Manuel Jorge Marmelo Manuel Jorge Marmelo

O meu amigo otimista, Guilherme Pinto

verso

O meu amigo mais otimista apontou às crónicas que tenho escrito para ocupar esta página o obscuro pecado do pessimismo. Tentei desta vez, por isso, conferir um tom diferente ao que escrevesse. Sob o título Breve Lição de Otimismo, comprometi-me a procurar aprender com ele aquilo que os dicionários definem como uma «tendência ou disposição geral para atender sobretudo ao lado positivo das coisas» e para enfrentar o futuro com confiança. Todavia, o meu amigo Guilherme Pinto morreu três dias antes do prazo de entrega da crónica que escrevi e que agora já não serve. Se isto não fosse já suficientemente lamentável, constato ainda que esta é a primeira vez que me refiro a Guilherme Pinto como meu amigo, conforme ele me pediu que fizesse.

Quando comecei a trabalhar com o presidente Guilherme Pinto, conhecia-o pouco e mal. Por isso, e durante estes dois anos e meio, chamei-lhe sempre «presidente». No início da sua última semana de vida, ele disse-me que esperava que eu continuasse a visitá-lo quando cessasse funções. Até ao fim dessa semana, porém, ele quis continuar a trabalhar tão arduamente como podia – e depois morreu sem que eu tivesse tido ocasião de ser apenas seu amigo.

Neste dois anos e meio, o meu amigo Guilherme Pinto esteve a lutar com a doença que o matou. Quase nunca, porém, o vi desanimado. Pelo contrário, ele perseverou no otimismo. Costumava terminar os discursos com a frase «não se esqueçam de sorrir», e procurava sempre animar os imbecis que, como eu, se dão ao luxo do pessimismo. Creio que terei aprendido alguma coisa com ele, pois, a dado passo, sugeri ao meu amigo que semeássemos versos nas ruas de Matosinhos. Talvez por influência sua, quis acreditar que a leitura inopinada de uma frase pintada no chão pode contribuir para melhorar o dia de quem passa, enchendo-o de maravilha e espanto.

Fizemos, até agora, duas colheitas dessas flores rubras irrompendo do asfalto. Da safra mais recente, releio muitas vezes, quando atravesso a rua, o verso do brasileiro Caco Ishak, «Deixei que o sol nascesse em mim», que descreve perfeitamente o pacto que o Guilherme Pinto tinha firmado com a luz e o otimismo. Agora, porém, reparo também no verso de Mariano Marovatto, «a mudança era uma morte que viria no meio da noite» – leio e penso na madrugada em que o telefone tocou e me disseram que o meu presidente tinha morrido.