OPINIÃO

O Festival da Canção e a diversidade

Raças, estilos, idades diferentes, todos a cantar canções de qualidade, ou como um evento pop pode ser cultural.

Há muitos anos que não ligava nenhuma ao Festival da Canção. Lembro-me de ser um acontecimento quando andava na primária, de disputar no recreio «suplementos» com as letras das canções que saíam na TV Guia – o papel pardo ficava ainda mais amarelo com as nossas mãos pequeninas, enquanto nós decorávamos as letras. Sei algumas até hoje, como o Bem Bom das Doce ou o Playback do Carlos Paião. Sem vergonha e tudo vivido com grande orgulho na música nacional. Este vejo-o, claro, a esta distância, porque na altura parecia-me natural.

Em toda a minha vida acho que conheci apenas uma pessoa fanática do Festival – o meu ex-camarada da secção de Artes do Diário de Notícias, o Nuno Galopim. A música portuguesa trilhou outros caminhos – alguns de grande inovação e qualidade. O panorama mediático também – e o Festival da Canção foi sendo substituído por programas de talentos em que as pessoas procuravam mais imitar estilos do que ter um próprio. Não saberei nomear nem uma canção que tenha ganho nos últimos 20 anos.

Estava eu neste tom quando o Festival da Canção me entrou pela casa dentro, num domingo sonolento, daqueles em que a TV fica ligada por desfastio, depois do final do telejornal, a acompanhar a preparação da semana. Dei por mim a espreitar à porta da sala, apenas porque as músicas me foram chamando a atenção. E a ficar. A observar quem as cantava, como as cantava.

Desfilaram à minha frente várias pessoas cheias de talento e alegria, um grupo que poderia facilmente designar como sendo um bom catálogo do Portugal contemporâneo, diverso e moderno.

Vi e ouvi a voz grave de diva de Deolinda Kinzimba, a angolano-portuguesa que nasceu em Luanda, viveu na Tanzânia e veio estudar para Guimarães, onde terminou o secundário e entrou em direito, a viver sozinha. Vi Celina Pereira, uma intelectual de peso que se encantou com a música tradicional portuguesa em Évora, já participou em mais de 40 discos e toca acordeão. A mesma paixão que, fui investigar, levara Jorge Benvinda a criar os Virgens Suta e a ser um dos dinamizadores de uma casa de cante alentejano.

Confesso que o que me fez correr mais rápido da cozinha foi reconhecer a voz fresca de Lena d’Água. A entoação dela tocou numa memória de juventude. Uma voz que se solta do seu corpo de mulher amadurecida e vive por si, e, quase como uma admoestação, lamenta que ela, a sua dona, a tenha deixado escondida todos estes anos. Vi o fadinho inicial de um rapaz banal com uma voz espetacular, Fernando Daniel. E os festivaleiros, mas sem nunca lhes fugir o pé para a desgraça, Viva la Diva. E, até, aquele que se atreveu – neste contexto – cantar uma bela canção em inglês, Pedro Gonçalves. A canção que ganhou, do amaneirado Salvador Sobral, é de uma beleza que só nos poderá pôr a fazer boa figura «lá fora», na Eurovisão.

Gostei da diversidade do país onde vivo que me foi mostrada neste Festival. Cores, idades, raças, estilos. Não sei se foi de propósito. Mas deu-me orgulho em Portugal, nestes tempos difíceis de um mundo cada vez mais homogéneo.

[Publicado originalmente na edição de 12 de março de 2017]