam os antigos gregos, que sabiam bem como viver a vida.

Aqui no mundo moderno, o ócio é malvisto, o que é de lamentar. A nossa cabecinha precisa de vazio para poder descansar. Precisa de estar consigo mesma e ser confrontada com o tédio para que este se transforme em ócio, que mais não é do que o tédio bem aproveitado.
A diferença entre tédio e ócio é mesmo a forma como são olhados. Para um pessimista, será tédio. Para um optimista, ócio. Isto porque o optimista sabe como retirar do nada algo de positivo.

Para se pensar não podemos fazer. Temos de estar quietos para que as ideias venham ter connosco, se instalem e comecem a trabalhar cá dentro, arrumando a casa ou desarrumando-a, conforme.

E mesmo que não se queira pensar, mesmo que a cabeça peça apenas para estar no vazio, enquanto o corpo se restabelece, o ócio vence o negócio, seu arqui-inimigo.
Negar o ócio deu na palavra «negócio ». Deve ser por isso que desconfio dos que se apresentam como homens e mulheres de negócio. Quem está sempre a negar o ócio deve andar muitíssimo cansado. E o cansaço nunca é aliado das boas decisões.

Por causa desta coisa meio armada em filosofia de vida que nos têm vindo a martelar que apenas do trabalho e esforço constantes poderão vir todas as riquezas e felicidade por que ansiamos, andam tantos em burn out, que é como quem diz, exaustos, queimadinhos da tola, em curto-circuito.

O problema é que o amor não se compra e a paz de espírito também não. Nisso estou com os gregos. O melhor da vida é o ócio, especialmente se partilhado com amor.
O que quero mesmo dizer é que não embarco nisso de negar o ócio. Não que não goste de trabalhar. Mas o que seria do trabalho se não houvesse o seu contrário? Bem sei que do lado de quem manda daria jeito que o ódio ao ócio vencesse e o negócio florescesse por entre os escravos do trabalho sem direito a não fazer nada.

Ode ao ócio, pois então, contra os dias preenchidos com o fazer sem pensar. Talvez se passassem mais tempo sem fazer nada, alguns líderes e homens de negócio não perdessem tempo a fazer tanto disparate.