OPINIÃO

O que fiz eu para merecer isto?

Estávamos há um bom par de horas dentro do jipe e sabíamos que o caminho ia apenas a meio. O carro avançava aos solavancos por uma picada de terra vermelha, caminho apertado e cheio de pedregulhos, ladeado por capim mais alto do que nós.

Os macacos saltavam nas árvores por cima das nossas cabeças e a última humanidade que nos passara diante dos olhos – uma aldeia pobre de casas de adobe e colmo, com gente sorridente e que se passeava quase nua – acontecera há demasiado tempo.

A verdade é que, durante aquele trajeto, ninguém disse uma palavra. À medida que nos embrenhávamos na selva em direção ao fim do mundo, ia-se instalando um medo inconsciente em todos nós.

Nas páginas desta revista há uma reportagem – Estás viva, minha irmã, estás viva – que conta a história de uma mulher que regressou a Angola 52 anos depois de ser trazida para Lisboa pelas tropas portuguesas, durante a Guerra Colonial. Isabel Batata Doce – assim a batizaram os soldados – tinha dois anos quando foi resgatada. Caíra das costas da tia quando esta fugia de uma emboscada e o lugar aonde nos dirigíamos agora era precisamente esse, o da captura. O Zenza do Golungo. O fim do mundo. E o início de uma das mais belas histórias que alguma vez pude contar.

Os dias anteriores tinham sido de festa, música, muita emoção. E eu vi, nessa semana, o grande espetáculo da vida. Pessoas que nunca se tinham visto antes, que não tinham sequer memórias umas das outras, abraçavam-se agora com o aperto de uma saudade de sempre, como se os braços uns dos outros fosse o destino porque aguardavam desde que tinham posto os pés no mundo. Se fosse contada num livro, esta história não seria tão credível. Se há teoria que confirmei em Angola é que a realidade supera sempre a ficção.

Pois agora, enquanto cumpríamos o trajeto para as matas onde tudo tinha começado, o barulho finalmente cessara e eu fiquei a pensar em todas as coincidências que nos tinham levado ali. Quais são as probabilidades de uma criança de dois anos tornar-se um raio de luz no meio da escuridão da guerra? Quais são as probabilidades de, ao fim de cinco décadas, uma família continuar a procurar a sua filha perdida? E quais são, desculpem o egoísmo da pergunta, as probabilidades de eu me ter cruzado com esta pessoa, mudar a vida dela e ela mudar a minha?

Pensando melhor, talvez o silêncio que guardámos naquele rumo de solavancos para o Zenza do Golungo não fosse apenas medo. Acho que, ao viajarmos para o lugar onde tudo tinha começado, percebemos sem querer a solenidade que existe quando a vida se resolve. A única coisa em que eu conseguia pensar era que tudo o que nos tinha levado aqui era uma sucessão de felicíssimos acasos, de coincidências quenenhum de nós podia alguma vez controlar – e no entanto estávamos ali, atores e espetadores ao mesmo tempo, a subir ao palco da humanidade.

De repente, o fotógrafo Rui Oliveira – o melhor companheiro que podia ter nesta reportagem – virou-se para o motorista e resolveu tudo o que havia para resolver. «Põe lá uma música.» O António ligou o rádio e, assim que soaram os primeiros acordes de Djonsinho Cabral, dos Tubarões, desatámos todos a dançar dentro do jipe. E ouvimos a música uma vez, e outra vez, e outra, até chegarmos ao fim da estrada.

Houve ali um segundo que olhei para a Isabel – e soube que ser jornalista é o melhor ofício do mundo. Estava um calor insuportável, os macacos saltavam nas árvores, o capim era mais alto do que nós, não víamos ninguém há demasiado tempo e há dias em que a vida é uma coisa bastante bonita.