OPINIÃO

A galáxia far, far away faz 40 anos e continua a fazer-nos ver estrelas

Andamos há quatro décadas a sonhar com jedis, sabres de luz e princesas espaciais. No próximo dia 25 comemoram-se 40 anos da estreia de «Guerra das Estrelas», o épico de ficção científica que fez de George Lucas um homem muito rico e de milhões de pessoas por todo o mundo verdadeiras aficionadas de Obi Wan, Han Solo, Luke Skywalker e companhia. E o fenómeno não para de crescer. A Força está de parabéns.

Texto Rui Pedro Tendinha

A galáxia «far, far away» que George Lucas criou há quarenta anos está cada vez maior. Não há meio de abrandar. Quando o primeiro filme se estreou, em 1977, a Fox estava longe de imaginar que estava a iniciar o maior fenómeno de popularidade da história do cinema mundial. E o próprio realizador também não tinha noção disso. Lucas só queria fazer uma space opera para gaiatos de 12 anos, como o próprio reconheceu em abril, na última convenção para fãs, a Star Wars Celebration 40th Anniversary, em Orlando, EUA. Em menos de nada, o filme revelou-se um negócio da China, com «fãs instantâneos» e lotações esgotadas nas mais de cem salas onde se estreou.

O fenómeno Star Wars junta paixão e iconografia de entretenimento popular, sem equivalente na literatura ou na televisão. Só mais tarde o fenómeno Harry Potter poderá ter provocado loucura semelhante.

O segredo eram efeitos visuais de ponta para a época e uma arqueologia narrativa que tocava em dilemas da mitologia clássica (conflitos familiares, traições) e um imaginário de fantasia com arquétipos míticos e um cheirinho de Tolkien. Repetidamente, George Lucas, que já tinha feito ficção científica para graúdos em THX 1138 (1971), não se cansa de dizer que quis fazer algo despretensioso, mas é comum aparecerem teses universitárias que veem referências shakespearianas nestas histórias.

Encontros como o que juntou Harrison Ford (Han Solo), a produtora Kathleen Kennedy, o realizador e produtor George Lucas, Billie Lourd (Connix) ou Mark Hammil (Luke Skywalker) são sempre sinónimo de reuniões de fãs.

Guerra das Estrelas foi sempre ganhando uma mitificação incontrolável. Os três primeiros filmes (ver cronologia) foram acompanhados por gerações e gerações. Nos anos 1980 foram o material de ficção que mais paixão criou. Paixão e iconografia de entretenimento popular, sem equivalente na literatura ou na televisão. Só mais tarde o fenómeno Harry Potter poderá ter provocado loucura semelhante.

O negócio foi de tal modo gigante que uma indústria em Hollywood foi fundada à sua custa: Lucas criou a LucasFilm, estúdios de som como o THX e de efeitos visuais como a Industrial Light Magic. Tudo graças a uma jogada do realizador, que prescindiu praticamente de um ordenado a sério no primeiro filme, apenas 500 mil dólares, em troca dos direitos e mershandising das personagens.

O dinheiro que tudo isto dá

Vinte mil milhões de euros de merchandising, mais seis mil milhões com os filmes e outro tanto com videojogos, DVD e Blu-ray. A máquina registadora Star Wars não para de trabalhar.

Quando George Lucas negociou honorários baixos pelo primeiro filme (1977) em troca dos direitos e mershandising das personagens, o presidente da Fox, Alan Ladd, terá pensado estar a poupar milhões perante um realizador que tinha acabado de fazer American Graffiti, fora nomeado para um Óscar mas tinha sido ignorado nas bilheteiras. Mau negócio: até hoje, brinquedos, jogos e livros geraram mais de 15 mil milhões de euros. Afinal, Star Wars é uma religião, a marca mais valiosa de Hollywood, pela qual a Disney pagou a Lucas quatro mil milhões de dólares (por isso, até 2019 tudo vai ser bem esmifrado com um filme por ano…).

A saga Star Wars já gerou mais de sete mil milhões de dólares. Ainda assim, os filmes da Marvel (Thor, Avengers, Iron Man, etc.) e os Harry Potter juntos faturam mais. Em Portugal há culto, sim, mas a saga Velocidade Furiosa ou os filmes Gru, o Mal Disposto vendem mais bilhetes do que os Star Wars.

Nos EUA, os videojogos originam mais lucros do que os filmes. O último faturou mais de seiscentos milhões de euros (cada jogo custa cerca de cinquenta). Uma aposta mais do que ganha da Disney Interactive. Não se fala muito disso porque os videojogos vendem-se sem grandes gastos de marketing. Ao todo, com os jogos e todos os DVD e Blu-ray vendidos, a saga originou cerca de seis mil milhões de euros, números astronómicos que a Disney agora, mais do que nunca, quer reforçar.

Bonecos, quadradinhos, porta-chaves e canetas

Ao longo dos anos, o universo Star Wars controlado e imaginado por George Lucas teve também um desenvolvimento para lá dos filmes. As bandas-desenhadas de Star Wars acabam por ser uma espécie de cartilha destas histórias. Tudo começou em 1977, mas depois, graças a direitos e estratégias, alguns comics ficaram registados como os «canonizados», mais ou menos oficiais. Hoje, tudo é controlado pela Marvel Comics.

George Lucas negociou honorários baixos no primeiro filme («apenas» 450 mil euros à época) em troca dos direitos e mershandising das personagens. Ficou rico.

Nos videojogos, vivemos tempos sensoriais estimulantes, onde jogos como Battlefront conseguem uma proximidade do fan boy com sabres de laser e droids. São centenas de jogos com vários universos desta saga. Mas, heresia para os fãs, a Lucasfilm sempre olhou para eles como mershandising. E aí temos de pensar num infindável leque de T-shirts, brinquedos, cartas, cromos, jogos e figuras (que com o tempo ganham valor).

O mershandising de Star Wars é uma economia quase paralela, uma máquina de fazer dinheiro (quase 20 mil milhões de euros), quer a nível oficial quer no fabrico caseiro pelos próprios fãs (os colecionadores até preferem a T-shirt feita por uma facção de fãs ou umas botas de Princesa Leia concebida por um fanático). Desde que, em 2014, a Disney ficou com os direitos da franchise, as lojas Disney aproveitaram o filão e talvez tenham tornado o mershandising mais orientado para a pequenada. Vai-se a uma loja Disney e percebe-se isso mesmo, mas também nos parques temáticos da marca é possível comprar sabres de luz. Um colecionador pode ficar arruinado se quiser artigos de coleção vintage. O capacete de Darth Vader oficial custa quase seiscentos euros. E não é por acaso que Justin Trudeau, primeiro-ministro canadiano, foi recentemente apanhado com meias Star Wars.

Celebrar em grande

Em abril, durante quatro dias, fãs de todo o mundo juntaram-se em Orlando, na Florida, para celebrar os 40 anos da saga.

A Star Wars Celebration 40th Anniversary teve direito à presença de George Lucas e Harrison Ford. Estas celebrações oficiais decorrem há vinte anos e nos últimos tempos têm sido anuais. Trata-se de uma fonte de receita considerável para a LucasFilm, com entradas a 150 dólares e centenas de expositores que vendem objetos de colecionador e toneladas de mershandising.

Para o ano, sem filme oficial, não está prevista a realização. O ambiente é de típico baile de máscaras onde não se encontra um único fã à paisana. Um recreio para toda a família (os fãs fazem questão de levar as crianças) que inclui painéis com as estrelas, uma universidade para ficarmos por dentro dos códigos da Força, sessões de speed date que têm sido frutuosas em namoros e casamentos e sessões de autógrafos. Nesta Páscoa, o ponto forte foi a apresentação do trailer do novo filme, o oitavo da saga, com estreia marcada para o natal: Star Wars, Os Últimos Jedi.

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