O jesuíta português que desenhou para Scorsese

Nuno Branco

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Um padre jesuíta viciado em desenhos ajudou a fazer um trailer para Silêncio, de Martin Scorsese, o filme sobre missionários jesuítas portugueses no Japão do século XVII que estreia na próxima quinta‑feira.

Esta é a história do urban sketcher Nuno Branco – que podia ter sido arquiteto mas acabou sacerdote devido a uma paixão de fé. O filme de Martin Scorsese sobre os missionários jesuítas portugueses no Japão do século XVII e a perseguição de que os cristãos eram alvo nesse país – baseado no livro de Shûsako Endô – chega finalmente às salas esta semana. Historicamente, Portugal já está envolvido. Mas o país é também o único, de todos onde Silêncio será distribuído, que terá direito a um trailer local.

Tudo começou com uma sugestão da Companhia de Jesus em Portugal, parceira oficial e distribuidora do filme para o mercado nacional. Sabendo que tinham, entre os seus, um ilustrador de extraordinário talento, o urban sketcher Nuno Branco, os jesuítas portugueses lançaram o desafio. A NOS propôs à Paramount e o resultado já deverá estar disponível.

O trailer animado do filme de Martin Scorsese foi feito pelo padre jesuíta português e por uma artista japonesa – Nuno desenhou as personagens asiáticas, Kumi Matsukawa os jesuítas portugueses. O convite não surgiu por obra e graça do Espírito Santo: este jesuíta de 39 anos é conhecido pelos seus cadernos de desenho. Fazer as ilustrações para um filme sobre jesuítas portugueses no Japão do século XVII parecia apenas o mais óbvio. O resultado é um trailer em que o seu traço rápido e um estilo muito linear salta à vista. Isso e um assumir de palavras de fé, que estão no filme e lhe são tão caras.

Nuno não tinha visto ainda a obra de Scorsese quando começou a desenhar no livro de harmónio. Nem quando o visitámos para esta reportagem em Coimbra. «Tenho companheiros jesuítas que já o viram, na antestreia no Vaticano, e dizem que está bem feito, duro mas que levanta questões. De certeza que nos deixará a pensar, sobretudo no campo da fé e do juízo. Vamos lá ver é se as pessoas estão preparadas para ver a fé mostrada desta maneira crua.»

Nuno Branco apenas conhecia o livro de Shûsako Endô e o trailer internacional. Dir‑se‑ia que foi um trabalho de inspiração. Ou de fé. «Achei o livro muito duro. Procurei não um traço constrangedor, mas sobretudo libertador. Estamos a falar de cristãos que estão aprisionados mas que têm o coração livre. Tentei apanhar as cenas retratadas, mesmo tendo em conta que os desenhos não têm um determinado rigor. Mas tudo isto mexe comigo. Creio que os desenhos e estes temas perguntam o que é ser fiel. Afinal, quem somos nós para julgar quem supostamente perdeu a fé? Espero que nos meus desenhos fique aquela reflexão de que somos muito rápidos a julgar. Esquecemo‑nos de que só Deus nos pode julgar.»

O trabalho consumiu‑o durante duas semanas e envolveu‑o de forma bastante emocional. Para qualquer das atividades que faz, seja este trailer, seja os trabalhos como desenhador na rua, precisa sempre de autorização dos superiores, quanto mais não seja porque o ideal de vida de um jesuíta é o serviço à comunidade. O que agora o deixa motivado é o facto de a imersão neste tema que o filme de Scorsese lança, o sacrifício dos jesuítas no Japão, a apostasia (renegação da fé) e a forma como espalharam a fé cristã aos japoneses, tornou ainda mais forte a sua própria fé. «Fiquei a pensar muito. O que é isso do silêncio de Deus? Será a ausência ou é antes um sinal? Será uma outra maneira de Ele comunicar? Há silêncios que nos permitem uma proximidade maior connosco ou com o outro. O silêncio de Deus mexe comigo. Quando faço retiros de silêncio não é só porque vou para algum sítio retirar o som do telemóvel… O silêncio é mais do que as pessoas pensam! Ao ler este livro senti que estava a dialogar com um companheiro jesuíta.»

Nuno Branco não corresponde à ideia feita do padre conservador e da velha escola. O homem de fé, com 39 anos e pensamento moderno, tem alma de artista e uma capacidade de criação fora do vulgar. Assume bem o «rótulo» de urban sketcher, ou «ilustrador urbano» e revê-se no conceito. Ao som da palavra, há quem pense em graffiters, há quem pense em boémios de cabelo desgrenhado a desenhar paredes, há quem pense em grupos de skaters de roupa desportiva pela cidade a pintar espaços públicos e privados. Também os há, mas um urban sketcher só tem de ter um caderno na mão e uma caneta ou lápis. No caso de Nuno, um caderno que até dá para guardar no bolso. «Ando sempre com ele, observo muito a cidade. Mas uma coisa é o meu gosto por desenhar e rabiscar, outra é quando se dá uma coisa mais espiritual.»

Em Coimbra, onde vive, o caderno acompanha‑o sempre e já lhe aconteceu sentir o impulso para desenhar depois de observar situações do dia‑a‑dia. Ao lado da sua secretária no Centro Universitário Manuel da Nóbrega, do qual é o principal responsável e onde celebra missas diárias, vemos uma série de desenhos. Cenas de viagem, rostos de pessoas que encontra numa estação ou estruturas de edifícios são alguns exemplos.

Tal como muitos jesuítas, a vocação para seguir uma vida ligada a Deus só veio mais tarde. Apesar de ser de uma família católica e ter sempre frequentado a igreja, nunca pensou ser padre. Saiu de Évora, onde cresceu, e chegou a Lisboa para estudar Arquitetura. Durante os cinco anos do curso e início de um estágio, o máximo que tentou foi formar um grupo de estudantes católicos, mas desistiu por falta de interessados.

No terceiro ano começou a gostar mais do curso, sobretudo quando começou a ter uma vertente mais prática, embora sentisse que lhe faltava alguma coisa. A vida de futuro arquiteto chegava‑lhe? Aos poucos, começou a sentir uma inquietação. Até que, no quarto ano, leu um livro que lhe veio parar às mãos e lhe mudou a vida. «Nem era muito dado a leituras religiosas, sobretudo ali na universidade, onde aquele pessoal dado às artes tinha sempre um pé atrás com a instituição da igreja, mas acabei por ler esse livro sobre Deus e a oração. Chama‑se Se Tu Soubesses o Nome de Deus, do padre Luís Rocha e Melo, e Deus era apresentado de maneira muito acessível. Ajudou muito a desconstruir a imagem de Deus e quis ler mais do mesmo autor. Descobri que era um padre jesuíta e quis ler mais livros de padres jesuítas. De repente, vi ali uma experiência de fé na qual me senti muito completo.»

Primeiro quis ser missionário. A vocação para o sacerdócio só veio depois. Tinha a ideia romântica de A Missão, o filme de Roland Joffé de 1986, onde havia também um missionário português, mas na América Latina. Aos poucos, foi‑se então entregando‑se ao mundo jesuíta, ainda que tudo continuasse a correr bem na vida académica. «Tinha prazer com a arquitetura, estava a ser chamado para um emprego, tinha boas notas, mas as interrogações perseguiam‑me. Só aquilo não me chegava. Até que, depois de ano e meio de estágio no Alentejo, não muito longe de casa, percebi que o mais importante era estar livre. E estar livre era não estar comprometido só com uma pessoa, mas perceber que a minha missão passaria por esta mobilidade e estar comprometido com as pessoas com quem estou e trabalho. A vida comunitária foi uma grande atração.» Em pouco tempo começou a fazer retiros de silêncio e exercícios espirituais, tendo‑se seguido o habitual percurso de estudo de um padre jesuíta (noviciado incluído) bem como os votos de castidade e de pobreza.

«Como arquiteto, nunca cheguei a projetar nada. Mas dentro de mim nunca desapareceu um desejo de criação apenas por me ter tornado padre. Isto do urban sketcher começou em 2013, já depois da minha formação total como jesuíta, quando fui convidado para uns retiros de diários gráficos pelo artista Mário Linhares, que tem uma tese sobre como alinhar a arte e a espiritualidade. E o desafio nesses retiros é propor uma experiência de fé através do desenho. Só se percebe experimentando e têm participado crentes, não crentes e artistas. São retiros que tanto podem ser em Ourém como em Itália e costumam durar um fim de semana prolongado.»

Nuno é atualmente diretor do Centro Universitário Manuel da Nóbrega (CUMN), onde dá assistência a jovens estudantes, faz sacramentos, orienta grupos de voluntariado, celebra missas a quem quer aparecer num adorável sótão transformado em igreja. Mas também organiza tertúlias, passeios, peregrinações. Chega de manhã e sai à noite. A seu cargo está também a Leigos para o Desenvolvimento, a ONG que promove voluntariado de longa duração em África.

Diz‑se feliz e, enquanto percorre as salas do CUMN, percebe‑se que aquele é o mundo de Nuno Branco. Quando volta à comunidade de Cernache, perto de Coimbra, onde vive com 14 outros jesuítas, sente o prazer de nunca estar sozinho. «Essa é uma das características dos jesuítas. Uma vida verdadeiramente comunitária e só vivemos de donativos. Não procuramos a riqueza.»

Silêncio

OS PORTUGUESES DE SCORSESE
Um filme de milagres sem respostas. Em Silêncio, de Martin Scorsese, só cabem perguntas. Já se disse que era um filme em forma de oração, mas não é bem verdade. É antes um filme em estado de prova espiritual. Como uma experiência nova para o espetador. Depois de A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997), é a derradeira reflexão do realizador sobre a religião, ele que foi educado no seio de uma família católica de emigrantes italianos em Nova Iorque. Baseado no romance de Shûsako Endô, conta a história de dois missionários jesuítas portugueses que vão até ao Japão do século XVII para averiguar sobre o desaparecimento do padre Cristóvão Ferreira, o mentor de ambos que supostamente se converteu ao budismo e renunciou à fé cristã. Será uma jornada de perigos imensos sobretudo quando no Japão havia uma «Inquisição» contra os católicos. A história reside na forma como um desses padres, Rodrigues, é testado para também cometer apostasia depois de ser aprisionado pelas autoridades japonesas. Filmado com um recato impressionante e perfeitamente em sintonia com os valores despojados dos jesuítas, Silêncio tem uma rara qualidade de confissão. É para ser visto com a alma e de fé aberta mas são duas horas e quarenta sem grandes explosões emocionais ou desvios épicos. Não é um filme de Hollywood, é antes uma odisseia sobre o que se passa dentro de nós.

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