Ana Bacalhau Ana Bacalhau

Números redondos

Foram dez anos que passaram num ápice. Desde aquele primeiro encontro, em que se acendeu a centelha, passando pelo primeiro concerto, quando percebemos que ao estendermos a nossa música ao público ele a aceitava e nos devolvia um aplauso, até aos discos, tournées, muitos e muitos palcos, aventuras, desventuras, histórias para mais tarde contar aos netos.

Parece um daqueles filmes de domingo à tarde, com o típico guião ao género de filme americano, em que o improvável consegue acontecer. É claro que no nosso caso não podemos prever se vamos ser felizes para sempre, até porque ninguém o é, mas também é precisamente aí que reside a graça da coisa. E depois, todos os trambolhões hão de servir para aprender a dar cambalhotas no futuro. E daquelas acrobáticas, com um arquear de costas e braços triunfante, como nas competições de ginástica olímpica.

O guião da Deolinda, quem o escreve, vamos sendo nós, mal ou bem, mais rascunhado ou menos rascunhado. Mas voltando à Deolinda e aos seus dez anos de vida, no início, não se poderia prever isto que nos iria acontecer. Só que, de vez em quando, os ais transformam‑se em iupis. E têm sido tantos os iupis da Deolinda. Os concertos em palcos cada vez maiores cá dentro.

Os concertos no estrangeiro, contra os vaticínios de que, sem o entendimento das letras, a razão para ouvir Deolinda se perdia. Haveria outros condimentos que o público que não fala português conseguiu perceber dentro da nossa música e que nos levaram por meio mundo fora. As experiências trocadas com outros músicos e outras culturas que depois se vieram aninhar na música que fazemos.

Até as polémicas, como a petição feita por um anónimo para elevar o Movimento Perpétuo Associativo a hino nacional, feita em tom de brincadeira, mas que muitos leram com indevida literalidade, ou todas as leituras escabrosas do «significado» da canção Parva Que Sou, quando aquilo que a canção queria cantar era bem claro e foi entendido por quem de direito: o público.

É sempre o público, essa massa de gente anónima, que nos permite podermos continuar a escrever o guião da vida da Deolinda. Algumas pessoas entre a massa anónima foram‑se tornando caras conhecidas e une‑nos agora uma partilha desses quilómetros de estrada feitos de pó e que resulta num laço bem apertado e forte.

A todos os que conhecemos e não conhecemos pelo nome, mas que estarão sempre lá, prontos e dispostos a ouvir‑nos, fica a nossa eterna gratidão. Somos felizes há dez anos por vossa causa.

 

[Publicado na edição em papel da Notícias Magazine de 5 de fevereiro de 2017 ]