OPINIÃO

Quando acabam as férias, o que é que a nova geração de emigrantes leva na mala?

Pedro, Inês, Marta, Edi, Jéssica e Joel pertencem à nova geração de emigrantes. Têm menos de 30 anos, deixaram o país há menos de quatro e na hora de fazerem a mala levam objetos que ajudam a matar saudades. Levam livros, prendas e compotas da mãe, vinho tinto, café, máquinas fotográficas com imagens para recordar. E muitas memórias que não cabem na bagagem. Sentem falta da família, dos amigos, do gato, do mar, da praia, e de comer sardinhas como deve ser. Agosto é, por excelência, o mês que os emigrantes regressam à terra para matar saudades.

Texto de Sara Dias Oliveira

Inês Silva esteve uns dias em Portugal para matar saudades da família e dos amigos e já partiu para o Reino Unido, para iniciar os trabalhos como bolseira de doutoramento em Estudos Lusófonos na Universidade de Warwick. Vive agora em Leamington Spa, antes esteve em Belfast, onde era leitora Camões do Instituto da Cooperação e da Língua na Queen’s University Belfast e na Universidade Nacional da Irlanda. Chegou ao Reino Unido em setembro de 2014.

Inês, de 29 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes, voltou a fazer a mala e partiu. Levou a câmara fotográfica com imagens da praia, dos seus livros e filmes, uma boa garrafa de vinho tinto, um queijo da serra e compota da mãe.

«Gosto de ter saudades sozinha, por isso quando elas chegam, desligo o skype e vou jardinar. Gosto de ver fotografias da praia porque tenho muitas saudades do final de tarde à beira-mar», diz Inês Silva.

Saudades? Sim, Inês tem saudades. «Gosto de ter saudades sozinha e, portanto, quando elas chegam, desligo o skype e gosto de jardinar. Gosto de ver fotografias da praia porque tenho muitas saudades do final de tarde à beira-mar. Tenho saudades de comer sardinhas verdadeiras, daquelas que nos fazem sair do restaurante pequenino a cheirar a fogareiro. Tenho saudades de ler na rede do meu jardim. Tenho saudades da minha biblioteca e dos meus filmes que ficam no sótão da minha casa em Portugal. Tenho saudades de ler o jornal em papel no café». E mais saudades? «De prometer que vou ao café da minha rua por dez minutos e chegar uma hora mais tarde porque fiquei a conversar com os vizinhos. Sinto falta dos meus amigos, da minha família, da minha da irmã, da minha mãe, do meu pai», conta.

Joel Batoca tem 28 anos, é médico dentista, chegou a Paris em novembro de 2015, e também sente saudades da praia. É dentista e está a fazer uma pós-graduação. Todas as vezes que regressa a Portugal, coloca na mala «um pouco de areia ou uma concha ou outro pedaço da praia e do mar». Porque é disso que sente mais falta quando está em Paris.

Marta Santos, 22 anos, com curso de Design Gráfico, também está em Paris, a trabalhar em restauração. Chegou à capital francesa em setembro de 2015. Este ano, passou uns dias em Portugal e voltou a partir. «A cada regresso levo o costume: as prendinhas da mãe, aquele biscoitinho para matar a fome e pouco mais», diz.

O resto não cabe na mala, mas fica gravado na memória. «Os belos dias passados com a família e os amigos, o bronze no corpo, a barriguinha cheia e a cabeça mais leve. Entre a correria da cidade, o trabalho e tudo o resto, muitas vezes nem há espaço para sentir saudades. Por norma, aparecem uns dias antes de saber que vou regressar à terrinha, a gente fica ansiosa e só quer o amanhã e o depois de amanhã e o depois depois de amanhã…»

Marta sente falta da praia e do mar, seja inverno ou verão, e dos almoços de família. «E da tranquilidade – que depois de viver numa cidade tão grande acabamos por esquecer o seu significado.»

«Acabo sempre por ocupar um grande espaço (e peso) na mala com livros, o que me permite, mesmo longe, estar a par do que se vai fazendo em Portugal», diz Pedro Almeida.

Pedro Almeida, 29 anos, está do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a fazer o doutoramento em Estudos Portugueses e Brasileiros na Brown University e a dar aulas de Língua Portuguesa e de culturas luso-afro-brasileiras na mesma faculdade. Partiu em setembro de 2013, há dois anos que mora em Providence, em Rhode Island, na costa Leste, entre Nova Iorque e Boston. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos e é mestre em Teoria da Literatura, pela Universidade do Porto.

Aproveita as férias para vir a Portugal, rever família e amigos, e comprar livros publicados recentemente das áreas que mais lhe interessam: história, literatura e cultura dos espaços de língua portuguesa em torno do Atlântico, sobretudo numa perspetiva pós-colonial.

«Acabo sempre por ocupar um grande espaço (e peso) na mala com livros, o que me permite, mesmo longe, estar a par do que se vai fazendo em Portugal», refere. «Isso e, é claro, a máquina de barbear», acrescenta. Tem saudades da família, dos amigos e do seu gato Simba. «E, acrescento, a cidade do Porto. Em especial com a renovada vida que a enche agora.»

«O ler e falar em português é das coisas que tenho mais saudades, além da família e dos amigos, claro», diz Jéssica Damião.

Jéssica Damião está aqui ao lado, em Valência, Espanha. Tem 23 anos, partiu em fevereiro deste ano, e está a trabalhar como desktop publisher numa startup da cidade espanhola. Tem 23 anos e é formada em Design Gráfico e Multimédia. «Nunca levo muita coisa na mala porque não dou muita importância a objetos. Mas levo sempre livros escritos em português porque tenho saudades da língua.» «O ler e falar em português é das coisas que tenho mais saudades, além da família e dos amigos, claro», revela.

Edi Lopes tem 26 anos e anda por África, está no Gana desde 2014 e trabalha na área de gestão de produção, logística e apoio técnico de uma empresa de tintas. Na hora de fazer a mala, nada de especial. Roupa e café. «A Internet é que convém não faltar, isso faz com que o problema da distância das pessoas mais próximas seja agilizado», conta. As saudades são da família, dos amigos, da comida e dos «espaços de lazer.»

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